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pergunta:

"Até quando vamos ter que agüentar a apropriação da idéia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

30.11.06

O LONGO CICLO ELEITORAL LATINO-AMERICANO

Com o triunfo de Rafael Correa no Equador e as reeleições praticamente asseguradas de Hugo Chávez e de Nestor Kirchner, se conclui o longo ciclo eleitoral latino-americano, iniciado com o triunfo de Evo Morales na Bolívia, em dezembro de 2005. Seguiu-se com as eleições de Michele Bachelet no Chile, de Oscar Arias na Costa Rica, de Alan Garcia no Peru, de Lula no Brasil, de Álvaro Uribe na Colômbia, de Daniel Ortega na Nicarágua, e de Felipe Calderón no México.

São 11 eleições, incluindo os países de maior peso no continente – Brasil, México, Argentina, Venezuela, Colômbia, Chile, Peru –, das quais quatro foram reeleições – Lula, Uribe, Hugo Chávez, Kirchner –, duas mais continuações dos governos anteriores – Calderón e Bachelet, com três mudanças significativas de políticas – Bolívia, Equador, Nicarágua.

O pólo que prioriza os processos de integração regional viu a incorporação da Bolívia e do Equador – talvez até mesmo da Nicarágua, mantendo o Brasil, a Argentina e a Venezuela, enquanto o pólo favorável aos tratados bilaterais manteve a Colômbia, o México e o Chile, ganhando o Peru e a Costa Rica. (Ainda que a nova maioria democrata no Congresso dos EUA questione os tratados que estão por ratificar com a Colômbia e o Peru, deixando aberta esta possibilidade.)

Poderia parecer, aritmeticamente, um resultado empatado. No entanto, se fortaleceu o bloco favorável aos processos de integração regional. As vitórias de Lula, de Kirchner, de Hugo Chávez consolidam o eixo fundamental nesses processos, que ganham alguns anos para avançar na consolidação, extensão e aprofundamento no Mercosul, na Comunidade Sul-Americana de Nações, na Alba. O ingresso da Venezuela como membro pleno do Mercosul e a reunião de Córdoba expressam novo dinamismo do acordo, com a integração da Bolívia e a aproximação de Cuba. A participação do Equador bloqueará a formação de um bloco andino favorável ao livre comércio, além das mencionadas dificuldades trazidas pela maioria protecionista democrata no Congresso dos EUA.

Além disso, a vitória de Calderón foi muito questionada no México e tanto nesse país quanto na Colômbia – com Lopez Obrador e com Carlos Gaviria – a esquerda teve um desempenho muito bom, situando-se como a segunda força política nesses países. Da mesma forma a disputa no Peru foi acirrada, com a candidata abertamente neoliberal – Lourdes Flores – ficando fora do segundo turno.

Estas observações configuram um desgaste significativo da votação dos partidos que defendem programas neoliberais, com expansão do voto à esquerda – mais radical nos casos da Bolívia, do Equador e da Venezeula -, mais moderada nos casos do Brasil, da Argentina e da Nicarágua.

O triunfo de Rafael Correa no Equador é a culminação das mobilizações populares que, em abril deste ano, impediram que o país assinasse um tratado de livre comércio com os EUA. Ainda assim, Álvaro Novoa pretendia retomar essa via, fazendo com que, em parte, o segundo turno tivesse sido um plebiscito sobre o futuro do Equador. A vitória de Correa consolida a opinião majoritária dos equatorianos de crítica às vias adotadas pelos três últimos presidentes eleitos, todos derrubados por mobilizações populares, por tentar manter o modelo neoliberal.

O cenário político continua favorável à esquerda no continente – que, agora, ainda pode contar com eventuais defecções no outro campo, especialmente do governo de Alan Garcia, pela resistência democrata no Congresso dos EUA -, que pode aproveitar para consolidar e principalmente avançar decididamente no caminho da integração latino-americana.

http://agenciacartamaior.uol.com.br/ Postado por Emir Sader às 08:22

22.11.06

LULA E A ESQUERDA

22 de novembro de 2006
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
58 milhões de brasileiros preferiram correr o risco de votar num governo que os pode desiludir a votar num que, de saída, já não os ilude
DEPOIS DA inesperada fragilidade revelada no primeiro turno, a vitória retumbante de Lula no segundo deixou o mundo estupefacto. É um acontecimento político notável, e o mérito cabe por inteiro a Lula. Só ele poderia reacender o entusiasmo da mobilização em milhares de militantes magoados e desiludidos pelos desacertos da sua política durante o primeiro mandato. Mas as razões do seu êxito são bem mais profundas e merecem reflexão.
A vitória de Lula representa um "choque de realidade" para as elites políticas que governaram o Brasil até 2002. A distância e a arrogância que as separam do país real e a acumulação histórica de ressentimento que isso criou entre as classes populares não lhes permitiram aproveitar as fragilidades do candidato Lula. 58 milhões de brasileiros, na sua maioria pobres, preferiram correr o risco de votar num governo que os pode desiludir a votar num governo que, à partida, já não os consegue iludir.
É inescapável a perplexidade causada por duas enormes dissonâncias cognitivas reveladas nessas eleições. A primeira consiste na discrepância entre a dramática polarização política, sobretudo no segundo turno, e as diferenças moderadas entre as duas propostas políticas, sobretudo se tivermos em conta as políticas do primeiro mandato de Lula e se descontarmos o tema privatizações.
A segunda reside em que o candidato que conquistou o voto e o coração de milhões de pobres é o mesmo que recebeu efusivas e cúmplices felicitações de Bush, a quem só interessa o bem-estar dos ricos e dos muito ricos.
Essa foi a única eleição recente na América Latina em que o candidato de esquerda não sofreu a interferência da embaixada norte-americana. Significam essas dissonâncias que alguém está a enganar alguém? Não necessariamente. A razão para elas está no fato de a distância que separa as elites oligárquicas das classes populares não ser apenas econômica, apesar de esta ser enorme num dos países mais injustos do mundo. É também cultural e racial.
Isso explica o êxito da política simbólica de Lula, a sua capacidade para ampliar o impacto político de medidas relativamente tímidas, devolvendo a auto-estima a milhões de brasileiros humilhados não apenas pela fome mas também pelas barreiras no acesso à educação e pelo racismo insidioso da suposta democracia racial.
Graças a tal capacidade, medidas não originariamente de esquerda, como o Bolsa Família, puderam ser constitutivas de cidadania social, e pequenas transferências de renda puderam ser transformadas em mudanças qualitativas. Tudo isso foi possível devido a uma sutil inversão do sinal político: atribuído por Lula, o Bolsa Família foi entendido pelos brasileiros como "isso é o mínimo que vos devo"; fosse atribuído por um presidente de direita, dissesse o que dissesse, seria sempre entendido como "isso é o máximo que vos devo". Essa inversão escapou aos analistas políticos. O segundo mandato de Lula terá de ser diferente do primeiro. Com a lucidez habitual, Tarso Genro formulou o óbvio, que, em política, é quase sempre tabu: a era Palocci acabou. Só que acabou já há tempo, pelo menos desde que, no final de agosto, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou por unanimidade os "Enunciados da Concertação". Entre eles, a baixa da taxa de juros para níveis médios internacionais nos próximos cinco anos e a duplicação da parcela da renda nacional apropriada pelos 20% mais pobres nos próximos 15.
A partir de 1º de janeiro, Lula terá de começar a preparar o pós-lulismo: uma forma de governação de esquerda que não dependa da capacidade de um líder carismático para disfarçar com o discurso da antipolítica a incapacidade para substituir a velha política por uma nova. Essa nova política tem de ser preparada de modo consistente, e o primeiro passo é certamente a reforma do sistema político e a reforma do Estado. Só elas permitirão concretizar as políticas de justiça social, cultural e racial em que os brasileiros depositaram a sua esperança.
Mas tudo isso só acontecerá se os brasileiros não se limitarem a esperar. E tudo leva a crer que assim sucederá. A plataforma política dos movimentos sociais -"Treze Pontos para um Projeto Popular para o Brasil"- apresentada a Lula em 19/10 é um sinal de que o tempo dos cheques em branco acabou e de que a luta contra a cultura política autoritária terá de ser travada com decisão para impedir que o golpismo ocorra, mesmo que a coberto da lei (exemplo grotesco dessa possibilidade é a vergonhosa sentença judicial contra o grande intelectual e democrata Emir Sader). Algures, entre os enunciados de concertação e os 13 pontos, a governação do segundo mandato será uma nova era.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 65, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). Escreveu, entre outros livros, "A Gramática do Tempo: para uma Nova Cultura Política" (Cortez, 2006).

20.11.06

MAIS ALÉM DO POPULISMO

19 / 11 / 2006
TARSO GENRO
Ao contrário do que recomenda
o populismo, Lula e o PT
promoveram a incorporação dos
"de baixo" na democracia
O RESULTADO do processo eleitoral no segundo turno das eleições, no qual o presidente Lula obteve 61% dos votos, e o seu adversário, menos votos do que no primeiro turno, enseja uma reflexão mais além dos efeitos que advirão dos próximos quatro anos. Trata-se do tema da integração socioeconômica e política do país como provável "comunidade de destino" (nação), já referida por Caio Prado Junior e por Florestan Fernandes.
Longe de uma "conspiração", o apoio que a maior parte da imprensa deu ao candidato da assim chamada "elite paulista", na verdade, revelou o débil estágio de integração sociopolítica do país. E ainda um descolamento da parte mais avançada do capitalismo brasileiro do resto do Brasil.
Descolamento político, de uma parte, porque o seu candidato não conseguiu, a partir de São Paulo, falar para o país. Descolamento econômico, de outra parte, porque a sua visão de mercado está mais balizada pelos consultores de risco das agências privadas do que orientada pela necessidade de expansão do mercado capitalista "clássico", produtor de bens de consumo de massas, no caso do Brasil, de educação, de comida e de roupa decente para todos.
Ao longo deste ano, sustentei que não mais seriam aplicáveis, no Brasil, os critérios de análise do mercado financeiro para orientar o eleitorado por dois motivos fundamentais.
Primeiro: embora os "analistas de risco", como é seu dever profissional, queiram sempre transitar os interesses de seus clientes, o mercado financeiro concreto se move balizado pela "segurança". Comparativamente aos países emergentes, o Brasil conquistou a condição de país "seguro".
Segundo: a política externa brasileira soube nos colocar numa relação privilegiada, inclusive com capacidade de dialogar lealmente com os EUA de Bush, sem provocações e sem humilhações, o que tornou desinteressante, para o império, qualquer tentativa de desestabilização do Brasil.
Onde está, então, o descolamento? A tese do "choque de gestão" não tem significado em dois terços do país, onde a máquina pública ainda não exerceu, para as grandes massas, as funções públicas mais elementares. A tese de que o governo Lula era "corrupto" se chocou com a realidade do combate frontal à corrupção pelo próprio governo. A tese da "incompetência" do presidente se esfarelou no cotidiano dos "de baixo", que melhoraram um pouco a sua vida, mas cuja melhora foi sentida numa escala sem precedentes, dentro da democracia.
É também um equívoco político e conceitual classificar a vitória de Lula como uma vitória do populismo. Não só porque os movimentos sociais não estão "enquadrados" pelo Estado ou pela figura pessoal do presidente mas também porque, em nenhum momento, a sua campanha mobilizou massas organizadas ou informes contra "os ricos".
Ao contrário, quem tentou formar um espírito de corpo irracional e odioso contra Lula e o PT a partir das inseguranças e do moralismo das classes médias, altas e remediadas foram os setores mais direitistas do campo adversário.
O populismo não incorpora as massas populares no jogo democrático, volta-as contra as instituições formais do Estado. E, ao contrário do que recomenda o populismo, Lula e o PT promoveram a incorporação dos "de baixo" na democracia para promover a integração social do país por meio de um grande mercado de massas. Um mercado no qual o consumo popular ascendente ajude a eliminar a exclusão e a miséria e permita que todos se sintam pertencentes a um projeto democrático de nação.
Mais além do populismo, mas também mais além da "utopia" de direita do já velho neoliberalismo.
Agora, trata-se de criar condições para responder ao "déficit" de integração nacional que foi flagrado na maciça preferência que as regiões mais pobres do Brasil tiveram em relação à candidatura Lula, apesar da boa votação de Lula obtida no segundo turno nos Estados do Sul.
As políticas de inclusão no consumo básico e na educação devem ser somadas a grandes políticas de desenvolvimento regional, promovidas pelo Estado como indutor e organizador do crescimento sustentável.
TARSO FERNANDO HERZ GENRO , 59, advogado, é ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. Foi ministro da Educação (2004-2005), ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (2003-2004) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-96 e 2001-02). É autor de "Utopia Possível" (Artes e Ofícios), entre outros livros.

18.11.06

UM SAMBA POPULAR

17/11/2006 Vozes da imprensa aparecem para atacar-me tentando manchar minha trajetória e minha atuação política e intelectual. Indago: por que eu, de repente, sou projetado à pauta da imprensa? Sempre tratei de pautar minha atividade de forma discreta, pois acredito que o mais importante são as idéias e as possibilidades de diálogo com as forças sociais, políticas e culturais, em defesa de um outro mundo possível.
Indago também: por que o editor de Política da Folha de S. Paulo utiliza dois artigos seguidos sem sequer escutar as pessoas que ataca? Ele, que escreve uma vez por semana, se deu ao trabalho de utilizar a metade dos artigos que publica no mês para tentar me desqualificar, levantando ataques infundados e com linguagem grosseira – no que foi acompanhado por uma colunista do caderno de cidades.Nenhuma solidariedade diante do processo do presidente do PFL, apenas ataques. Que se voltaram também contra a Boitempo e sua editora, Ivana Jinkings, cujo trabalho editorial é reconhecidamente de alta qualidade, com a publicação de alguns dos melhores autores nacionais e estrangeiros, em meio a um universo completamente comercializado e mercantilizado.
Por que a imprensa opta por essa pauta, quando deveria estar preocupada em fazer um balanço autocrítico da pior cobertura – e a mais violenta – de uma campanha eleitoral? Vendo que as suas “verdades” não foram aceitas pela maioria, por que não abre um período de reflexão e de debate para compreender os motivos que levaram os leitores a se apoiarem na mídia alternativa? Uma parte importante da resposta a essas interrogações certamente pode ser encontrada na constatação evidente de que ela perdeu a capacidade que julgava ter de “fabricar consensos” – na expressão de Chomski –, definindo a pauta sobre o que o país deve discutir, decidindo a versão e elegendo os bons e os maus em cada tema.
No lugar de uma justa cobertura, optou por reviver um anacrônico lacerdismo, com insinuações golpistas, ecoando a exortação de que estava na hora de o poder voltar às mãos tucano-pefelistas antes mesmo do sufrágio popular, no pior estilo da imprensa que preparou a opinião pública para o golpe militar.
E incomodam, sobretudo, as manifestações de apoio que recebemos – não pessoalmente, mas como vítima daquele processo –, a ponto de que os artigos mencionam o manifesto, mas o jornal, reiterando a linha de editorializar todo o noticiário, nunca o publicou ou se referiu à extensão desse apoio – chega a 15 mil assinaturas – ou ao peso dos que o assinam.
Fosse pela Folha, os seus leitores não saberiam que manifestaram sua solidariedade pessoas como Antonio Candido, Chico Buarque, Luis Fernando Veríssimo, Francisco de Oliveira, Eduardo Galeano, Perry Anderson, István Mészáros, Leonardo Boff, entre tantos outros. Ao que tudo indica, incomoda que um personagem a quem querem desqualificar com linguagem indigna de qualquer debate de idéias receba solidariedade tão ampla e qualificada, enquanto os articulistas têm de se limitar a extremismos verbais e a carreiras sem nenhuma presença intelectual, com artigos descartáveis.
O mais importante é que algo novo acontece no Brasil, e os setores conservadores resistem a aceitar. Não possuem mais o monopólio do discurso e agora tem de dividir o espaço com a imprensa crítica, como Carta Capital, Carta Maior, Brasil de Fato, Caros Amigos e tantas outras publicações que formam o público-leitor, assim como vários blogs que trabalham nessa mesma direção.
Ataques pessoais fazem parte dessas tentativas de desqualificação, para tentar mostrar que não haveria nenhum comportamento possível que não o da submissão aos interesses criados, que fizeram do Brasil o campeão mundial da desigualdade. A existência de um pensamento que sustenta esse quadro social somente será abalada com transformações que atinjam os privilégios seculares dos setores protegidos pela mídia oligopolista.
O processo e o ataque desses setores embutem um recado: todos os que mantiverem o pensamento crítico e autônomo podem sofrer pesadas conseqüências, da desqualificação à perda do cargo obtido por concurso e mesmo à prisão. É um recado também para a universidade pública: silenciem!
Os esclarecimentos das acusações feitas por essa nova direita – com cheiro claramente bushista, de pensamento único – podem ser encontrados na página do projeto Outro Brasil.
Os chacais – como os chamava Julio Cortázar – seguirão atacando, mas a caravana passa, com a força do povo, e seguirá adiante, construindo um novo país e um outro mundo possível, com a força do pensamento crítico, das forças sociais, políticas e culturais comprometidas com um Brasil e um mundo livres das oligarquias e do monopólio do dinheiro, das armas e da palavra.
A caravana passa, com a força do povo, e segue adiante, fortalecida com as belíssimas vitórias conseguidas, apoiada na massa pobre da população que nunca acreditou nessa mídia, que nunca vacilou na sua decisão de apoiar a construção de um Brasil melhor, mais humano, solidário e democrático. Apoiada na altivez e na dignidade da intelectualidade crítica e independente, que acredita na força das idéias e na força do povo.
Já está passando, “nesta avenida, um samba popular”.
Postado por Emir Sader às 18:56 http://agenciacartamaior.uol.com.br/

17.11.06

INTELECTUAIS E VIDA PÚBLICA

17/11/2006 O sociólogo francês Pierre Bourdieu considerava que não se deveria aceitar falar na televisão ou no rádio, se não fosse por um tempo longo, sem interrupções. Alegava que a pressa e a velocidade são inimigas da verdade. Qualquer forma de síntese adaptada aos tempos midiáticos teria todas as possibilidades de falsificar a verdade, de tanto vulgarizá-la, para que coubesse no formato proposto pelas televisões e rádios comerciais.Ao se expor um pensamento que se contraponha à corrente dominante de idéias - papel essencial de um intelectual - exige-se pelo menos o tempo necessário para desarticular o pensamento dominante para, em seguida, expor uma interpretação alternativa. No entanto, se começamos a responder a algum repórter sobre um tema qualquer, dizendo: "Há três aspectos que devem ser ressaltados sobre esse problema..." - o repórter já morre de medo, imaginando que a resposta levará 15 ou 20 minutos, totalmente inviáveis para o ritmo das emissoras comerciais.
A palavra intelligentsia, de origem russa, designava, no final do século XIX, o intelectual crítico, independente, que defende os interesses públicos, com linguagem acessível. Correspondia a toda uma geração de escritores, pensadores, artistas, que defendiam o povo russo, lutavam contra o czarismo, a repressão, a censura.Essa combinação havia tido em Emile Zola uma expressão significativa na França, na defesa do caso Dreyfuss - o primeiro grande movimento de mobilização da opinião pública que reverteu uma aparente unanimidade originalmente construída. O "Eu acuso" foi uma diatribe expressa em um pequeno órgão alternativo, que se tornou modelar em termos de luta da minoria contra uma falsidade transformada em consenso, imposta e assumida pela grande maioria dos franceses da época.
A passagem do reino da palavra escrita para o reino da imagem, do livro para o filme, do jornal para a TV, mudou os termos do problema, sem afetar seu conteúdo. Surgiu o "intelectual midiático", conectado com novas modalidades editoriais - como a auto-ajuda, o esoterismo e outras formas vulgarizadas de enfoque -, que ocupam um lugar importante em um país em que três quartos das pessoas são analfabetas funcionais. Isto é, em que têm dificuldades ou impossibilidade de ler um texto, compreendê-lo e responder, necessitando de personagens como a de Fernanda Montenegro no filme "Central do Brasil" para entender e responder uma carta.
Um intelectual tem que se adaptar à difícil arte de dizer coisas com um mínimo de consistência e coerência em um tempo curto e cercado de comerciais, de noticiários compostos freqüentemente por uma enxurrada de notícias fragmentadas e sem explicações - se quiser aceitar esse desafio. Impossível não é, embora seja certo que a pressa e a velocidade são inimigas da verdade. O problema é a proliferação de personagens que protagonizam o que tão bem Jaguar chamou de "rebeldes a favor", com uma linguagem contundente, que dá a impressão de que serão críticos, independentes, mas se revelam altamente conservadores, retrógrados e no mais das vezes ignorantes, manipulando algum verniz de saber.
O compromisso do intelectual da esfera pública é com a verdade, com a independência do seu pensamento e a autonomia em relação às estruturas de poder vigente. Além de abordar temas transcendentais e buscar fazer chegar a verdade aos que mais necessitam da verdade -nas palavras de Brecht - aos marginalizados, aos discriminados, aos humilhados, aos explorados, aos ofendidos, aos dominados.
Postado por Emir Sader às 08:22 http://agenciacartamaior.uol.com.br/

FRASES....

"Não existe nenhum grupo que não seja político.
Ou se está a favor da sociedade desigual ou se está contra.
Não tem como ficar isento."
(Frei Betto)
"Nada mais político do que dizer que a religião não tem a ver com política."
(Ghandi)
"O respeito pela pessoa humana deve estar presente em todos os lugares."
(Frei Oswaldo Rezende)
"A vida vale a pena pela luta que fazemos."
(Frei Betto)

15.11.06

FREI TITO

Nascido em Fortaleza, Frei Tito foi dirigente regional e nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica). Em 1965, ingressou na Ordem dos Dominicanos, sendo ordenado sacerdote em 1967, e também foi aluno de Filosofia da USP.
Foi preso pela segunda vez no dia 4 de novembro de 1969, em companhia de outros padres dominicanos acusados de terem ligações com a ALN e Carlos Marighela.
Frei Tito foi torturado durante 40 dias pela equipe do delegado Sérgio Fleury. Foi transferido depois para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu até dia 17 de dezembro. Nesse dia, foi levado para a sede da Operação Bandeirantes (DOI-CODI/SP), quando o Capitão Maurício Lopes Lima, disse-lhe: ''Agora você vai conhecer a sucursal do inferno''. E foi o que ocorreu. Torturado durante dois dias, pendurado no pau-de-arara, recebendo choques elétricos na cabeça, órgãos genitais, nos pés, mãos, ouvidos, com socos, pauladas, ''telefones'', palmatórias, ''corredor polonês'', ''cadeira do dragão'', queimaduras com cigarros, tudo acompanhado de ameaças e insultos. A certa altura, o Capitão Albernaz ordenou-lhe que abrisse a boca para receber a hóstia sagrada, introduzindo-lhe um fio elétrico que queimou-lhe boca a ponto de impedi-lo de falar.
Banido do país, deixou uma carta ao companheiro Vanderley Caixe, também na prisão: "companheiro, aqui ou no exterior estaremos sempre lutando pela liberdade e o socialismo." / Em 13 de janeiro de 1971, quando do seqüestro do embaixador da Alemanha no Brasil, viajou para o Chile e depois para a Itália e a França. Após algum tempo, instalou-se na comunidade dominicana de Arbresle, tentando desesperadamente lutar contra os crescentes tormentos de sua mente, abalada profundamente pela tortura. Já no exílio, foi condenado pela 2ª Auditoria a pena de 1 ano e meio de reclusão, em 23 de fevereiro de 1973.
No dia 7 de agosto de 1974, com 31 anos de idade, Frei Tito enforcou-se, pendurando-se em uma árvore.

12.11.06

A mídia perdeu as eleições

MARCOS ROLIM / Jornalista
Há um interessante debate no país sobre a conduta da mídia nas últimas eleições que, infelizmente, ainda não mereceu a atenção de muitos veículos de comunicação. Compreende-se. Certos grupos podem oferecer destaque a qualquer assunto, por mais irrelevante que seja, mas não julgam pertinente debater seus próprios compromissos ou condutas. O Observatório Brasileiro de Mídia realizou estudo sobre a posição de 14 colunistas, de cinco entre os mais importantes jornais brasileiros: Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Correio Braziliense, quanto aos quatro principais candidatos à Presidência, apontando que o número de menções negativas a Lula foi quase quatro vezes superior às menções críticas para Geraldo Alckmin. Merval Pereira e Miriam Leitão, ambos da Globo, foram os recordistas nas críticas a Lula e, ao mesmo tempo, os que mais isentaram Alckmin. A Globo, aliás, arquivou reportagens sobre o envolvimento de tucanos com a máfia dos sanguessugas e só foi superada no quesito parcialidade pela fábrica de maldades em que se transformou a (ex) revista Veja. Alguns dos melhores jornalistas brasileiros, como Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim, têm insistido nesta crítica. Nassif publicou em seu blog um texto cujo título é "Réquiem do jornalismo"; enquanto Amorim escreveu em seu site "Conversa afiada" artigo em que condena o que chamou de "golpe de Estado que levou a eleição para o segundo turno". A conduta da imprensa brasileira ao longo de toda a campanha não considerou importante avaliar até que ponto o candidato Alckmin, por exemplo, poderia sustentar a idéia de um "Brasil decente". Se a ética política foi um tema central no debate eleitoral e se Lula tinha muitas explicações a oferecer neste ponto, tudo se passou como se Alckmin estivesse imune às demandas por moralidade e fosse, implicitamente, uma resposta a elas. O resultado foi que a classe média ouviu uma história pela metade. Por isso, a interpretação dos resultados eleitorais que deram a Lula uma votação consagradora foram, quase que naturalmente, associados à ignorância e ao clientelismo. O fenômeno, entretanto, é bem mais complexo. Cito, neste particular, a opinião do diretor do Vox Populi, Marcos Coimbra, que disse: "(...) Ganhou o voto de quem se sentiu satisfeito com o que está vivendo e convencido de que os pecados de Lula e do PT só serão resolvidos quando todo o sistema político mudar. Ganhou, portanto, um voto concreto e informado, o inverso do que imaginam alguns analistas, que mais tendem a repetir estereótipos que a criticá-los" (...). "Tenho acompanhado a eleição desde muito cedo e com diversos instrumentos de pesquisa. É, para mim, muito claro que foram os eleitores de "classe média", de maior escolaridade e renda, muitos vivendo em cidades grandes e modernas, os que mais tenderam a ser 'manipulados'. Foram eles os que mais se revelaram propensos a votar segundo a informação recebida, de maneira acrítica e, muitas vezes, superficial. Ou seja, cada vez que alguém se inflamava contra a ignorância dos pobres, dirigia mal suas baterias". Nesta discussão, não seria demais lembrar Paulo Virilio, para quem a mídia contemporânea é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra. Tudo se passa, então, como se a crítica à imprensa fosse, em si mesma, um "atentado à liberdade de expressão". Algo que o filósofo resume com uma única palavra: cinismo. A mesma conduta, aliás, dos que hoje silenciam sobre a absurda condenação de Emir Sader. (A propósito, os que não sabem sobre o que ocorreu com Sader, podem encontrar informações em http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirSecao&id_secao=13). Enfim, para futuras eleições, será que a mídia (impressa e eletrônica) adotará comportamento verdadeiramente jornalístico, de modo a extrair dos candidatos o sumo do que efetivamente tenham para apresentar como programa de governo? Ou ainda estaremos, para sempre, condenados a votos oriundos de "crenças", "simpatias", "rancores", "assistencialismos", "promessas vãs", "elite vs. povo", "direita vs. esquerda" e outros clichês que mobilizam "torcedores" e potencializam a "cegueira" de parte a parte, fazendo da escolha verdadeiro "arrastão"? Em nome de uma suposta (e sagrada) liberdade de expressão, a mídia tudo podia. Por que esse princípio sacramentado [o da liberdade de expressão] não serve também para proteger Emir Sader do mandonismo dos "donos do poder" (como dizia Faoro)? Eles tudo podiam em nome da tal liberdade de expressão, ou de imprensa - como, às vezes, preferem. A seu bel-prazer, a mídia caluniava, mentia, distorcia, manipulava - note que me utilizo aqui do tempo pretérito, como que a marcar o passado e sinalizar o porvir, o daqui para frente. Também a seu bel-prazer, elegia governadores, prefeitos, deputados, presidentes (quem não se lembra do "fenômeno" Collor?) etc - elegia até um poste, dizia-se. Também a seu bel-prazer cassava os mandatos de governadores, prefeitos, deputados, presidentes (Collor, também nesse caso, nos serve como exemplo) etc. Construía e destruía famas, reputações. A mídia tocava a sua flauta, e nós, os ratinhos enfeitiçados, a seguíamos diligentes, comportados - muitas vezes, rumo a nossa própria desgraça. Impunha-nos suas verdades. Não mais. A grande mídia, e é essa a grande novidade, já não mais detém o monopólio da opinião pública. Já não nos guia em direção ao precipício, como se cegos fôssemos.

10.11.06

A POLÊMICA DA ‘RAÇA’ - Promotor de Justiça pede anulação da sentença contra Emir Sader

Recurso do promotor de Justiça Renato Eugênio de Freitas Peres, do Ministério Público de São Paulo, diz que o processo movido pelo senador Bornhausen contra o professor Emir Sader sequer deveria ter sido acolhido em tribunal.
Flávio Aguiar – Carta Maior
SÃO PAULO – O promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo, Renato Eugênio de Freitas Peres, entrou com recurso junto ao juiz de Direito da 22ª Vara Criminal de São Paulo, Rodrigo Cesar Muller Valente, que condenou o professor Emir Sader a um ano de detenção e a perda do seu cargo na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), pedindo anulação da sentença. O parecer emitido pelo promotor historicia o caso desde o seu início. Para pedir a anulação da sentença, o promotor afirma que há incongruência, inadequação e inconsistência na decisão. Começa dizendo que a sentença contra o réu destoa completamente de outras sentenças, praticadas inclusive na 22ª Vara, em face de acusações muito mais graves, como tráfico de entorpecentes, furtos qualificados e outros. “Assim vislumbra-se que no presente caso o professor universitário querelado foi condenado com pena de igual duração àquela que alguns juízes pretendem conferir a traficantes. Houve um tempo que chamavam situações como esta, no direito, de teratológicas”, escreve o promotor. “Mas não é só”, continua. “Como pode agora um professor universitário ser condenado por expressão de opinião?” Manifestando perplexidade, o recurso diz que “em quinze anos de carreira” o promotor nunca teve conhecimento de uma condenação por crime contra a honra, inclusive na 22ª Vara. E reclama que já apresentou seus argumentos por ocasião desse julgamento em primeira instância, mas que pelo visto “sequer foram apreciadas as questões suscitadas”, motivo pelo qual vai reapresentá-las. E diz: “É sabido que muitos Juízes dizem que sequer lêem o que escreve o Ministério Público”. A partir daí o promotor declara que a queixa-crime sequer deveria ter sido recebida em juízo, em primeiro lugar por não ser precisa na qualificação do suposto crime cometido, se era de injúria, calúnia ou difamação. Acrescenta que o juiz acabou desconsiderando as acusações de “calúnia” e de “difamação”, só aceitando a de “calúnia”, e que nisto houve erro de juízo. Ou seja, o recurso desqualifica a própria conceituação com que o juiz encarou o processo. Depois, o parecer aponta uma série de erros cometidos pelos acusadores e pelo próprio juiz. Não houve oferecimento de oportunidade de retratação, obrigatório pela Lei de Imprensa que foi o instrumento da condenação. Deveria também haver oferecimento de oportunidade de reconciliação entre as partes, de explicações, não houve intimação das testemunhas de defesa, enfim o processo teria se tornado um rosário de equívocos, o que justifica o recurso: "Por todos estes motivos, opina a Promotoria de Justiça no sentido de que seja declarada a nulidade do processo, com rejeição da Queixa-crime (por inépcia e falta de condições processuais, leia-se adequação do pedido)”. Mas o parecer não pára por aí. Além de considerar os erros processuais, entra no mérito da questão. E é taxativo: “trata-se aqui de uma disputa ideológica. Nenhuma das partes é um criminoso”. E vai ao âmago do problema, quando diz que se o professor chamou o senador de “racista”, “não há controvérsia sobre o fato de que o Exmo. Senador da República lançou mão da expressão 'a gente vai se ver livre desta raça'”. “Assim só podemos concluir que efetivamente o Excelentíssimo Senhor Senador tem o hábito de utilizar o conceito de raça, ou algum conceito de raça. E infelizmente ele o fez num contexto em que manifesta a expectativa de '...se livrar da tal raça'”. Pergunta o parecerista: como deveria reagir alguém que ouvisse tal frase, e fosse “de origem diversa daquela do ex-governador 'Barriga-verde'”? Deveria ouvir calado o que também pode ser caracterizado como uma “ofensa”. Diz ainda que os advogados do senador argumentaram que ele sentiu-se ofendido por adjetivos como “repulsivo, racista, fascista, mente suja, abjeto, mesquinho, desprezível”, mas que de toda essa coleção só a expressão “racista” poderia ser objeto de querela judicial; e que as demais denotam a existência de um debate “acalorado”, como as que são características daqueles entre “direita esquerda”. Diante do argumento da acusação de que o réu deturpou o sentido da expressão “raça” usada pelo senador, diz que “até mesmo pela confusão resultante, temos que concluir então que a declaração permite o mau entendimento”. Conclusão: “não há prova de dolo criminal”, ou seja, de intenção criminosa. Por fim, o promotor arremata dizendo que o efeito colateral da aplicação da sentença, de perda do cargo de professor em universidade pública é “exacerbada” e que “a aparência da peça nos remete às condenações da época do regime militar. Até as personagens no palco são as mesmas”. “Há apenas uma diferença: na época do governo militar havia sursis”, isto é, a possibilidade da suspensão da pena. Agora, nem isto houve. Opinião da Carta Maior O resumo desta consistente peça jurídica é o de que tudo isto, a queixa-crime, o julgamento, a pena, a perda do cargo público, é um completo absurdo de qualquer ponto de vista que se queira examina-lo, é uma tentativa de cercear o debate político. E que apoiar esta verdadeira comédia de erros, como fizeram várias vozes na mídia impressa e audiovisual, é um atentado à liberdade de expressão. Resta saber se o mesmo eco vai ser dado, nesta mídia, a este parecer exarado a partir do Ministério Público. Quanto a nós outros, lembremo-nos: agora foi o professor Emir. Amanhã, pode ser qualquer um.

9.11.06

Manifesto em apoio a EMIR SADER

A POLÊMICA DA 'RAÇA' Da Redação - Carta Maior - http://agenciacartamaior.uol.com.br BRASÍLIA - O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) fez um apelo à Justiça brasileira pela revisão da sentença do juiz Rodrigo César Muller Valente, da 22ª Vara Criminal de São Paulo, que condenou o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Emir Sader, também colunista da agência Carta Maior, em processo por injúria movido pelo senador Jorge Bornhausen (PFL-SC). Além de ler em Plenário o "Manifesto em Solidariedade a Sader", Suplicy registrou seu apoio ao documento, que já reúne mais de 11 mil assinaturas. O manifesto pode ser assinado em http://www.petitiononline.com/emir2006/petition.html
"O manifesto que assinei em favor do Sader poderia ser assinado por qualquer brasileiro, de qualquer posição política, pois é, antes de mais nada, contra um julgamento absurdo, e uma justiça absurda ameaça todo o mundo."
Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo, 09/11/06

Guia para ser ex-esquerdista

http://agenciacartamaior.uol.com.br 08/11/2006 Servem para quem aceitou as famosas “propostas irrecusáveis” e assumiu cargos de chefia em grandes publicações da mídia monopolista ou em alguma grande empresa privada, que exigem silêncio ou declarações adaptadas aos interesses dos “patrões” (esquecendo-se de que não existem “propostas irrecusáveis” mas sim espinhas dorsais excessivamente flexíveis). Não seriam casos isolados, afinal as redações desses órgãos da mídia privada estão apinhados de ex-comunistas, ex-trotskistas, ex-esquerdistas em geral, “arrependidos” ou simplesmente “convertidos” e que passam a vida inteira – como certos “intelectuais” das universidades, que ganham em troca amplos espaços na grande imprensa – a dizer que já não são o que foram, “limpando-se” aos olhos da burguesia dos seus “pecadilhos de juventude”. Indispensável a referência a que “se é imbecil aos 20 se não se é radical, se é imbecil aos 40 se ainda se continua a sê-lo”, ou alguma alusão como passar “de incendiário aos 20 a bombeiro aos 40”, deixando no ar a afirmação de que se teve uma juventude agitada antes de chegar à idade da razão. Um bom começo pode ser dizer que “o socialismo fracassou”, que “está decepcionado com a esquerda”, “que são todos iguais”. Já estará em condições de dizer que “não existe mais esquerda e direita”, que alguns que se dizem de esquerda na verdade são uma “nova direita”, são piores que a direita e que é melhor então ficar eqüidistante. Do ceticismo se passa fácil ao cinismo de “votar na direita assumida” para derrotar a “direita disfarçada”. Outra via é criticar veementemente Stalin, depois de dizer que ele foi igual a Hitler – “os dois totalitarismos” –, afirmar que ele apenas aplicou as idéias de Lênin, para finalmente dizer que as origens do “totalitarismo” já estavam na obra de Marx. Dizer que Weber tem mais capacidade explicativa do que Marx, que Raymond Aron tinha razão contra Sartre. Que o marxismo é redutivo, só leva em conta a economia, que seu reducionismo é a base do “totalitarismo” soviético. Que não deixa lugar para a “subjetividade”, que reduz tudo à contradição capital–trabalho sem levar em conta as “novas subjetividades”, advindas das contradições de gênero, de etnia, do meio ambiente etc. Não falar de Fidel sem fazer preceder seu nome com um “ditador” e chamá-lo de Castro em vez de Fidel. Desqualificar Hugo Chávez como “populista” e, ao mesmo tempo, como “nacionalista”, dando a este a conotação de “fanatismo”, “fundamentalismo”. Concentrar a atenção na América Latina sobre a Bolívia e a Venezuela como países “problemáticos”, “instáveis”, sem fazer nenhuma menção à Colômbia. Sempre que falar da extensão da democracia no continente, acrescentar “exceto Cuba”. Nunca falar do bloqueio norte-americano a Cuba, mas sempre da “transição” – deixando sempre supor que transitariam em algum momento para “democracias” como as que andam por aqui. Dizer que a América Latina “não existe”, são países sem unidade interna – mencionar “cucarachos”, de forma bem depreciativa. Que nossa política externa tem de olhar para o alto, relacionar-se com as grandes potências e tratar de ser uma delas, em lugar de ficar convivendo com os paises da região e os do sul do mundo – África do Sul, Índia, China etc. Pronunciar-se contra as cotas nas universidades, dizendo que introduzem o racismo numa sociedade organizada em torno da “democracia racial” – uma citação de Gilberto Freire e o silêncio sobre Florestan Fernandes são bem-vindos –, que o mais importante é a igualdade diante da lei e a melhoria gradual do ensino básico e médio para que todos tenham finalmente – vai saber quando, mas é preciso ter paciência – acesso às universidades públicas. Dizer, sempre, que o principal problema do Brasil e do mundo é a educação. Que empregos há, possibilidades existem, mas falta qualificação da mão-de-obra. Que o principal não são os direitos, mas as oportunidades – falar da sociedade norte-americana como a mais “aberta”. Desqualificar sempre o Estado, como ineficaz, burocrático, corrupto e corruptor, em contraposição à “economia privada”, ao “mercado”, com seu dinamismo, sua capacidade de inovação tecnológica. Exaltar as privatizações da telefonia – “antes ninguém podia ter telefone, agora qualquer pobre diabo na rua anda falando em celular” – e da Vale do Rio Doce, calar sobre o sucesso da Petrobras ou afirmar ainda: “imagine se tivesse se tornado Petrobrax, como estaria melhor!”. Em suma, há tantos motivos para quem tiver decidido deixar de ser de esquerda – bastaria o “farinha pouca, meu pirão primeiro” – e buscar ganhar a vida de costas pro mundo e pra sua própria biografia. O “mercado” retribui generosamente os que renegam os princípios em que um dia acreditaram. Mas muito mais fácil é continuar a ser de esquerda. Nem são necessários pretextos, bastam as razões sobre o que é este mundo e o que pode ser o outro mundo possível.
Postado por Emir Sader às 15:36

8.11.06

ENTREVISTA

http://agenciacartamaior.uol.com.br 'Estamos diante dos estertores de uma direita desolada', diz Emir Sader Condenado em processo de injúria movido pelo senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), sociólogo vê ligações da sentença com o momento político. "Expressei minha indignação diante da forma com que as elites brancas tratam o povo, referindo-se a 'raça', 'corja', 'gentalha', 'populacho' e qualificativos dessa ordem", diz ele. Gilberto Maringoni – Carta Maior SÃO PAULO – A reação à condenação do sociólogo e colunista de Carta Maior, Emir Sader, no processo de injúria movido pelo senador Jorge Bornhausen (PFL-SC) motivou uma extensa corrente de solidariedade no Brasil e no exterior. Ela se materializa num abaixo-assinado com mais de 10 mil nomes, entre eles Antonio Candido, Chico Buarque, Oscar Niemeyer, Eduardo Galeano, István Mèszáros, entre outros. A sentença envolve um ano de detenção, em regime aberto, conversível à prestação de serviços à comunidade e à perda de seu cargo de professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). A condenação foi motivada por um artigo publicado na Carta Maior em 28 de agosto do ano passado. O colunista se referia a uma manifestação pública do senador feita dois dias antes. Ao ser questionado em um evento com empresários se estava desencantado com a crise política, Bornhausen respondeu: "Desencantado? Pelo contrário. Estou é encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos". A "raça" a que se referia o senador era o PT e a esquerda. Nesta entrevista, Sader, um dos mais importantes intelectuais brasileiros da atualidade, autor e organizador de 77 livros – entre eles a "Enciclopédia Latinoamericana" e "A vingança da história" (ambos pela Boitempo Editorial) – fala da condenação e de suas impressões sobre o contexto em que ocorreu. Carta Maior – Como o sr. avalia sua condenação? Emir Sader - Eu me surpreendi com a rapidez do andamento do processo, com a conclusão e com a contundência da condenação. A única audiência para a qual fui chamado aconteceu no Rio de Janeiro. Aleguei que, no artigo que motivou o processo, respondi com indignação a uma agressão feita pelo senador Jorge Bornhausen. Não tinha a intenção de injuriá-lo, como a outra parte alegava. O advogado dele não fez nenhuma pergunta e o juiz também não colocou nenhuma observação. A impressão é que não se tipificavam as acusações que se materializaram na sentença, como a de difamação. CM – Como foi o julgamento? ES - O julgamento caiu coincidentemente no dia em que fui eleito secretário-geral do Clacso (Conselho Latino Americano de Ciências Sociais), em 25 de agosto último. Como avisei que não poderia estar presente, o juiz alegou que o julgamento era à revelia, embora meu advogado estivesse presente. E, com esse pretexto, não convocou a nenhuma testemunha de defesa. CM – O que o sr. pretendia com o artigo que motivou o processo? ES - No artigo, expressei minha indignação diante da forma com que as elites brancas tratam o povo, referindo-se a "raça", "corja", "gentalha", "populacho" e outros qualificativos dessa espécie. É um linguajar usual e cotidiano expresso em círculos privados. O que aconteceu com o senador foi uma espécie de crime de sinceridade. CM – Um dos pontos da condenação é a perda de seu cargo como professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro... ES - É um absurdo, pois ele alega que me vali da dignidade do cargo e da carreira para atacá-lo. Isso não é verdade. CM – O sr. vê alguma relação entre a sentença e o momento político? ES - Acho que a rapidez dos trâmites e o resultado da disputa eleitoral mostra que estamos diante dos estertores de uma direita desolada, que busca demonstrar o poder que ainda tem. Eles vêm seu espaço político se reduzir. Em outros períodos, a condenação seria uma nota de rodapé no noticiário geral. Agora ela ganha essa conotação política mais ampla. CM – Quais os próximos passos que o sr. pretende dar no caso? ES - De imediato, a expectativa é a da suspensão da sentença. Em seguida vamos recorrer a uma instância superior. CM – Este caso motivou uma corrente de solidariedade poucas vezes vista em nosso país. Há um abaixo assinado com mais de 10 mil assinaturas, firmado por pessoas de várias vertentes de pensamento. O que isso significa? ES - O segundo turno eleitoral demonstrou o potencial da esquerda brasileira. A política ficou mais clara, pelo contraste e a unidade entre as diversas forças se manifestou. Diante de ataques fortes, ficou demonstrado que há valores a unificar a direita e capazes de amalgamar a esquerda. O abaixo-assinado, não por mim, demonstra existir essa sensibilidade em busca de pontos comuns contra investidas do lado de lá. Neste caso, fica mais uma vez demonstrado o caráter de classe da justiça.

O direito à festa e à luta

http://agenciacartamaior.uol.com.br 29/10/2006 Há exatamente quatro anos atrás comemorávamos – tantos de nós na Avenida Paulista, outros tantos pelo Brasil afora e para além daqui -, finalmente a vitória de Lula, a vitória do PT, a vitória da esquerda. Nos encontrávamos com tanta gente que colocava para fora, nas lágrimas, nos gritos, tanta coisa reprimida, que vinha de longe: da lembrança dos companheiros que não puderam comemorar aquilo conosco às frustrações acumuladas de ver o país ser despedaçado pelo governo que terminava – finalmente – derrotado naquele dia. Comemorávamos, mas com um travo amargo na garganta. Sabíamos que era o nosso governo, mas alguma coisa nos escapava ali. Ganhávamos, fechávamos o governo FHC com sua derrota – o mais importante naquele momento -, mas se desenhavam sombras sobre a vitória, que indicavam que ela nos escapava. Da “Carta aos brasileiros” ao “Lulinha, paz e amor”, de Duda Mendonça a Palocci e – confirmando tristemente as sombras, a Henrique Meirelles -, mais do que algo nos apontava que a nossa vitória não era necessariamente nossa vitória, a vitória da esquerda, a vitória do anti-neoliberalismo, a vitória do “outro mundo possível” pelo qual estivéramos lutando tanto tempo. Havíamos lutado contra as privatizações, havíamos lutado contra as (contra) reformas neoliberais, de menos Estado, menos políticas sociais, menos regulamentação, menos direitos trabalhistas, menos empregos formais, menos soberania, menos esfera pública, menos educação pública, menos cultura pública. Havíamos lutado contra a cassação de direitos dos trabalhadores, dos aposentados, dos trabalhadores sem terra, das universidades públicas, da saúde pública. Havíamos resistido e naquele dia sentíamos que, apesar de tudo o que se havia dilapidado do país, havíamos derrotado ao projeto neoliberal de FHC, havíamos triunfado. O dia da posse e do discurso de Lula em Brasília pareciam o ponto de chegada de mais de uma década de lutas de resistência, em que o Brasil se havia tornado depositário das esperanças da esquerda de todo o mundo. O Brasil de Lula, do PT, do MST, da CUT, de Porto Alegre, do orçamento participativo, do Fórum Social Mundial. Nossas desconfianças se confirmaram com mais rapidez do que supúnhamos. Henrique Meirelles, manutenção da taxa de juros, superávit fiscal – eram pontas de iceberg mais profundo: a manutenção do modelo econômico herdado de FHC. Primeiro, chamado de “herança maldita”. Que não foi desembrulhado como pacote, para mostrar o Brasil desfeito e refeito como Bolsa de Valores nas mãos dos tucanos-pefelistas, o Brasil da privataria na educação e na cultura, do maior escândalo da história do país com a privatização das estatais – saneadas com o dinheiro público do Bndes, para em seguida ser vendida a preços de banana de novo com recursos públicos do Bndes. Em nome da superação dessa “herança” nos foi empurrada uma (contra) reforma da previdência, que desatou um fatal desencontro entre os movimentos sociais e o governo, porque assinalava um caminho de “reconquistar a confiança do mercado” às custas de direitos sociais dos trabalhadores. O nosso governo fazia o que chegou a ser dito que fazíamos “o que FHC não tinha tido coragem de fazer” – sem dizer que era porque não teve força, pela resistência que nós lhe opusemos. Não demorou para que o modelo – primeiro chamado de “herança maldita” – fosse perenizado, com a manutenção das taxas de juros reais mais altas do mundo, com um superávit fiscal mais alto que o definido pelo FMI, com a ditadura dos “contingenciamento” de recursos pela equipe econômica, que passou a ter o poder de definir quantos recursos iriam (ou não iriam) para as políticas sociais, qual o aumento possível do salário mínimo e tudo o mais que deveria ter sido a referência central do governo, se fosse para cumprir a “prioridade do social” para o qual tinha sido eleito. Logo se perpetuou o modelo, logo se afirmou que ela era o melhor, se agradeceu em abraço ao antecessor de Lula pela herança - a partir dali rebatizada de bendita - que havia deixado e se afirmou que “dez anos eu tivesse, dez anos manteria este superávit fiscal”. Acompanhava-se um discurso desmobilizador, de auto-complacência, que não apontava quais eram os adversários, os que haviam produzido o pais mais injusto do mundo, que levou Lula à presidência para redimi-lo e não para perenizá-lo. Nunca sentimos tanta amargura. Porque uma coisa era ver o país ser despedaçado pelos que nos haviam derrotado, outra era ver uma equipe no Banco Central completamente alheia a toda a tradição dos economista do PT se dar o direito de predominar sobre o que notabilizou o PT – suas políticas sociais. Outra coisa era ver grandes empresários fazerem predominar seus interesses agro-negocios-exportadores, de disseminação dos trangênicos, sobre os sem terra, a reforma agrária, a economia familiar, a auto-suficiência alimentar no nosso governo. Outra coisa era ver as rádios comunitárias serem reprimidas em lugar de serem incentivadas, a imprensa alternativa sobreviver a duras penas, enquanto o governo continuava a alimentar os grandes monopólios anti-democráticos da mídia privada. Outra coisa era ver os softwares alternativos serem subestimados ou descartados em favor dos grandes lobbies das corporações privadas. Pelo nosso governo. Foi duro, foi muito duro. Talvez tivesse sido mais fácil – se tudo fosse pensado do ponto de vista da biografia individual de cada um – ter rompido, ter ido embora, ter dito tudo o que o governo merecia ouvir, com todos os tons e sons. Mas teria sido dizer que tínhamos sido irremediavelmente derrotados, que tudo o que tínhamos feito nas décadas anteriores tinha desembocado numa imensa derrota. Teria sido abandonar as trincheiras de luta que tínhamos construído com tanto esforço e sacrifício. Dava vontade. Em certos momentos teria sido muito mais fácil deixar correr solta a palavra, aderir à teoria da “traição”, refugiar-nos nas denúncias e abandonar a possibilidade de construir uma alternativa concreta. Como se não bastasse tudo isso, vieram os “escândalos”: Waldomiro Diniz, Roberto Jéferson, “mensalão”, “sanguessugas” – cada um como uma nova estaca no nosso coração. A imagem ética do PT, construída como a menina dos nossos olhos era revertida. Nos tornávamos o partido dos “maiores escândalos da história do país”. A palavra “petista” passava a ser revestida de uma desconfiança de “corrupção”. Nada de pior poderia acontecer a um partido que tinha nascido, crescido, se fortalecido e se tornado vitorioso com as bandeiras da “justiça social e da ética na política”. Não éramos fiéis nem a uma nem à outra. No entanto, não nos fomos. Ficamos. Seguimos tentando encontrar os fios para retomar o caminho de que nos havíamos desviado. Sabíamos que os grandes enfrentamentos ainda estavam por ser dados. Sabíamos que nossa política externa era a correta e se havia tornado essencial para o continente – agora povoado de governos progressistas, como nunca na história da América Latina. Sabíamos que nos podíamos orgulhar da Petrobrás – que quase havia se tornado Petrobrax nas mãos criminosas dos tucanos -, da autosuficiência em petróleo, de que uma das maiores empresas do mundo havia resgatado o Brasil da crise do petróleo através de uma tecnologia de pesquisa e extração de petróleo em águas profundas, com tecnologia nacional e pública. Sabíamos que a privataria na educação, que havia feito proliferar faculdades e universidades privadas como verdadeiros shopping-centers que vendiam educação como big-macs, havia terminado. Que se fortaleciam as universidades públicas, que passávamos a ter, pela primeira vez, políticas públicas de cultura, abertas à criatividade e à diversidade popular. Que Lula não era FHC, que o PT não era o PSDB. Que os movimentos sociais não eram mais criminalizados e reprimidos. Que a relação com a Venezuela, a Bolívia, Cuba, a Argentina, o Uruguai – era de irmandade e não de preconceitos de quem olha para o Norte e para fora. Que a Alca tinha sido brecada e derrotada pela nossa política externa. Que o Brasil tinha sido o principal responsável pela reaparição do Sul do mundo no cenário internacional com o Grupo dos 20 e as alianças com a África do Sul e a Índia. Que as políticas sociais do governo, mesmo não sendo as que historicamente haviam caracterizado ao PT, mudavam, pela primeira vez o ponteiro da desigualdade – a maior do mundo, o maior desafio da história brasileira – no sentido positivo. Que nem que fosse por solidariedade com a grande maioria dos brasileiros – pobres, miseráveis, excluídos, discriminados, humilhados e ofendidos secularmente, tínhamos que valorizar essas políticas sociais. Ficamos também porque sabíamos que ir-se seria recair na velha e infértil tentação do refúgio no doutrinarismo – caminho justamente que o PT se havia proposta a superar. Seria retomar o velho circulo de Sísifo, interminável de avanços, vitória, “traição” e retomada da resistência. Como uma tragédia grega que havia condenado a esquerda a ter razão, mas ser sempre derrotada. A ter vergonha e desconfiança da esquerda que triunfa. Dos desafios que a construção de uma hegemonia alternativa coloca diante de nós. Valeu a pena termos ficado, termos continuado na luta, termos acreditado que este é o melhor espaço de luta, de acumulação de forças, de construção de alternativas para o Brasil. Não porque tenhamos triunfado nas eleições. Claro que também por isso. Porque derrotamos o grande monopólio privado da mídia, demonstrando que é possível e indispensável construir formas democráticas de expressão da opinião pública, tirando-a das mãos oligopólicas das quatro famílias que se acreditavam donas do que se pensa no Brasil. Claro que porque derrotamos o bloco tucano-pefelista – e de cambulhada mandamos para a aposentadoria política a Tasso Jereissatti, a ACM, a Jorge Bornhausen, a FHC -, derrotamos a direita. Mas principalmente porque recuperamos a possibilidade de construir um “outro Brasil” – caminho que parecia fechado em meio a tanto superávit fiscal, a taxas de juros exorbitantes, a tantas denúncias. Recuperamos, especialmente no segundo turno, porque chamamos a direita de direita. Dissemos um pouco das desgraças que eles fizeram para o Brasil – finalmente abrimos o dossiê da “herança maldita”. Criminalizamos as privatizações, possibilitando que aparecesse à superfície a condenação majoritária dos brasileiros a um processo embelezado e sacralizado pela mídia e pelos arautos do grande capital privado dentro dela. Porque apelamos à mobilização popular, porque fizemos uma campanha de esquerda no segundo turno. Porque comparamos o governo deles com o nosso que, mesmo com todas as suas fraquezas, mostrou-se inquestionavelmente superior ao deles. Foi isso que triunfou. Triunfamos pelo que mudamos, não pelo que mantivemos. Ganhamos porque nos mostramos diferentes e não iguais a eles. Comemoramos agora de novo, na Avenida Paulista ou em tantos outros lugares – antes de tudo nesses milhões de casas de beneficiários da Bolsa Família, da eletrificação rural, dos micro-créditos, do aumento do salário mínimo, mas principalmente os dignifica, ao se sentirem contemplados e representados. Nessas casas onde nunca se duvidou que este governo é melhor que todos os outros. Que nos deram a lição da tenacidade e da resistência contra as campanhas terroristas da mídia. Comemoramos com o mesmo travo amargo na garganta, mas com esperança e com mais confiança. Comemoramos o direito de ter outra oportunidade. Comemoramos a força que conseguimos construir e reconstruir. Comemoramos o direito de sair da política econômica conservadora que impediu o crescimento econômico e poderia bloquear a extensão do crescimento social – caso perdurasse a ditadura dos “contingenciamentos” de recursos. Comemoramos o direito de banir essa maldita expressão – “contingenciamento” – do vocabulário político do governo. Comemoramos o direito a reabrirmos espaços de luta e de esperança que nossos erros haviam ameaçado de fechar. Comemoramos porque conseguimos nos salvar de uma derrota que teria condenado a esquerda – e com ela, o país – a muitos anos de novos retrocessos. Comemoramos porque bloqueamos a possibilidade de regressões na América Latina e seguimos nos somando aos processos de integração. Comemoramos porque neste momento assinamos acordo com a Bolívia, demonstrando que o caminho do diálogo e do entendimento com os países amigos é o caminho correto. Não foi fácil manter a dignidade e a esperança, mesmo durante a campanha. Mas resistimos, com dignidade, até que triunfamos. E reconquistamos o direito à esperança. Principalmente no segundo turno, com uma campanha de esquerda, de reivindicar o Brasil que queremos, enunciando os inimigos de um Brasil justo e solidário – as forças políticas, midiática, econômicas: as elites tradicionais. Ganhamos o direito a lutar, a lutar por um governo que finalmente promova a prioridade do social, seja um governo posneoliberal, trabalhe pela construção de uma democracia com alma social. Comemoremos, porque merecemos a vitória, apesar dos nossos erros. Mas para estar à altura da nossa vitória, temos que fazer dela uma vitória da esquerda. Uma vitória que esteja à altura do emocionante apoio que o governo recebeu, ao longo de toda a campanha, dos mais pobres, dos mais marginalizados, dos que constituem a grande maioria dos brasileiros, dos que trabalham mais e ganham menos. Dos que souberam, como ninguém, resistir à enxurrada de propaganda que a mídia despejou sobre todos. Fazer do novo governo, antes de tudo o governo deles. De todos os brasileiros, mas sobre tudo dos que sempre foram marginalizados, excluídos, reprimidos, que sempre viveram e morreram sobrevivendo, no anonimato, no silêncio, no abandono. Comemoremos, mas juremos nunca mais deixar que o nosso governo se desvie do caminho do desenvolvimento econômico e social, das políticas de universalização dos direitos, de democratização da mídia, de socialização da política e do poder. Nunca mais aceitarmos que o nosso governo se confunda com o governo dos outros, faça e diga o que os outros disseram e nos legaram a “herança maldita”. Comemoremos e retomemos a luta, em condições melhores, por um “outro Brasil possível”, que está ao alcance de nós, do governo, do PT, da esquerda, dos movimentos sociais, da intelectualidade crítica, das militância política e cultural. Dessa luta depende o segundo governo Lula, que conquistamos com muito sofrimento e tenacidade. Soubemos dizer “Não à direita”, saibamos dizer “FHC nunca mais”, saibamos construir a “prioridade do social”, saibamos derrotar a direita em todos os planos, saibamos construir um Brasil justo, solidário, democrático e humanista. Para voltarmos a comemorar daqui a quatro anos, sem travos amargos, sem desconfiança, com o coração e a mente orgulhosos do país que soubemos construir. Postado por Emir Sader às 16:43

O outro Brasil que vem aí

VEJA O VÍDEO NO YOUTUBE Eu ouço as vozes eu vejo as cores eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí mais tropical mais fraternal mais brasileiro. O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados terá as cores das produções e dos trabalhos. Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças terão as cores das profissões e regiões. As mulheres do Brasil em vez das cores boreais terão as cores variamente tropicais. Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil, todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco. Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil lenhador lavrador pescador vaqueiro marinheiro funileiro carpinteiro contanto que seja digno do governo do Brasil que tenha olhos para ver pelo Brasil, ouvidos para ouvir pelo Brasil coragem de morrer pelo Brasil ânimo de viver pelo Brasil mãos para agir pelo Brasil mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar). mãos livresmãos criadoras mãos fraternais de todas as cores mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos, sem Irineus sem Maurícios de Lacerda. Sem mãos de jogadores nem de especuladores nem de mistificadores. Mãos todas de trabalhadores, pretas, brancas, pardas, roxas, morenas, de artistas de escritores de operários de lavradores de pastores de mães criando filhos de pais ensinando meninos de padres benzendo afilhados de mestres guiando aprendizes de irmãos ajudando irmãos mais moços de lavadeiras lavando de pedreiros edificando de doutores curando de cozinheiras cozinhando de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens. Mãos brasileiras brancas, morenas, pretas, pardas, roxas tropicais sindicais fraternais. Eu ouço as vozes eu vejo as cores eu sinto os passos desse Brasil que vem aí. Gilberto Freyre

PRESIDENTE REELEITO

http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12695 29/10/2006

Lula vence e faz apelo por unidade em primeiro pronunciamento Reeleito com 60% dos votos, Lula assegura que a meta do novo governo será o crescimento econômico com distribuição de renda. O presidente também aproveitou seu primeiro pronunciamento para dar recados a amigos e adversários.

Verena Glass - Carta Maior

SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito neste domingo (29) com cerca de 57,6 milhões de votos, alcançando 60,7% dos sufrágios válidos. Em 2002, o percentual chegou a 61,27%. Alckmin, que totalizou a 41,64% no primeiro turno, caiu agora para 39,21%. Com a confirmação, por volta das 19:30 h, do resultado esperado - já que a reeleição foi apontada por todas as pesquisas de intenção de voto -, no início da noite o presidente reeleito recebeu a imprensa para um pronunciamento no Hotel Intercontinental, em São Paulo. Com pouco mais de meia hora de atraso – estava esperando o telefonema de congratulação do adversário tucano Geraldo Alckmin, que foi feito às 20:22 h -, Lula aproveitou sua primeira fala para mandar alguns recados.Após agradecer a confiança de seus eleitores, de reforçar que a vitória foi mérito do povo incluído num patamar superior de cidadania e de afirmar que “o Brasil está vivendo um momento mágico de consolidação da democracia”, Lula voltou a tocar no tema da estabilização da economia. A vida do povo melhorou, há mais emprego e mais comida na mesa, mas o alvo agora será o crescimento rumo a um “padrão de desenvolvimento que coloca o Brasil no patamar dos países desenvolvidos. Cansamos de ser emergentes”, afirmou.Sobre o tema, mais adiante Lula colocou os pontos nos Is: “Nós manteremos uma política fiscal dura. Porque aprendi, não nas faculdades de economia como os meus companheiros, eu aprendi na vida cotidiana que a gente não pode gastar mais do que ganha, porque senão um dia a gente vai se endividar de tal ordem que não vai conseguir pagar a dívida que contraiu”. Segundo o presidente, porém, esta “dureza” não deverá interferir nas políticas sociais de distribuição de renda, seguindo a lógica do “é preciso distribuir para poder crescer” e do giro da economia com o aumento do poder aquisitivo da população como instrumento de crescimento. Logo em seguida, Lula disparou outro recado, ao mesmo tempo para o setor produtivo e para a sua base histórica: “Aos meus companheiros sindicalistas, quero dizer: reivindiquem tudo o que vocês precisarem reivindicar. Nós daremos apenas aquilo que a responsabilidade permita que a gente dê”. Mas em seguida, no estilo bater e soprar, afirmou que a relação do presidente com todos os segmentos da sociedade civil é um fator essencial, “consolidando a democracia, o papel do estado e sobretudo o papel de participação da sociedade. Isso nós fizemos com muita competência e vamos continuar fazendo, afinal de contas o Brasil não é meu, Brasil é de todos. Por isso estou com esta frase na minha camiseta para vocês lerem”, afirmou, abrindo a jaqueta e mostrando os dizeres " A vitória é do Brasil".Justiça social e aliançasLula também retomou neste domingo o discurso da unidade e das responsabilidades compartilhadas que marcaram sua candidatura em 2002. E novamente deu o seu recado, desta vez para os governadores. “Acho que os governadores eleitos têm a compreensão de que o crescimento do Brasil tem que beneficiar o crescimento dos estados. Continuaremos a governar o Brasil para todos, mas continuaremos a dar atenção aos mais necessitados. Os pobres terão preferência no nosso governo. As regiões mais empobrecidas terão no nosso governo uma atenção ainda maior, porque nós queremos tornar o Brasil mais equânime e mais justo, do ponto de vista geopolítico, econômico e social”.Já para os adversários políticos, o presidente ofereceu uma trégua e propôs um pacto de conciliação. “Ao receber o telefonema do meu adversário, o candidato Geraldo Alckmin, eu saio com a convicção de que o Brasil não pode temer o fortalecimento de sua democracia. A eleição acabou, agora não tem mais adversário. O adversário agora são as injustiças sociais que precisamos combater. Agora é todo mundo se juntar para fazer o Brasil crescer (...). Não tenho dúvida que poderemos contar com a compreensão dos partidos que fizeram oposição a nós. Quero conversar com todos, sem distinção. Não haverá partido neste país que eu não chame para conversar e dizer que agora o problema do Brasil é de todos nós. Eu tenho a presidência, mas todos os brasileiros têm a responsabilidade de dar a sua contribuição para que o Brasil não perca mais uma possibilidade”.Também em relação ao Congresso Nacional, Lula prometeu mais empenho pessoal. “Pretendo até dezembro conversar com todas as forças políticas que compões o Congresso e com todas as forças sociais, dos sem-teto ao movimento sindical, dos sem-terra às cooperativas. Aprendemos lições importantes neste primeiro mandato na relação com o Congresso Nacional. Nós vamos ter a mesma coordenação política, mas eu posso dizer que irei pessoalmente interferir mais nas negociações”.Futuro governoDepois de seu pronunciamento, Lula, que durante seu primeiro mandato ficou conhecido como avesso a conversas com os jornalistas, brincou com a imprensa que isto iria mudar, e abriu espaço para algumas perguntas. Questionado sobre a renovação na composição do governo, Lula afirmou não querer comentar ainda a composição do próximo ministério, mas reafirmou a importância das pastas sociais criadas por ele em 2003, como a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e a Secretaria de Políticas de Promoção da da Igualdade Racial, criticadas pela oposição como inchaço da máquina. “Esta estrutura deu tão certo que ganhamos as eleições”, alfinetou.Também sobre a política externa do próximo mandato, Lula voltou a reafirmar seu compromisso com o Mercosul e com a integração da região. Já durante o pronunciamento, comemorou a consolidação da política internacional, “onde não temos adversários, mas construímos um leque de amizades”, fazendo com que o país transitasse “com leveza em todos os continentes, porque nós aprendemos a respeitar, e somos respeitados”. Respondendo à pergunta de um repórter argentino, porém, desqualificou o antigo discurso pró-Alca em detrimento do Mercosul, e reafirmou seus esforços para a integração da América Latina e para a construção de relações de confiança entre os os membros do bloco. Também falou da responsabilidade dos países mais estruturados, como Brasil e Argentina, no processo de desenvolvimento dos países mais pobres, e terminou reafirmando a política brasileira em relação à Bolívia.“Havia uma descrença em relação à Bolívia de alguns setores reacionários, que achavam que eu deveria ser duro com a Bolívia. Onrtem foi feito um acordo que meu ministro das minas e energia achou extraordinário. Então, para que uma briga se eu posso ter uma boa conversa. Eu nasci na política fazendo acordo e é assim que a gente está se dando bem com a Argentina, com o Uruguai, com o Paraguai, com a Venezuela e com todos os outros países”.Por fim, o presidente prometeu mais agilidade na implementação de leis e projetos que chegarem ao executivo para homologação. Sobre a morosidade do processo de aprovação de questões estratégicas, argumentou que “nem sempre as decisões do presidente acontecem, porque tem nuances jurídicas, tributárias, etc”. E deu o seu último recado da noite: “discuta-se tudo antes de chegar na minha mesa. Chegou na minha mesa, aprovou, é para começar a funcionar”.

Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz