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"Até quando vamos ter que aguentar a apropriação da ideia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

9.3.11

Crianças em disputa: o ataque do capital (II) | BRASIL de FATO

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Quarta-feira, 9 de março de 2011

Crianças em disputa: o ataque do capital (II)qua, 2011-03-09 14:32 — admin

As empresas gigantes do cultivo da cana têm assumido a educação formal na região centro-sul do país

09/03/2011

Roberta Traspadini

 

1.O Projeto Agora: a educação formal a serviço do capital

Neste texto trataremos como as empresas gigantes do cultivo da cana têm assumido a educação formal na região centro-sul do país, que concentra praticamente 90% de toda produção canavieira do Brasil.

Cem municípios da região centro sul, espalhados por São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás, encubam o processo de educação formal denominado Projeto Agora.

Este projeto dirigido para a educação formal de educandos da 7ª. e 8ª. series, com idade entre 12 a 15 anos, é uma parceria público-privada entre instituições governamentais, alguns sindicatos e o grande capital. Itaú, Monsanto, Basf, Dedine, CEISI, Amyris, BP, FMC e SEW Eurodrive, são as empresas centrais do processo.

 

2.Quais as concepções manifestas no kit educativo?

O documento nos mostra cinco concepções dirigidas à formação da futura geração de trabalhadores:

1.Desenvolvimento e progresso. Evidenciada pelo aparente rico histórico da monocultura e do latifúndio no Brasil que não é, no documento, avesso à diversidade produtiva.

2.Inclusão social com dignidade. Traz a idéia de jovem empreendedor associado ao trabalho técnico na indústria da cana, que não relata a particularidade histórica do trabalho escravo e da superexploração deste cultivo em tempos atuais.

3.História reduzida à vitória do capital. Neste ponto não aparecem as lutas ocorridas nos territórios, as disputas reais vividas pelos diversos sujeitos sociais, e a produção de processos políticos antagônicos sobre a apropriação do trabalho.

4.Terra e riqueza associada ao progresso. Processo que não questiona nem o tamanho da propriedade, nem o uso da terra, e principalmente, não relata as contradições na forma e no conteúdo da utilização dos recursos, e do trabalho.

5. Educação adestradora. Uma validação da lógica dominante voltada para os grandes projetos, para a incorporação de um ser pertencente à vantagem competitiva do grande capital, ou um ser excluído desta possibilidade.

 

3. O que está por trás da leitura?

O kit educativo é uma cartilha de agitação e propaganda da indústria canavieira. Faz um superficial recorrido histórico sobre o cultivo da cana até o Brasil colonial, onde não são manifestas lutas, disputas, contestações à imposição do poder.

As concepções de colônia de exploração e de plantation manifestas na cartilha não evidenciam o trabalho escravo, o monocultivo e o latifúndio como mola propulsora do processo de desenvolvimento brasileiro, em que expropriação e exploração constituem as raízes ilícitas do enriquecimento do capital no território.

Na superficialidade demonstra sua capacidade destruidora da educação e da história nos sonhos concretos dos jovens sujeitos.

Da debilidade histórica o texto passa para os dados – IBGE -atuais sobre a posição do Brasil no ranking mundial da produção de cana, como se isto fosse fruto de uma relação de igualdade entre trabalhadores e capitalistas.

Mostra que o Brasil é o primeiro produtor de cana do mundo com 645 milhões de toneladas produzidas em 2008. Mas não diz o que isto significa na prática dos territórios e das vidas produtoras da riqueza expropriada pelo capital.

Salta aos olhos que o documento é mais do que agitação e propaganda. É um processo complexo e diversificado de formação ideológica através da educação formal.

É um processo de construção da intencionalidade “educativa” do capital. Formação para a consolidação de um exército industrial de reservas consciente de sua necessidade de inclusão dentro da ordem.

É um processo de construção da educação formal para a manutenção da ordem e do progresso burgueses, que não admite outro conceito que não o da benevolência do capital na vida dos sujeitos, na produção da Pátria, na construção da era global.

É um processo de construção ético-moral burguês que oculta o real. Em sua aparente máscara de inclusão, prosperidade, modernização, encobre a história da opressão-exploração-dominação.

O que no kit educativo aparece como dado, para nós trabalhadores deve ser entendido como questões que nos permitam revelar o que está oculto no ponto de vista colocado.

 

4. Quais são as grandes questões a serem recuperadas?

a. A questão da terra: segundo o documento, a produção de cana abarca mais ou menos 8 milhões de hectares de terra no Brasil, o que significa somente 2,5% das terras agricultáveis.

Esqueceram de dizer que nos estados em que está a maior concentração, a porcentagem de terras é gigantesca e nos demais, resta saber quem são os donos das sementes, das propriedades, da compra direto da produção dos pequenos produtores rurais.

b. A questão do trabalho e da produtividade: destaca a importância das máquinas colheitadeiras. Mostra não só o aumento da produtividade do trabalho como a possibilidade de ampliação dos números de participação do setor no PIB nacional. Mostra que a produtividade homem/dia saiu de 6 a 10 toneladas na colheita manual, para 500 a 800 toneladas com a colheita mecânica.

Esqueceram de relatar a real condição vivida dos migrantes da cana no Brasil, em busca de uma oportunidade. Aqui temos dois problemas em um. A continuidade do trabalho escravo, e o desemprego estrutural fruto da mecanização. O monocultivo e o latifúndio se apresentam, ao longo da história, como péssimos exemplos de desenvolvimento e inclusão social.

c. A questão da “oportunidade e do desenvolvimento”: trabalha a noção de desenvolvimento como sinônimo de mecanização do campo. A cana é, para eles, o principal motor econômico, político e cultural colocado em movimento nas relações sociais da região. Segundo seus ideólogos, também permite um modelo de desenvolvimento para as cidades com projetos sociais, educativos, culturais e com o progresso da rede de serviços que gera uma economia com gigantesco potencial de crescimento.

Esqueceram de dizer que outro mundo é possível para além do cultivo da cana nestas regiões, a partir da revisão concreta: da intervenção de Estado; da lógica de produção; do conceito de vida.

O que está colocado no projeto de educação das grandes empresas é uma gigantesca máquina do terror em que a produção material da vida aparece invertida e os olhos já não mais devem conseguir visualizar as contradições cotidianas.

Na disputa contra o grande capital, necessitamos retomar o debate, a disputa e a proposição política concreta sobre as seguintes questões: da luta de classes na atualidade; do Estado e da sociedade; agrária e ambiental; do trabalho; do desenvolvimento; e da concepção de vida.

Ou denunciamos estas ilegalidades e anunciamos nosso projeto de classe, ou o futuro que já começou faz alguns séculos no nosso continente, continuará distante de nos pertencer como classe.

 

Roberta Traspadini é economista, educadora popular e integrante da CP/ES.

 

http://www.brasildefato.com.br/node/5842

 

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Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz