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pergunta:

"Até quando vamos ter que aguentar a apropriação da ideia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

23.2.19

Notas para debater a crise da Venezuela

ARTIGO

Notas para debater a crise da Venezuela, por João Pedro Stedile

Defender soberania na Venezuela é defender autodeterminação dos povos contra o império dos EUA, afirma dirigente do MST

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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21 de Fevereiro de 2019 às 18:05
Dirigente sem-terra João Pedro Stedile (direita) durante ato realizado em São Paulo no dia 8 de fevereiro em apoio ao governo bolivariano - Créditos: Mauro Ramos
Dirigente sem-terra João Pedro Stedile (direita) durante ato realizado em São Paulo no dia 8 de fevereiro em apoio ao governo bolivariano / Mauro Ramos

João Pedro Stedile, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), escreve alguns apontamentos para ajudar a entender a crise geopolítica na Venezuela e a ofensiva dos Estados Unidos para desestabilizar o projeto bolivariano.

:: O que está acontecendo na Venezuela? ::

1. Há uma crise internacional do modo de produção capitalista que vem se aprofundando desde 2008. A hegemonia do capital financeiro estabelece que apenas as grandes corporações e os bancos acumulem; ao contrário disso, as economias dos países se mantêm à margem e as populações, em especial os trabalhadores, pagam com mais desemprego, aumento da desigualdade, migrações, conflitos sociais e perda de direitos, além da diminuição dos serviços públicos básicos de educação, saúde, moradia, etc.

2. Com a eclosão da crise econômica, os governos construídos em pactos de conciliação de classe e estabilidade política não conseguem mais se sustentar, porque o Estado e suas finanças se transformam em disputa das classes.

3. Há também uma crise da chamada democracia formal burguesa. As eleições e seus governos não conseguem mais representar os interesses reais da maioria da sociedade, porque suas vitórias são fraudulentas, manipuladas e custeadas a base de milhões. Dessa maneira, como reflexo dessa crise, a população não acredita mais nos políticos e no regime de representação formal.

4. Diante desse contexto internacional, o capital dominante, por meio das corporações e bancos, volta-se prioritariamente para a apropriação privada dos recursos da natureza: petróleo, minérios, água, árvores, biodiversidade e energia, como forma de obter altas taxas de lucro e, proveniente dessa renda extraordinária, voltar a acumular e a crescer. No entanto, nem todos os capitalistas: apenas aqueles que se apropriarem dos bens da natureza, que eram comuns, que não foram produzidos pelo trabalho e, ao se transformarem em mercadorias, adquirem um preço com uma renda fantástica.

5. Na disputa internacional por mercados e bens naturais, desenhou-se uma nova correlação de forças entre os Estados Unidos, a Europa Ocidental, a Eurásia (Rússia, Irã, China). Essas economias disputam entre si a apropriação de bens da natureza e os mercados. Isso levou a que os capitalistas dos EUA aumentassem suas pressões sobre a América Latina, para mantê-la como território refém de seus interesses, seu "pátio traseiro", como costumam nos chamar, e, assim, têm acesso a bens e mercados e se contrapõem em melhores condições frente a seus concorrentes internacionais.

6. No mundo da política e da ideologia, as crises fizeram emergir no mundo todo novas forças burguesas de ultradireita. Essas forças reacionárias se constroem ideologicamente com novos inimigos: os migrantes, os direitos dos trabalhadores, os costumes, a cultura, etc.

7. Infelizmente essas forças de ultradireita conquistaram, pelo voto, alguns governos, como o governo Donald Trump nos Estados Unidos; Itália, Hungria e Andaluzia na Europa; e na Índia e nas Filipinas na Ásia. Aqui na América Latina, conquistaram os governos de Argentina, Brasil, Paraguai, Chile, Peru e El Salvador.

8. Para vencer as eleições, as forças de ultradireita não expõem seus projetos e concepções ideológicas, porque sabem que não há apoio da maioria da população, então passam a manipular a opinião pública, com o uso intensivo da internet, da produção de mentiras sistematicamente contra a esquerda e os setores progressistas. Ainda se utilizam das igrejas pentecostais para iludir as populações mais pobres que delas são dependentes.

9. Tudo isso aconteceu também na crise da década de 1930, quando os capitalistas se utilizaram do discurso nacionalista e das ideias fascistas para controlar os governos e saírem da crise. E se utilizaram das guerras mundiais para disputar mercado e eliminar meios de produção com o custo de milhões de vidas humanas.

10. É neste contexto que se pode entender as derrotas de governos progressistas na América Latina, que atuavam em conciliação de classes e, embora não se tratasse de nenhum governo revolucionário, foram desalojados pelas burguesias com quem estavam aliados.

11. Assim, precisamos analisar a ofensiva política, ideológica e agora militar do capital dos Estados Unidos sobre a Venezuela para controlar de forma privada e internacional suas reservas de petróleo. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e as mais próximas do mercado americano. Nenhum outro país ou território do mundo poderia garantir e ampliar o acesso a petróleo para os Estados Unidos.

12. Além do quê, todos os analistas preveem, por tudo isso, que os preços do petróleo devem voltar a margens superiores a cem dólares ao barril nos próximos dois anos, chegando já a 70 dólares o barril no final de 2019. Isso permitirá, para quem controlar as reservas, uma fantástica renda petroleira.

13. O povo da Venezuela está enfrentando essa guerra há vinte anose, agora, aproxima-se uma nova etapa, que pode se transformar em um conflito militar.

14. Nesses anos desde que Hugo Chávez ganhou as eleições em 1998 e tomou posse em 1999, há um cenário permanente de ataque dos capitalistas venezuelanos e internacionais ao processo de mudança econômica e social na Venezuela. Poderiam até admitir um militar governando a Venezuela, como tantos fizeram na América Latina, porém não admitiram nunca que o petróleo passasse a ser utilizado como um bem fundamental para a reestruturação da economia venezuelana, para financiar a distribuição de renda e a solução dos problemas estruturais da população: moradia, saúde, educação, transporte público e infraestrutura social.

15. Nesses anos todos, os capitalistas do norte e o governo estadunidense aplicaram toda sua experiência histórica que haviam utilizado em outros países para tentar derrubar o governo e o processo bolivariano em curso.

16. Primeiro, tentaram construir um governo de composição de classe com Chávez, propondo políticas econômicas neoliberais. Indicaram ministros e um presidente do Banco Central. Não funcionou. Chávez respondeu com a convocação de uma Assembleia Constituinte e a redação de uma nova Constituição, que devolveu ao povo, e não aos partidos conservadores, a soberania do poder politico e dos destinos da nação.

17. Depois, apelaram para um golpe de Estado clássico, como fizeram em tantos países. Sequestraram o presidente Hugo Chávez do Palácio Miraflores, colocaram em seu lugar um empresário de presidente. Diante desse fato, o povo deu a resposta, cercou o palácio e, em 48 horas, o golpe foi derrotado pelo povo e por um grupo importante de cadetes e novos militares que entraram no serviço militar com uma formação bolivariana. Esse momento é de muita importância, pois marca a união cívico-militar desse novo momento que será fator de grande importância no desenvolvimento da revolução bolivariana, já que parte do alto mando das Forças Armadas estava apoiando o golpe, por suas relações históricas com a oligarquia local.

18. Os empresários que ainda estavam na empresa petroleira PDVSAcomandaram uma greve geral petroleira, paralisando todas as atividades e provocando o caos no país, causando um clima de desestabilidade social. O governo consegue, junto com os trabalhadores, reverter esse processo e promover uma grande renovação na estrutura da empresa, reorganizando o comando entre o governo e os trabalhadores.

19. Aplicaram, então, a tática chilena. Especulação com certos produtos para gerar pânico na população, esconder produtos que iam desde farinha até medicamentos ou bens com muito apelo popular, como papel higiênico, açúcar, leite, café e pasta de dente. O governo usou as reservas de petróleo para compras estatais e distribuição desses bens básicos para a população.

20. Passaram, então, para a tática ucraniana, do terrorismo público nas ruas com a prática das guarimbas, em que jovens pequeno-burgueses ou lúmpens, pagos em dólar, bloqueavam rodovias, queimavam locais simbólicos, jogavam bombas incendiárias em escolas infantis, hospitais e até bases militares, etc. Mais uma vez, não funcionou, e o povo enfrentou o terrorismo e derrotou as guarimbas.

21. Tentaram subverter e ganhar oficiais das forças armadas para seu projeto, compraram alguns, mas não conseguiram o levantamento e a divisão militar. Mesmo porque todos os militares que eles conseguiram comprar estão fora da Venezuela, o que significa dizer sem base de influência concreta.

22. Acusaram sistematicamente o governo venezuelano de ser ditador, tanto Chávez quanto agora também Maduro. No entanto, a oposição participou de 25 eleições, em vinte anos elegeram diversos governadores, prefeitos e deputados, fazem comícios em praça pública e controlam a maior parte dos meios de comunicação de massa. Como justificar que se trata de uma ditadura? Em nenhum país ocidental há condições semelhantes. Por outro lado, o processo eleitoral, com urnas eletrônicas e comprovante impresso se transformou no processo mais transparente existente comprovado por diversas fundações dos Estados Unidos que fiscalizaram as últimas eleições.

23. Nos últimos meses, intensificaram o bloqueio econômico para evitar que cheguem mercadorias do exterior - sendo uma economia petroleira, a Venezuela ainda é muito dependente de bens produzidos no exterior. E mais do que tudo, operam abertamente com a manipulação do câmbio na cotação do dólar com o bolívar, desde um portal inexplicável instalado em Miami. Sintomaticamente, a burguesia local, toma como referência esse portal, sem nenhuma base econômica real para especular com o dólar, que agora virou mais que uma moeda, virou uma mercadoria. Porém uma mercadoria que é referência para todas as demais.

24. Impulsionaram uma campanha de estímulo e motivação para que milhares de pessoas saíssem do país com promessas de emprego e futuro risonho. Mais de 30% dos que saíram já retornaram ao país desiludidos, recebendo apoio do governo para retornarem. Ainda que a migração não seja um problema de venezuelanos, já que vivem no país mais de 5 milhões de colombianos, milhares de haitianos e também milhares de europeus que chegaram no boom do petróleo da década de 1970, como espanhóis, italianos, portugueses e também libaneses.

25. A tese de exigir novas eleições não tem paralelo na história das democracias burguesas modernas. Só porque a direita perdeu as eleições para Maduro, fiscalizadas por centenas de autoridades de todo mundo, então deve-se convocar novas eleições? Por quê? Não há base legal e moral para destituir um governo legítimo como foi eleito. Ou a mesma tese poderia se aplicar contra Bolsonaro, Macri? E sobre os mesmos deputados da Assembleia Nacional que quer destituir Maduro, foram eleitos pelo mesmo sistema.

26. Agora, entramos na etapa derradeira. O governo de Trump, encurtando-se, tem ainda menos de dois anos e deve perder as próximas eleições. O preço do petróleo tende a subir e, com a necessidade ideológica de barrar os governos progressistas e de esquerda, eles precisam derrubar Maduro. Como disse Trump: "primeiro vamos derrubar o governo Maduro, depois virá Cuba, Nicarágua", etc.

27. Antes de iniciar a fase de maior ofensiva externa, o governo Trump tentou criar as condições internas de desestabilização econômica e política, nomeando Guaidó, desconhecido das forças políticas do país e, inclusive, não representativo das forças burguesas de oposição, como sendo o novo governo legítimo. Ou seja, trataram de dar um golpe constitucional, porém ilegal. Repetindo a fórmula utilizada contra o presidente [Fernando] Lugo [do Paraguai], contra o presidente [Manuel] Zelaya [de Honduras] e contra a presidenta Dilma [Rousseff].

28. E essa nova etapa pode chegar a uma invasão militar. Criaram um governo fantoche, que nem sequer é conhecido no país, totalmente à margem de qualquer eleição ou legalidade. E agora, bastaria aumentar o cerco, a pressão internacional e, quem sabe, uma intervenção cirúrgica.

29. Porém essa tática derradeira depende de muitas variáveis. A sociedade americana não aceitaria perder seus soldados numa guerra injustificável, e então teriam que usar forças da OEA [Organização dos Estados Americanos]. Mas, na OEA, fizeram apenas 16 dos 34 votos. E não tiveram maioria nem autorização para uma invasão legalizada pela OEA. Tentaram no Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas], que também lhes negou direito para invadir a Venezuela, com os bloqueios da Rússia, China e outros países. Sobrariam as forças armadas da Colômbia e do Brasil, e não parece ser fácil sua adesão, com consequências para a política interna e a disposição política das forças armadas destes países.

30. A última tática seria, então, uma intervenção militar cirúrgica, por aviação, como fizeram na Iugoslávia, Ucrânia, Líbia e Síria, para quebrar a sustentação econômica do governo e forçar a derrubada. Mas antes de uma intervenção militar, eles precisariam ainda romper com o elo de unidade existente na Venezuela entre as forças armadas bolivarianas e a maioria do povo. Essa unidade derrotará qualquer intervenção militar, causando um alto custo de vidas humanas e também político ao governo Trump.

31. Essa aventura militar poderia se transformar num conflito bélico internacional com a provável solidariedade da Rússia, do Irã e da Turquia, transformando a Venezuela numa Síria latino-americana, com desfechos improváveis e altos custos aos norte-americanos, como de fato está acontecendo na Síria.

32. Ainda como consequência dessa intervenção militar, uma grave contradição para as forças imperialistas: com uma provável derrota das forças direitistas invasoras, os Estados Unidos teriam então que receber uma nova e grande migração de toda burguesia venezuelana, que, numa derrota militar, não teria mais espaço político e social no país, como aconteceu depois da derrota militar da invasão na Baía dos Porcos, em Cuba.

33. As próximas semanas e os próximos meses serão decisivos para o desfecho de qual tática os americanos adotarão. Naquele território, estamos travando a batalha da luta de classes mundial, que poderá demarcar a geopolítica para todo o século 21, assim como foi simbólica a Guerra Civil Espanhola para os desdobramentos numa Segunda Guerra Mundial.

34. De parte do governo venezuelano, será necessário, nesta batalha, manter a unidade das forças armadas bolivarianas e manter a maioria do povo chavista mobilizado na defesa da pátria. No curto e médio prazo, desenvolver um novo programa econômico, que logre superar os enormes desafios impostos pelo bloqueio ocidental e pela dependência do petróleo para desenvolver um novo programa de desenvolvimento econômico com igualdade social.

35. Hoje, a defesa da soberania na Venezuela significa a defesa da autodeterminação dos povos contra o império. Precisamos estar ativos e bem-informados das movimentações. Os próximos passos serão decisivos, e todas as forças populares e de esquerda, do continente e do mundo devemos manifestarmos claramente em defesa do processo bolivariano - que tem suas contradições e desafios, que são próprios de todo processo de mudanças estruturais numa sociedade.

Edição: Aline Scátola

https://www.brasildefato.com.br/2019/02/21/notas-para-debater-a-crise-da-venezuela-por-joao-pedro-stedile/

17.2.19

A Constituição a caminho da ruína?

A Constituição a caminho da ruína? 

por José Felipe Ledur

Publicado em: fevereiro 16, 2019


"O Judiciário acabou contribuindo ao esvaziamento de direitos e garantias fundamentais". (Arquivo/Valter Campanato/ABr

José Felipe Ledur (*)

A Constituição, sinteticamente, conforma o pacto político que estabelece os direitos e garantias fundamentais que a sociedade se reservou no processo constituinte e estabelece as atribuições dos poderes do Estado. A vinculação dos três poderes estatais aos direitos fundamentais é uma exigência inequívoca reconhecida pelo constitucionalismo quando se cuida de Estado que orienta suas ações de acordo com o Direito e com o princípio democrático.

No § 4º do art. 60, a Constituição Federal (CF) protege seu sistema de princípios, direitos e garantias fundamentais em face da atuação de maiorias parlamentares circunstanciais. Proíbe a abolição de "cláusulas pétreas" por intermédio de emenda constitucional. A CF também impõe ao legislador o dever de conformar, por meio de lei, direitos fundamentais asseguradores das liberdades clássicas e de liberdades reais que encontram expressão nos direitos sociais. E o § 1º do art. 5º é definitivo ao estabelecer que os direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. Isso vale para os três poderes da República.

Nestes 30 anos de vigência da CF, o Judiciário acabou contribuindo ao esvaziamento de direitos e garantias fundamentais. O STF oscilou entre a afirmação e a negação a esses direitos e garantias. Por um lado, afirmou direitos de segmentos vulneráveis ao determinar, por exemplo, a demarcação de terras indígenas e respaldar a adoção do sistema de cotas raciais nas universidades; também atuou na afirmação de direitos fundamentais dos trabalhadores ao reconhecer a ampla substituição processual pelos sindicatos, ao afirmar os direitos da mulher gestante e ao decidir que a proporcionalidade do aviso-prévio é imediata.

De outro lado, o STF atuou de forma tíbia ao limitar a força jurídica do mandado de injunção e da ação de inconstitucionalidade por omissão dirigidos a fazer valer os direitos e liberdades constitucionais. Além disso, declarou a ineficácia da Convenção 158 da OIT, instrumento útil diante da omissão legislativa em conter dispensas imotivadas (art. 7º, I, da CF). Recentemente, concorreu à erosão do núcleo do direito fundamental à relação de emprego com a validação de terceirização irrestrita. Também notável é a jurisprudência do STF que invocou "mutação constitucional" para, na prática, suprimir texto de garantia fundamental que exige o trânsito em julgado de decisão condenatória para justificar a prisão.

Por fim, a respeitabilidade do tribunal resta abalada em razão de pedidos de vista que impedem julgamentos, de manipulação da pauta ou de decisões liminares que não são levadas ao julgamento pelo Plenário.

Já os tribunais do trabalho neutralizaram o esvaziamento dos direitos fundamentais dos trabalhadores mediante a imposição de limites à terceirização. Entretanto, toleraram jornadas de trabalho em muito excedentes ao limite de 08 horas diárias (art. 7º, XIII, da CF) e, em lugar de sancionarem responsáveis por atos abusivos no curso da greve, sancionam de maneira reiterada toda a categoria profissional por meio de declarações de abusividade de greves. Com isso, concorrem para esvaziar direito de liberdade clássico assegurado no art. 9º e parágrafos da CF.

O legislador brasileiro historicamente se recusou a conformar direitos fundamentais dos trabalhadores, impedindo o seu exercício pleno ou uso eficaz. Com a reforma trabalhista de 2017, divulgou-se que "nenhum direito fundamental estava sendo atingido". Em realidade, regras da CLT que até então conformavam direitos fundamentais dos trabalhadores receberam configuração dirigida ao esvaziamento do núcleo desses direitos. São exemplos as regras relativas ao emprego, ao limite do horário de trabalho, à proteção da saúde e do salário, além de possíveis sanções ao titular do direito à assistência jurídica gratuita. Propostas adicionais de esvaziamento do sistema de direitos fundamentais dos trabalhadores encontram-se na PEC 300.

O atual governo compromete o direito fundamental de acesso à informação pública mediante o suspeito Decreto 9.690/19. No terreno das liberdades individuais, o ministro da Justiça visa fazer tábula rasa, por meio de lei, da garantia fundamental da presunção da inocência mediante prisão após julgamento colegiado. Mas concede que em "questões relevantes" isso pode não valer. Para favorecer a quem? Sua solução para a criminalidade passa pelo endurecimento de medidas voltadas a prender acusados e agravar a situação de condenados. Em sintonia com a apologia à violência "contra os bandidos" da campanha eleitoral, propõe o reconhecimento de legítima defesa em caso de escusável medo ou violenta emoção de agentes policiais. Isso quando o contribuinte tem o direito de contar com agentes treinados para agir de modo intimorato e sem paixões… Já o ministro da Economia propõe a criação de subcategoria de trabalhadores, que desista de direitos fundamentais.

Encontra-se na história alemã algo similar ao que se observa no processo de desconstrução material da nossa Constituição. A Constituição de Weimar, de 1919, previu sistema de direitos fundamentais clássicos e sociais. Mas ela sofreu processo inicial de erosão causada pela fraca adesão de parte da população. Jurisprudência e teoria jurídica se restringiram a ver nas normas jusfundamentais um programa sem caráter vinculativo. Mais adiante, no início da ditadura nazista, decretos e leis proibiram os sindicatos e a livre negociação coletiva, removeram a vigência dos direitos fundamentais e suspenderam o princípio democrático, federativo e da separação dos poderes. Suprimiu-se também a liberdade de imprensa e limitações legais foram removidas para permitir a prisão preventiva indefinida, sobretudo de comunistas ou de quem supostamente com eles alinhado. Muniu-se a polícia de poderes que suprimiam limites jurídicos e de fato a sua ação. Já o direito vigente e a competência da Justiça eram mantidos na exata medida em que se conformassem com os objetivos do regime (Frotscher/Pieroth, Verfassungsgeschichte, 2014, p. 297-337).

Enfim, o parlamento, já dominado pelo partido nazista, e com a morte ou exílio de dezenas de deputados socialdemocratas e comunistas, conferiu ao Führer poderes ilimitados. A Constituição de Weimar restou materialmente esvaziada. Nem foi preciso revogá-la formalmente. Carl Schmitt, jurista de Hitler considerado o "coveiro da República de Weimar", escreveu que é o Führer quem protege o Direito.

A comparação com experiência estrangeira deveria chamar à reflexão e à responsabilidade cidadãos, imprensa, partidos políticos democráticos e agentes públicos diante do processo de degeneração e deformação do sistema político e de direitos e garantias fundamentais que o país atravessa. Resta ver se cidadãos e sociedade civil serão capazes de superar a paralisia e se o Judiciário será capaz de recuperar padrões éticos que o habilitem a exercer a responsabilidade pela prevalência do sistema de direitos e garantias fundamentais dos indivíduos e do Estado Democrático de Direito, com recusa à tutela ou ameaça, seja qual for a sua origem.

(*) Desembargador do trabalho aposentado e doutor em Direito do Estado.

§§§

As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.


https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2019/02/a-constituicao-a-caminho-da-ruina-por-jose-felipe-ledur/


O Conto da Carteira Verde e Amarela

O Conto da Carteira Verde e Amarela

14/02/2019 11:58

Cesar Zucatti Pritsch, Juiz do Trabalho  

Declarações do governo reacenderam a polêmica da "carteira verde e amarela", sem direitos como 13º, férias e FGTS, supostamente para gerar mais "empregos". Sustenta-se que seria "opção", "ninguém mexe em direitos, mas daremos novas alternativas", mas o próprio presidente já disse que a legislação trabalhista "vai ter que se aproximar da informalidade".

Iria o governo ao ponto de disfarçadamente revogar direitos constitucionais? Tornar direitos aparentemente "opcionais" evitaria a inconstitucionalidade por ofensa a cláusulas pétreas?

Negativo. "Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: ... os direitos e garantias individuais" (parág. 4º, IV, do art. 60 da Constituição), dentre os quais estão os direitos dos trabalhadores, art. 7º. O constituinte buscou evitar que maiorias temporárias pudessem aniquilar conquistas civilizatórias, seja alterando a Constituição, seja por seu esvaziamento, "tendente" a abolir tais direitos.

É o caso aqui. A "opção" pela carteira "verde e amarela", nua de direitos, é ilusória. Alguém acredita no conto de que tal contrato não será imposto como condição de contratação?

Tivemos situação idêntica nos anos 60. O empregado que atingisse 10 anos de serviço só poderia ser despedido por falta grave ou força maior (art. 492 da CLT). No entanto, sem revogar tal artigo, foi criado sistema paralelo. O trabalhador "optaria" por não ter direito à estabilidade em troca receber depósitos mensais de 8% do salário em um Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço. Todos sabem o que aconteceu, a partir de 1967 ninguém mais era contratado se não exercesse a "opção" pelo FGTS, renunciando à estabilidade.

A mudança agora será mais cruel - o trabalhador renunciará a seus direitos em troca de ...nada. Pela rotatividade de empregados, em 5 ou 6 anos quase todos já terão exercido tal "opção". O regime atual, com os direitos constitucionais trabalhistas, terá virado pó, "tendendo" à abolição, violando o §4º do art. 60 da Constituição.

Acredita-se que o governo não se arriscará em tamanho ataque à Constituição, já que uma rejeição no Congresso lhe desgastaria. Todavia, se impuser renúncia a direitos constitucionais mediante tal opção fictícia, e se tal inconstitucionalidade não for detectada pelo próprio Parlamento, o reconhecimento da inconstitucionalidade pelo Judiciário é o destino mais provável.

Fonte: Cesar Zucatti Pritsch - Juiz do Trabalho
14/02/2019 11:58 
 



Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz