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pergunta:

"Até quando vamos ter que agüentar a apropriação da idéia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

31.7.17

Precisamos falar sobre Henrique Meirelles

Precisamos falar sobre Henrique Meirelles

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Aristóteles Cardona Júnior
Meirelles é um dos principais responsáveis por vender
Meirelles é um dos principais responsáveis por vender "um produto" que não conseguiu entregar, o produto da recuperação econômica / Lula Marques/Agência PT
Enquanto isso, a economia segue afundando

Passado este período de pouco mais de 1 ano de consolidação do golpe que derrubou a presidenta Dilma Roussef, a ficha, como se diz popularmente, parece seguir caindo para grande parte da população. Hoje é muito difícil encontrar pessoas que defendam o governo de Temer ou até mesmo que achem que as coisas melhoraram desde a queda da Presidenta Dilma. É o que atestam todas as últimas pesquisas. Uma das mais recentes deixa claro que um governo nunca foi tão mal avaliado desde Sarney.

No meio deste rolo todo, alguns nomes já estão bastante rejeitados. É o exemplo do próprio Michel Temer. Outro grande exemplo é o de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e que segue preso. Mas há outros tantos nomes que precisam vir à tona. E um deles certamente é o de Henrique Meirelles, Ministro da Fazenda do governo golpista.

Meirelles é um dos principais responsáveis por vender "um produto" que não conseguiu entregar. Qual produto? O Produto da recuperação econômica. A tese deste pessoal é de que num cenário de dificuldade financeira, a solução passa por aumentar o arrocho, diminuir empregos, retirar direitos e por aí vai. Mas a verdade é que este tipo de pacote não resolve problemas. A história do Brasil mostra isso. Não precisa nem ser economista para saber.

Mais do que isso, o Governo Temer não apenas afunda ainda mais a economia do país, como mente descaradamente para a população. É possível verificar isso com a mudança do discurso do Ministro com relação ao aumento de impostos.

Há declarações suas no final de 2016 garantindo que não haveria aumento de impostos. Poucos meses depois, por volta de março de 2017, o ministro fala que se houver aumento de impostos, deverá ser temporário. Até que nas últimas semanas o discurso muda novamente e eles não escondem mais o aumento dos impostos. O mais recente foi o aumento que incide na gasolina. Tal aumento já representa o maior no preço do combustível dos últimos 13 anos. E certamente isso se refletirá em breve nos transportes públicos, na alimentação, etc.

Não bastaram poucos meses e o discurso se inverteu completamente. Enquanto isso, a economia segue afundando. Quais serão os próximos ataques à classe trabalhadora? Em que o momento o peso deixará de estar apenas em cima da população mais pobre? Não precisamos de Michel Temer ou de Henrique Meirelles. O povo não pode ser pagando a conta.


https://www.brasildefato.com.br/2017/07/28/precisamos-falar-sobre-henrique-meirelles/

Maduros e velhacos: Brasil e Venezuela

Maduros e velhacos: Brasil e Venezuela

Tarso Genro

Duas informações que circularam nas redes, na semana que passou, são significativas para compreender em que medida podemos traçar uma comparação do que ocorre na América Latina, nos dias de hoje, com os tristes anos 70, nos quais se aperfeiçoaram as mais sinistras ditaduras, que bloquearam as lutas reformistas de esquerda e as democracias no continente. Foi a época em que CIA – a velha CIA dos velhos golpes e assassinatos de Mossadegh, Sandino, Lumumba – já unida à direita fascista nativa no Chile, sinalizou para o mundo que a social-democracia  (sim, Allende era um social-democrata!) não teria a menor possibilidade de vingar por aqui e a Cuba comunista não poderia conviver na América Latina. Os EUA queriam continuar preservando o seu quintal à ferro e fogo e assim o fizeram. E agora estão fazendo de novo, por outros meios e "estilos", aqui em busca do pré-sal, da ocupação da Amazônia de forma irracional, da posse das nossas riquezas minerais "baratas", das nossas terras férteis para cultivos predatórios.

Nicolas Maduro | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom

De lá para cá, muita água correu: a redemocratização pelo alto no continente, a queda do Muro de Berlim, o fim do sistema soviético. A emergência da China como potência econômica decisiva no planeta, que estimulou a multipolaridade político-econômica global e Obama, no contraponto à pior direita americana, que trouxe Cuba de volta, com a emergência reformista liberal-rentista. A radicalização da terceira revolução tecnológica – da informática à infodigitalidade –  na América Latina, viu Ricardo Lagos, Kirchner, Chaves, Lula, Mujica ascenderem a governos no bojo da democracia. Todos, com os seus seguidores e consequências subiram com imperfeições, crises, continuidade da corrupção pelos mesmos atores de antes.

Limites, erros econômicos, não impediram grandes avanços distributivos: os pobres na mesa de negociação da democracia, melhoria do padrão de vida de milhões, menos crianças morrendo de fome, com o redespertar democrático, das sociedades periféricas ao núcleo orgânico do capitalismo rentista. O ódio de classe, manipulado pela maioria da grande mídia, todavia,  espalhou-se como uma sarna moral. Dividiu famílias, criando hostilidade entre vizinhos, promovendo ataques físicos nas ruas e nas escolas. E aqui chegamos, exaustos, mas vivos, em busca de uma saída democrática autêntica, para o nosso país e a América.

A primeira informação a que me refiro, vem de uma entrevista do professor Luiz Moreira, ao jornalista Paulo Moreira Leite, no site Brasil 247, postada em 28 de julho. O professor Moreira é ex-integrante, por duas vezes, do Conselho Nacional do Ministério Público e um atento observador do processo político nacional, jurista reconhecido internacionalmente. Ele diz que o "Processo Constituinte venezuelano é prenhe de legitimidade". Diz mais, que a eleição de 545 representantes, com 173 eleitos por "discriminação positiva" – oriundos de setores sociais frágeis em termos de força econômica e influência política – está seguindo o acordo da vontade constituinte originária, que construiu o atual Pacto Constitucional venezuelano. (Aliás, isso não é nenhuma novidade, no Estado de Direito formal – aduzo – pois os nossos atuais Senadores brasileiros que depuseram Dilma, por exemplo, não são eleitos a partir do critério "um eleitor, um voto", pois o voto de um cidadão do norte que elegeu Jucá vale, talvez, dez vezes mais do que voto de um  cidadão gaúcho).

A segunda informação a que me refiro, veiculada no dia 27 de julho, diz que o ministro Meirelles recebeu, dentro do atual sistema jurídico que vivemos – sem qualquer impugnação dos comentaristas de alta densidade moral e política da grande mídia – 217 milhões de reais, por consultorias prestadas a grandes empresas, inclusive a  J&F, do sr. Joesley Batista, valores estes, de "acordo com  os preços do mercado", para tais serviços. Os recebimentos são recentes e parte deles foram pagos ao Ministro, já exercendo o seu cargo no atual Governo. Esta afirmativa, "de acordo com os preços do mercado," deve ser verdadeira, porque o mercado na sociedade liberal-rentista, faz os preços dos seus serviços de acordo com a lucratividade que eles ensejam na acumulação sem trabalho, e os fazem -preferencialmente- por meios formais legais, quando isso é possível. O ministro Meirelles conhece profundamente o sistema financeiro e os espaços diretos ou indiretos de rentabilidade, para evitar um ganho "ilegal", que poderia comprometer a fruição de toda a sua fortuna, se fosse flagrado por uma tipificação penal.

Na verdade estas duas informações podem colocar, para as pessoas sensatas, o debate político sobre o Brasil e sobre a Venezuela, em outro patamar, a saber, em torno do sentido ético-político de cada um dos projetos, que é capaz de ensejar maior, ou menor legitimidade, aos seus Governos e as suas formas democráticas, perante o povo constituinte. Suponho que é pacífico que, aqui no Brasil, está em curso – para sermos coerentes com as próprias alegações do atual "arco" de Governo – um projeto que pretende dar maior "produtividade" ao setor público, com a redução dos seus gastos sociais e todos os demais sacrifícios, que as medidas em curso infringem aos setores populares de baixa e média-baixa renda. Para este projeto nacional, não é estranho ganhos como este do ministro Meirelles, que é apenas um exemplo minúsculo de todas as possibilidades que o sistema oferece, como transferência de renda de "baixo para cima", pelas mil formas "legais" que mercado financeiro sabe formatar.

Na Venezuela, temos um processo de crise diferente do nosso. A renda do petróleo, socializada sem previsibilidade pelos governos Chavez, contrariamente – por exemplo – ao que a Noruega fez depois das formidáveis descobertas de petróleo no Mar do Norte, levou rapidamente à crise aquele modelo distributivo. O Estado não induziu um modelo dinâmico e produtivo, capaz de reestruturar a sociedade de classes, na Venezuela, de molde a construir um novo bloco hegemônico. Bloco, de um lado, capaz de dar sustentação a uma revolução econômica, para proporcionar alimentos e educação, para os milhões de pobres, de maneira sustentável e, de outro,  capaz de manter as classes médias relativamente estabilizadas, como ocorreu nos primeiros Governos da Revolução Bolivariana.

Pode se dizer, sem temor excessivo de erro, que o oligopólio da mídia,  construiu aqui no Brasil – com os partidos e frações de partidos disponíveis para acordos espúrios (mais os "think-tanks" liberal-rentistas) uma saída política e institucional que ainda pretende  legitimar, onde os ganhos legais de Meirelles se tornam um modelo de sucesso empresarial, sem qualquer cara de nojo das elites que descontrolam um "país à deriva". A "legalização" do golpe por um Congresso marcado, numa parte significativa, pela corrupção e pelo fisiologismo histórico das oligarquias regionais ainda originárias da República Velha -com as quais todos os governos foram obrigados a governar – é o oposto do processo venezuelano. Pode-se dizer que ambos os sistemas são fruto da precariedade democrática das nossas instituições para resolver crises, mas um se submete à soberania popular e o outro (o nosso), tenta resolvê-la pelo fisiologismo e pela manipulação da informação, sem qualquer escuta da sociedade.

Também pode se dizer que a saída constituinte venezuelana é muito mais legitimável e moralmente digna, do que o golpe da Confederação dos Investigados e Denunciados, que acaba de fazer o país retornar à condição de pária internacional.  Como já me perguntaram, em qual o regime eu gostaria de viver, nas atuais circunstâncias – o do liberal-rentismo do oligopólio da mídia ou o modelo de Maduro – eu já adianto a resposta, a quem interessar possa: eu preferiria viver em "nenhum dos dois". E nem acho muito defensável, do ponto de vista da esquerda, um governo como o de Maduro. Para me definir, porém – em cada conjuntura concreta – eu sempre procuro olhar de que lado estaria a CIA. E fico do outro lado, se não for o lado dos fascistas ou dos nazistas. Isso serve, pelo menos, para ficar junto aos valores mínimos de uma utopia republicano-democrática, decente pelos menos nas suas intenções.

A subjetividade histórica das partes em confronto – colocada nos seus devidos termos – é extremamente importante na crise ideológica da pós-modernidade. Nela, aparentemente, todos os gatos parecem ser pardos, mas uns são tão pardos e velhacos que desaparecem no mercado das notícias e figuram, assim, como democratas de uma democracia sem povo.

.oOo.

Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

O semiocapitalismo

O semiocapitalismo


30 Julho 2017

"O nível de predomínio do capital financeiro na atualidade é esmagador e constitui o eixo central da acumulação contemporânea, até praticamente reduzir a produção de objetos materiais ou imateriais à periferia na busca de rentabilidade. O semiocapitalismo [capitalismo semiótico] se tornou o ponto máximo de abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos", escreve o filósofo Ricardo Forster, analisando a obra Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva, de Franco "Bifo" Berardi, filósofo, escritor e agitador cultural italiano. 

A análise é publicada por Página/12, 28-07-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O semiocapitalismo se tornou o ponto máximo de abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos

Leio, não sem começar a me perguntar algumas coisas que me remetem a nossa atualidade, o último livro de Franco "Bifo" BerardiFenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva, no qual esmiúça a época da digitalização e do predomínio da financeirização do mundo, não sem derramar, ao menos sobre mim, uma sutil dose de pessimismo civilizatório, que conduz mais à melancolia que à rebelião. 

Não por isso, deixa de ser um livro valioso e agudo em sua tentativa de cartografar a obscura complexidade de nossa época. Detenho-me em um dos tantos parágrafos de um texto inquietante: "O ponto crucial da crítica de Baudrillard é o fim da referencialidade e a (in)determinação do valor. Na esfera do mercado, as coisas não são consideradas a partir do ponto de vista de sua utilidade concreta, mas, ao contrário, a partir de sua permutabilidade e seu valor de troca. De maneira similar, na esfera da comunicação, a linguagem é comercializada e valorizada como performance. É a efetividade, e não o valor de verdade, a regra da linguagem na esfera da comunicação. É a pragmática, e não a hermenêutica, a metodologia para compreender a comunicação social, especialmente na era dos novos meios de comunicação" (pág. 175). 

Nestas reflexões de Berardi se manifesta o processo que, no interior da modernidade burguesa, chegou, séculos depois, ao que ele denomina "semiocapitalismo" [capitalismo semiótico], esta etapa na qual o signo linguístico se emancipou plenamente de qualquer referencialidade para se deslocar por uma espacialidade na qual a abstração domina.

Citando Jean Baudrillard – que não costuma ser citado, ultimamente, para além do valor antecipatório de muitas de suas análises -, diz que o filósofo francês "propôs uma semiologia geral da simulação baseada na premissa do fim da referencialidade, tanto na economia como no campo linguístico. Em O espelho da produção, escreve: '[...] a necessidade, o valor de uso e o referencial 'não existem': não passam de conceitos produzidos e projetados em uma dimensão genérica pelo próprio desenvolvimento do sistema de valor de troca'. O processo de autonomização do dinheiro, que é a principal característica do capitalismo financeiro, pode se inscrever no marco geral da emancipação da semiose da referencialidade" (págs. 172-173).

Os sujeitos sujeitados no interior desta lógica do capital são, agora, falados por esta configuração feita de algoritmos, figuras e diferenças digitais. A armadilha já foi construída e caímos em suas redes. Seremos capazes de romper seus nós?

O capital financeiro não só constitui o ponto mais avançado da "abstração", já destacado por Marx, como também, na perspectiva da comunicação, introduz, de forma radical, a autonomização do signo e de seu impacto na produção artificial de conteúdos imateriais que, no entanto, definem o vínculo com a realidade determinando a busca de rentabilidade por parte de um capital que abandonou a esfera da produção para se centrar na esfera financeira. Ao se evaporar a referencialidade, o que também se encerra é a vinculação argumentativa, abrindo passagem à fabricação de sujeitos impulsionados por signos vazios e abstratos que impactam de cheio na dimensão afetiva e sensível.

"Todos os signos – escreve Baudrillard, em "A troca simbólica e a morte" – se permutam entre si, daqui por diante, sem se permutar por algo real (e não se permutam bem, não se permutam perfeitamente entre si, a não ser na condição de não se permutar por algo real)". Pensar as estratégias comunicacionais é adentrar nesta hipérbole do signo, na qual a operação de deslocamento se consumou de forma definitiva, impactando de cheio na subjetivação de indivíduos que estabelecem vínculos com "a realidade" por meio desta "emancipação do signo de sua função referencial". Na era da "pós-verdade", tudo pode ser dito e convertido em "verdade irrefutável". Romper esta nova forma de feitiço constitui o desafio mais árduo e difícil de qualquer projeto de libertação.

O perigo é que a dimensão real e imaginária deste 'transtrocamento' da materialidade em abstração acabe por ser aceita pelos sujeitos como a efetiva "realidade", sem chances de se subtrair desta colonização cada vez mais profunda. "A virtualização financeira – diz Berardi – é o último passo na transição para a forma do 'semiocapital'. Nesta esfera, aparecem dois novos níveis de abstração, como fruto da abstração do trabalho, a respeito da qual Marx escreveu (...). A abstração digital soma uma segunda camada à abstração capitalista. A transformação e a produção já não acontecem no campo dos corpos, da manipulação material, mas, sim, no da pura interação autorreferencial entre máquinas informáticas. A informação toma o lugar das coisas e o corpo fica eliminado do terreno da comunicação (...). Depois, há um terceiro nível de abstração, que é o da abstração financeira. As finanças (...) se desvincularam da necessidade da produção. O processo de valorização do capital, ou seja, aquele que aumenta o dinheiro investido, já não passa pela instância da produção do valor de uso ou, inclusive, pela produção física ou semiótica de bens" (págs. 176-177). 

De qualquer modo, Giovanni Arrighi, em seu livro O longo século XX, já havia destacado que em cada uma das etapas ou ciclos atravessados pelo capitalismo, desde sua primeira estação genovesa, era possível constatar um traço comum a todas: que em seus períodos de declive se produzia, no centro hegemônico de cada época, um deslocamento do capital comercial e produtivo para o capital financeiro (isso aconteceu com Gênova, Holanda, Grã-Bretanha e, atualmente, com Estados Unidos que, segundo Arrighi, constituem os quatro ciclos de acumulação que definem o percurso histórico da economia-mundo capitalista). Traço mais que interessante – aquela condição de hegemonia financeira nas épocas de decadência, em cada etapa do capital – que nos permite antecipar a crise, talvez terminal, do ciclo dominado pelos Estados Unidos. É como se no corpo imaterial do capitalismo já estivesse escrito, desde seus começos no século XVI, a significação decisiva da financeirização como núcleo último de seu desdobramento histórico e como marca de sua condição crepuscular.

O nível de predomínio do capital financeiro na atualidade é esmagador e constitui o eixo central da acumulação contemporânea

Claro que, e nisto é preciso dar razão a Berardi, o nível de predomínio do capital financeiro na atualidade é esmagador e constitui o eixo central da acumulação contemporânea, até praticamente reduzir a produção de objetos materiais ou imateriais à periferia na busca de rentabilidade. O semiocapitalismo se tornou o ponto máximo de abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos. 

Berardi acrescenta que a depredação do mundo real se tornou possível, em toda a sua extensão, no exato momento em que o capital pôde prescindir da produção de coisas úteis para se centrar, quase com exclusividade, na dimensão abstrata da circulação e investimento monetário. "A separação do valor de um referencial conduz à destruição do mundo existente" (pág. 178). O domínio da abstração generalizada como traço decisivo da etapa neoliberal não só avança sobre uma depredação do mundo real, como também deixa sem capacidade de reflexão e, portanto, de crítica, a uma humanidade que é incapaz de compreender os mecanismos que definiram uma atualidade demolidora, sobre a qual parece impossível intervir em um sentido político.

Slavoj Zizek, por sua vez, também insiste neste caráter desmaterializador e supostamente não ideológico do capitalismo contemporâneo, um caráter que se torna indecifrável para o indivíduo presos nas volumosas, mas invisíveis malhas do consumo e da virtualidade, a trama de dominação que segue exercendo seu grande poder sobre os corpos e a natureza, ao mesmo tempo em que promove uma "verdade-sem-significado que se adapta, sem inconvenientes, à era da digitalização e da comunicação de massas.

Não existe nenhuma 'cosmovisão capitalista', nenhuma 'civilização capitalista' propriamente dita: a lição fundamental da globalização consiste precisamente em que o capitalismo consegue se adaptar a todas as civilizações, desde a cristã até a hindu ou a budista, do Oriente ao Ocidente

Em Problemas no paraíso. Do fim da história ao fim do capitalismo, [Zizek] destaca que talvez "seja aqui onde deveríamos localizar um dos principais perigos do capitalismo: ainda que seja global e abarque todo o mundo, mantém uma constelação ideológica stricto sensu sem mundo, privando a grande maioria das pessoas de qualquer mapa cognitivo significativo. O capitalismo é a primeira ordem socioeconômica que destotaliza o significado: não é global em nível de significado. Além do mais, não existe nenhuma 'cosmovisão capitalista', nenhuma 'civilização capitalista' propriamente dita: a lição fundamental da globalização consiste precisamente em que o capitalismo consegue se adaptar a todas as civilizações, desde a cristã até a hindu ou a budista, do Oriente ao Ocidente. A dimensão global do capitalismo só pode ser formulada em nível de verdade-sem-significado, como Real do mecanismo global de mercado" (pág. 16). Essa destotalização do significado corresponde ao abandono da ação reflexiva de parte de sujeitos carentes daqueles instrumentos promovidos pela ilustração e que permaneceram como restos arqueológicos de uma história vazia de conteúdo.

Há uma asfixia da compreensão que é proporcional à complexidade tecnológica, a partir da qual se deslocam os infinitos fluxos do capital financeiro pela abstração do éter informacional. É como se aquele sujeito da ilustração tivesse se transformado em um indivíduo passivo, que é falado por uma realidade desmaterializada, na qual só parece imperar o reino da ficção e da artificialidade. Nada permanece da aposta kantiana que postulava indivíduos autônomos e soberanos. O semiocapitalismo se move, sem inconvenientes, no interior de uma sociedade presa nas redes do binarismo digital. 

O semiocapitalismo se move, sem inconvenientes, no interior de uma sociedade presa nas redes do binarismo digital.

Bifo Berardi disse isto de um modo direto e preocupante: "Hoje em dia, a tecnologia digital se baseia na inserção de memes neurolinguísticos e dispositivos automáticos na esfera da cognição, na psique social e nas formas de vida. Tanto metafórica com literalmente, podemos dizer que o cérebro social está sofrendo um processo de cabeamento, mediado por protocolos linguísticos imateriais e dispositivos eletrônicos. Na medida em que os algoritmos se tornam cruciais na formação do corpo social, a construção do poder social se desloca do nível político da consciência e a vontade, ao nível técnico dos automatismos localizados no processo de geração de intercâmbio linguístico e na formação psíquica e orgânica dos corpos" (pág. 34). 

Fenomenologicamente, isto pode ser observado nas estratégias desenvolvidas pelos meios de comunicação na hora de construir dispositivos que operam sob a lógica dos memes neurolinguísticos, aos quais Berardi faz referência, buscando, justamente, saltar a cristalizada capacidade reflexiva dos telespectadores ou dos usuários da internet e de redes sociais, até atingir sua mais profunda sensibilidade, onde as respostas se vinculam ao gesto automático que se manifesta como um antes e, por que não, como um bloqueador de qualquer ação argumentativa.

Chamo de semiocapitalismo a atual configuração da relação entre linguagem e economia. Nesta configuração, a produção de qualquer bem, seja material ou imaterial, pode ser traduzida a uma combinação e recombinação de informação (algoritmos, figuras, diferenças digitais)

Mais adiante, e seguindo sua desconstrução da era digital, Berardi especifica melhor sua definição da atual etapa da sociedade dominada pela confluência do semiológico e do financeiro: "Chamo de semiocapitalismo a atual configuração da relação entre linguagem e economia. Nesta configuração, a produção de qualquer bem, seja material ou imaterial, pode ser traduzida a uma combinação e recombinação de informação (algoritmos, figuras, diferenças digitais). A semiotização da produção social e do intercâmbio econômico implica uma profunda transformação no processo de subjetivação. A infosfera atua diretamente no sistema nervoso da sociedade, afetando a psicoesfera e a sensibilidade em particular. Por esta razão, a relação entre economia e estética é crucial para entender a atual transformação cultural" (pags. 127-128). 

A massa dos cidadãos-consumidores se movimenta no interior deste processo de estetização do mundo, que corresponde ao que Nicolás Casullo chamava de "culturalização da política", perspectiva que nos leva diretamente à influência decisiva que se estabeleceu entre as esferas da linguagem e da economia no interior do semiocapitalismo, uma categoria perturbadora que busca decifrar a fabricação de subjetividade e os novos dispositivos da servidão voluntária, que já não se desdobra na dimensão exclusiva da imagem, mas penetra nos interstícios da linguagem até atingir seu núcleo mais profundo e inconsciente. Os sujeitos sujeitados no interior desta lógica do capital são, agora, falados por esta configuração feita de algoritmos, figuras e diferenças digitais. A armadilha já foi construída e caímos em suas redes. Seremos capazes de romper seus nós?



http://www.ihu.unisinos.br/570100-o-semiocapitalismo




Neta do Lula enfrenta o Globo!

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Neta do Lula enfrenta o Globo!

O Globo não vai fazer comigo o que fez com a minha mãe!
publicado 10/12/2015
Bia Lula

(Fotos: Facebook de Bia Lula)

Conversa Afiada reproduz post de Bia Lula, neta do presidente Lula, no Facebook:

Venho publicamente relatar o que vem acontecendo comigo nos últimos dias, e de tão indignada, resolvi compartilhar com vocês que venho sendo incomodada, da maneira inconveniente e porque não dizer, assediada pela repórter Fernanda Krakovics, do Jornal O Globo, que diz que irá publicar uma matéria a meu respeito, eu querendo ou não.

Quero deixar claro que o Grupo Globo não me pauta, e que não vai fazer comigo o que tem feito com minha mãe, desde as eleições de 89, e com os meus tios, diariamente difamados e caluniados pela imprensa golpista.

Sem contar o que fazem com o maior amor da minha vida e o melhor Presidente que este País já teve, meu avô, Luiz Inácio Lula da Silva. Sim, meu nome é Bia Lula e tenho SIM, o maior orgulho de toda sua trajetória de vida.

Meu avô, minha liderança, tirou milhões de brasileiros do mapa da FOME e da MISÉRIA, e milita em nível mundial na erradicação da FOME e da POBREZA.

Mas ok, na verdade, o que incomoda essa gente, é o fato dele ser um retirante nordestino, que sobreviveu à fome, uma liderança que surgiu do chão da fábrica, um verdadeiro BRASILEIRO.

Não me venham com este procedimento baixo e truculento.

Não devo satisfações da minha vida e não devo nada a ninguém, quem deve é o Grupo Globo, que nada mais é que uma concessão pública que subestima e tenta manipular a inteligência do nosso povo.

Sei me defender, esta prática mesquinha de terrorismo midiático não me mete medo, se querem conhecer minha militância, ai vai.

Sobrevivir a cualquier precio

Opinión
Sobrevivir a cualquier precio

Desde Río de Janeiro

Pocas cosas son tan patéticas, y a la vez tan reveladoras, como las que vive Brasil en estos tiempos de tinieblas. Tenemos a un presidente ilegítimo, un traidor vil que sirvió de elemento esencial para que el gran capital y el neoliberalismo más fundamentalista lograsen lo que las urnas electorales les había negado desde 2003: el poder. 

Figura de estatura ínfima en todos los sentidos, de la política a la moral, Michel Temer representa, a la vez, uno de los más graves equívocos de Lula da Silva y del PT, que determinaron que semejante tipo fuese el compañero de fórmula electoral de Dilma Rousseff. 

¿Por qué? Porque la legislación electoral en Brasil es absurda. Existen hoy como 28 partidos con representación parlamentaria, lo que hace imposible que el presidente electo llegue con mayoría en el Congreso. Pactar es inevitable. El problema, entonces, es otro: ¿pactar con quién? Pues con el que pueda asegurar esa mayoría. Alianzas espurias, desde luego, pero al fin y al cabo, alianzas. Y Temer, sólido corrupto y conocedor de los vericuetos de la compra y venta de diputados, parecía el tipo indicado.

Es en este punto específico que aparece el peligro: cuando se convive, como ha sido el caso de Dilma Rousseff en su segundo y frustrado mandato, con la peor, en todos los aspectos –moral, ético, ideológico–, legislatura en décadas, es casi inevitable que esa alianza se dé con canallas. Todos sometidos al poder del entonces vicepresidente, Michel Temer, y todos, claro, dispuestos a traicionar a cambio de diez porotos.

Si a ese cuadro se suma una presidenta sin carisma popular y de escasísimo talento para la negociación, se tiene completo el cuadro de antecedentes que llevó Brasil al callejón sin salida en que se encuentra.

Luego de la cuarta derrota electoral consecutiva frente al PT, el gran capital, las multinacionales, los medios hegemónicos de comunicación y esa sacrosanta e inasible entidad llamada "mercado" se dieron cuenta de que ya era hora de terminar con la fiesta. Y así nació el golpe armado y estructurado por el senador Aécio Neves (luego grabado cometiendo altos actos de corrupción), ejecutado por el entonces presidente de la Cámara de Diputados Eduardo Cunha (ahora en la cárcel), avalado por el ex presidente Fernando Henrique Cardoso (que trata de armar escudos contra denuncias), y llevado a cabo por un Congreso en el que más de un tercio de los diputados y senadores se encuentran bajo investigación o fueron denunciados por corruptos.

Pasado más de un año desde la destitución de Dilma Rousseff y sus 54 millones 500 mil votos, lo que se ve es un país devastado. Los últimos sondeos indican que el gobierno ostenta el respaldo de alrededor del cinco por ciento de los brasileños. 

Mientras llueven fundadas denuncias contra Temer y sus asesores más directos y poderosos, los medios hegemónicos de comunicación que fueron fundamentales para el golpe abandonan al náufrago, en especial Globo, principal responsable de que se llegara donde se llegó. También las federaciones patronales no ocultan su malestar por la demora en implantar "reformas" que benefician al capital y destrozan derechos laborales y sociales, y por la inmensa incapacidad del gobierno para impedir que la recesión no solo persista como se profundice

Los neoliberales del PSDB del ex presidente Cardoso están divididos entre los que defienden mantenerse en el gobierno y los que exigen la salida. Involucrados en sus propios escándalos, no quieren ver los de Temer y su pandilla sumado a los suyos.

La economía desangra y hay amenaza de colapso: varios sectores públicos disponen de presupuesto solamente hasta septiembre, y no se sabe de dónde sacar lo que falta. Los cortes drásticos de recursos en educación, salud pública, seguridad, hicieron que ya no haya de dónde amputar más. 

Frente a ese cuadro drástico, ¿qué hace el gobierno? Trata de sobrevivir a cualquier precio e impedir que Temer sea defenestrado, lo que provocaría una fuerte presión popular para que se anticipen las elecciones previstas para octubre del año que viene. Además, destituidos, Temer y su grupo irían a parar directamente a la justicia común.

Para resistir, el gobierno aumenta de manera espectacular los gastos con publicidad inútil y distribuye océanos de dinero para comprar los votos de diputados para impedir que la Corte Suprema lo investigue.

El temor de Temer, sin embargo, no está solamente en que lo catapulten por corrupción: es que aunque la escandalosa compra de diputados resulte, él podrá ser expelido por inviable a los intereses del mercado. Ya quedó claro que el déficit fiscal previsto en astronómicos 139 mil millones de reales (unos 44 mil millones de dólares) no será alcanzado. Se prevé al menos unos siete mil millones de dólares más. 

No hay la más ínfima perspectiva de retorno de inversiones, ni para que se recupere parte significativa de puestos laborales a mediano plazo. El consumo, mientras tanto, está por los suelos, y la tendencia es que se hunda cada vez más. 

Para evitar ser juzgado, Temer distribuye alegremente miles de millones mientras su ministro de Hacienda, Henrique Meirelles, insiste en cortar gastos básicos (hasta la emisión de pasaportes fue suspendida) en defensa del tan ambicionado 'equilibrio fiscal'. 

Por si todo eso fuera poco, ahora se supo que Meirelles, el niño mimado del mercado, ganó nada menos que 86 millones de dólares como "consultor". Es una cifra capaz de provocarle surtos de envidia en consultores, digamos, del porte de Henry Kissinger. 

Sobran razones para sospechar que esa montaña de dinero no vino exactamente de "consultorías", sino de algo más. El dinero, claro, fue depositado en el exterior.

Cada vez que uno cree que no hay más cómo hundir al país, aparece algo nuevo para indicar que el pozo no tiene fondo.

https://www.pagina12.com.ar/52873-sobrevivir-a-cualquier-precio

30.7.17

"Chega a ser surreal."

"Chega a ser surreal. Em nome da "democracia", governos de diversos países – entre eles, Estados Unidos, México, Colômbia e Panamá, além, é claro, dos golpistas brasileiros –, acompanhados pelas empresas de mídia mais influentes do mundo, se mobilizam contra a eleição de uma Assembleia Constituinte convocada com garantias à ampla participação da cidadania e ao pleno exercício das liberdades políticas, de acordo com a Constituição em vigor."



Política

América do Sul

O futuro da Venezuela está em jogo

por Igor Fuser* — publicado 30/07/2017 01h11
Os avanços da Revolução Bolivariana estão ameaçados no cenário de incerteza política que envolve a eleição da Assembleia Constituinte
Fotos: Ronaldo Schemidt/AFP
Hugo Chávez em grafite

O chamado às urnas é uma tentativa legítima de preservar avanços sociais e evitar uma guerra civil

Chega a ser surreal. Em nome da "democracia", governos de diversos países – entre eles, Estados Unidos, México, Colômbia e Panamá, além, é claro, dos golpistas brasileiros –, acompanhados pelas empresas de mídia mais influentes do mundo, se mobilizam contra a eleição de uma Assembleia Constituinte convocada com garantias à ampla participação da cidadania e ao pleno exercício das liberdades políticas, de acordo com a Constituição em vigor.

Esses supostos guardiães da liberdade mantêm silêncio sepulcral diante da ofensiva terrorista das milícias opositoras, que já causaram 110 mortes. Nos últimos dois meses, grupos de jovens sob o comando dos setores mais extremistas da oposição – em especial, o partido Vontade Popular, liderado por Leopoldo Lopez – desfecharam centenas de ataques contra pessoas identificadas como apoiadoras do governo e contra o patrimônio público, com o objetivo de criar um cenário de caos a ponto de inviabilizar a votação da Constituinte neste dia 30 de julho.

Centenas de prédios e equipamentos públicos foram depredados e, em alguns casos, incendiados. Entre eles estão ônibus, centros de abastecimento popular, postos de saúde, delegacias de polícia, escolas, quartéis, escritórios ou agências de instituições estatais como a Misión Vivienda (o equivalente ao programa Minha Casa, Minha Vida).

A divulgação desses fatos, presentes na realidade cotidiana da Venezuela desde a convocação da Constituinte pelo presidente Nicolás Maduro, em 1º de maio, é sistematicamente sonegada aos leitores, ouvintes e telespectadores das empresas midiáticas que manejam a quase totalidade daquilo que se faz passar por informação, no mundo inteiro. Em qualquer outro lugar do planeta, tais ações violentas seriam definidas como terrorismo, mas no caso da Venezuela os responsáveis por esses crimes são louvados pelos jornalistas estrangeiros como se fossem manifestantes "pacíficos".

As mortes são atribuídas, de forma desonesta, às forças de segurança, quando se sabe perfeitamente, a partir da apuração das circunstâncias em que morreu cada uma das pessoas atingidas pela onda de violência, que mais de 60% dos casos fatais ocorreram em decorrência da ação dos grupos opositores, que usam armas de fogo e adotaram, entre outras práticas, a de incendiar pessoas identificadas com o chavismo. Nos incidentes que a ação policial resultou em morte ou ferimentos, os envolvidos estão presos e respondem a processos judiciais (há ainda episódios em que não se conseguiu identificar os responsáveis).

A manipulação da opinião pública pela mídia vai muito além da ideologia – o viés classista que impregna permanentemente os conteúdos de modo a conformar uma visão de mundo coerente com os interesses das classes dominantes no capitalismo global. O que está em curso, no tocante à Venezuela, é uma campanha em que as empresas de comunicação se engajam, conscientemente, numa operação política, conduzida a partir de Washington, para depor o governo de Maduro e substituí-lo por autoridades alinhadas com os interesses da burguesia local e do imperialismo estadunidense.

O sucesso ou fracasso dessa estratégia golpista depende, em grande medida, dos acontecimentos deste domingo e, em particular, do maior ou menor comparecimento às urnas para a escolha da nova Constituinte. Um índice baixo de votação agravará a crise política, fragilizando o governo diante da campanha desestabilizadora e dos atores internos e externos nela envolvidos. Já uma participação expressiva dos cidadãos reforçará a legitimidade do governo e criará um firme alicerce para a instalação de uma Constituinte capaz de enfrentar o impasse político e as gravíssimas dificuldades econômicas.

Não é exagero afirmar que a Venezuela vive um dos dias mais cruciais de sua história. O chamado às urnas para eleger uma Constituinte põe em jogo o futuro da Revolução Bolivariana, como foi chamado o amplo projeto de mudança política e social iniciado com a eleição de Hugo Chávez à presidência da Venezuela, em dezembro de 1998. Em quinze anos à frente do governo, Chávez inverteu as prioridades do Estado, ao afastar do poder as tradicionais elites econômicas ligadas aos interesses externos. A maior parte da renda petroleira passou a ser aplicada em benefício das demandas da maioria desfavorecida. Milhões de venezuelanos ganharam acesso a serviços de saúde adequados, por meio de uma rede imensa de postos de atendimento instalados nas áreas mais pobres e operados por médicos e outros profissionais cubanos, a Misión Barrio Adentro.

O analfabetismo foi erradicado e rede de ensino público em todos os níveis, inclusive o universitário, ampliou-se em tal escala que hoje a Venezuela é o país do mundo com mais estudantes no ensino superior, em proporção ao número de seus habitantes. Para enfrentar o déficit habitacional, já foram entregues mais de 1,7 milhão de moradias a famílias de baixa renda, mediante pagamentos simbólicos, compatíveis com sua condição econômica.

Os idosos conquistaram o direito à aposentadoria digna, os salários reais se elevaram significativamente e a participação popular nas decisões sobre gastos públicos se tornou prática cotidiana em milhares de conselhos comunitários espalhados pelo país inteiro. Tudo isso, em um contexto de plena democracia. A imprensa funciona livremente e em nenhum outro país do mundo se realizaram tantas eleições e consultas à população.

Protestos em Caracas
Opositores entram em confronto com a polícia durante protesto em Caracas, na sexta-feira 28

Todas essas conquistas (e muitas mais) estão ameaçadas no cenário de incerteza política que envolve a eleição da Constituinte. Em quase duas décadas de chavismo, a Revolução Bolivariana superou todas as tentativas das elites dominantes de recuperar seus privilégios, por meios legais e ilegais.

Nas urnas, o chavismo se saiu vencedor em quase todas as ocasiões. A via golpista foi derrotada em 2002, quando a direita política, apoiada por uma parcela das Forças Armadas e pelo aparato midiático, tomou de assalto o palácio de Miraflores, sob as bênçãos dos EUA, e chegou a levar preso o presidente Chávez. Mas o golpe fracassou diante da resistência da população mais pobre e da lealdade da maioria dos militares, e Chávez regressou à presidência em apenas três dias, nos braços do povo.

A morte do presidente, em 2013, e a queda dos preços do petróleo – produto do qual a economia do país é altamente dependente desde o início do século passado – encorajaram os opositores de dentro e de fora da Venezuela. Para a elite dominante dos EUA, é inaceitável a consolidação de um governo de esquerda na América do Sul (seu tradicional "quintal") comprometido com a soberania nacional, o controle estatal dos recursos naturais e a aplicação de políticas públicas voltadas para a superação das desigualdades sociais, na contramão do neoliberalismo.

Intensificou-se então a chamada "guerra econômica", ou seja, a utilização dos recursos de poder à disposição da burguesia venezuelana para provocar a inflação dos preços, a crise cambial e escassez de mercadorias essenciais, como alimentos, remédios e peças de reposição para automóveis. A sabotagem empresarial se somou às dificuldades decorrentes da redução da renda petroleira e aos graves erros de gestão governamental para gerar uma situação de crescente desconforto entre a população, angustiada com a alta dos preços e com as longas horas de fila necessárias para conseguir os produtos básicos do dia a dia.

Nesse cenário, a oposição reunida na Mesa de Unidade Democrática (MUD) alcançou, em dezembro de 2015, a sua primeira vitória eleitoral, ao obter 56% dos votos para a Assembleia Nacional, o parlamento venezuelano, o que (pelo sistema de voto distrital) representou a conquista de quase dois terços das cadeiras. Se os líderes da MUD estivessem dispostos a atuar de acordo com as regras do jogo democrático, usariam o domínio do Legislativo para impulsionar suas próprias propostas de superação da crise, acumulando forças para disputar, com chances, as eleições presidenciais de 2019. Mas, sem nada de concreto a propor, optaram pelo caminho insurrecional, de olho na conquista imediata do poder.

Essa aventura já tinha sido tentada em 2014, com a ofensiva de ações violentas denominada por eles como "A Saída", que fracassou após deixar o saldo trágico de 43 mortes e danos materiais incalculáveis. Agora, diante do cenário econômico desfavorável, a direita se sente mais empoderada, e a disposição de Washington em intervir na política interna venezuelana se mostra mais efetiva.

O Legislativo declarou guerra ao Executivo e foi colocado fora da lei pelo Judiciário, diante da recusa da liderança da MUD em aceitar a impugnação de três deputados por conta de fraudes na eleição de 2015. O avanço das forças de direita em dois países vizinhos, Argentina e Brasil, viabilizou uma ofensiva diplomática para isolar a Venezuela e fragilizar ainda mais o seu governo. Enquanto isso, no plano interno, a guerra econômica atingiu o auge com a recusa de grande parte das empresas privadas em seguir produzindo, o que agravou o problema do desabastecimento.

Contra vento e maré, a Revolução Bolivariana resiste. Uma parcela significativa da população mantém sua fidelidade ao chavismo, consciente do terrível retrocesso político e social que significaria a derrubada do governo de Maduro e a tomada do poder por uma elite fascista, violenta, com sangue nos olhos, sedenta por vingança e pela recuperação dos privilégios perdidos. No plano externo, a ação concertada dos lacaios de Washington, como o argentino Mauricio Macri, o brasileiro Michel Temer e o mexicano Enrique Peña Nieto, fracassou até agora na tentativa de excluir a Venezuela do Mercosul e de aprovar, na Organização dos Estados Americanos (OEA), alguma resolução que signifique carta branca ao golpismo e à intervenção estrangeira.

As bases populares do chavismo estão mobilizadas no enfrentamento à crise econômica, articulando os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), até agora bem-sucedidos em fornecer a milhões de famílias mais necessitadas uma cesta de alimentos básicos vendidos a preços justos, evitando um colapso humanitário. E as Forças Armadas permanecem leais à Constituição, rejeitando a tentação do golpismo.

proposta da Constituinte surgiu, nesse contexto, como meio de encontrar uma solução pacífica, democrática, em que o verdadeiro soberano – o povo – possa assumir em suas próprias mãos o controle das instituições políticas e definir os caminhos do futuro. É uma tentativa legítima, rigorosamente fundamentada na Constituição, de preservar os avanços sociais da Revolução Bolivariana e de impedir que a atual situação de confronto político degenere em uma guerra civil que, certamente, seria acompanhada de intervenção estrangeira direta. Se vai dar certo, ninguém sabe.


* Igor Fuser é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC) e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI).




28.7.17

[Melhor e Mais Justo: Política e Sociedade]

[Melhor e Mais Justo: Política e Sociedade]

Derrotas, desilusões.

Recessão, depressão.

Convulsão ou conciliação?

Diante do espelho de uma parte da sociedade que disputa, com violenta força, narrativas e privilégios, revela-se a imagem das vísceras expostas dos poderes e das instituições da república.

No vasto espaço entre apáticos, conformados, coniventes, aturdidos, indignados e revolucionários, segue em curso, às claras, o sequestro de direitos e garantias fundamentais da democracia.

Como se estabelecem, nesse momento, as relações entre a sociedade e a política institucional?

Essa é a conversa no Melhor e Mais Justo, com Jessé Souza, sociólogo:

https://www.youtube.com/playlist?list=PLWOdS62CKLoKAo_cSg_2NC_a9bYmW4RC4




Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz