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pergunta:

"Até quando vamos ter que aguentar a apropriação da ideia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

17.10.18

"cooperar com o bem comum e defender a vida"

Dom Mauro Morelli sobre Bolsonaro: 'Desequilibrado e vulgar'

Dom Mauro com o Papa Francisco em 2013: Igreja não deve ser aliada do poder, mas cooperar com o bem comum e defender a vida. (Consea-MG)

Rede Brasil Atual

Dom Mauro Morelli, bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias (RJ), reagiu a declarações ofensivas de Jair Bolsonaro (PSL) contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). "O candidato Bolsonaro agrediu gravemente e de forma gratuita a Igreja Católica, taxando a CNBB de parte podre da Igreja. De sua boca jorram asneiras e impropérios, revelando um homem desequilibrado e vulgar", afirmou dom Mauro. "Se eleito acabará defenestrado em pouco tempo", completou.

Nesta quarta-feira (17), apoiadores do ex-capitão difundiram um vídeo em que em que o candidato a presidente da República insulta a CNBB, dizendo que "são a parte podre da Igreja católica".

Dom Mauro observou que a entidade não nasceu de uma "visão ideológica", mas por exigência da teologia da comunhão na dimensão, por exemplo, da "sinodalidade". A expressão vem da palavra "sínodo", que significa "caminhar juntos". "O bispo não age isolado, sua Igreja é sujeito de sua vida e missão. A CNBB comemorou 60 anos de vida e missão a serviço da vida com dignidade e esperança", afirma.

A CNBB, acrescenta, "reúne os bispos titulares das Dioceses da Igreja Catolica Apostólica Romana, para cuidar da Ação Pastoral da Igreja e de sua Missão Evangelizadora". "O ministério pastoral exercido de forma colegiada garante a unidade no pluralismo."

O bispo declarou voto em Fernando Haddad, fazendo ressalvas. "Não votarei no programa do candidato do PT, mas no seu equilíbrio e capacidade de diálogo. Se eleito, farei cooperação crítica ou oposição." Ele lembrou que ajudou a eleger Luiz Inácio Lula da Silva em 2003 e foi "o primeiro crítico de seu governo nos primeiros dias de governo". E observou que sempre manteve diálogo com Gilberto Carvalho, ex-ministro dos governos Lula e Dilma.

Em 1974, dom Mauro foi nomeado bispo auxiliar de São Paulo. Recebeu a sagração do então cardeal-ardebispo, dom Paulo Evaristo Arns. Em 1981, tornou-se o primeiro bispo da Diocese de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde permaneceu até 2005. O religioso presidiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, criado durante o governo Itamar Franco, que havia recebido sugestão nesse sentido de Lula. Ao lado do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, Dom Mauro conduziu uma campanha nacional pela cidadania e contra a fome e a miséria.

"Cooperei com Itamar na Presidência da República e com os Governadores de MG de Itamar a Pimentel, nunca coloquei a Igreja em maracutaias e nem me envolvi em disputas eleitorais e partidárias. A Igreja não deve ser aliada do poder mas cooperar com o bem comum e a defesa da Vida", escreveu o religioso, que também preside o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais (Consea-MG).

Povo contra povo

No início da semana, pastorais sociais e outras entidades divulgaram nota alertando para um "movimento antidemocrático" na atual campanha, que "apela  ao ódio e à violência, colocando o povo contra o povo".

"A Constituição sai ferida com esta intolerância que nega a diversidade do povo brasileiro, estimula preconceitos e incentiva o conflito social", diz ainda a nota.

"O candidato deste movimento quer se valer de eleições democráticas em sentido contrário para dar legalidade e legitimidade a um governo que pretende militarizar as instituições, garantir impunidade aos abusos policiais, armar a população civil e reduzir ou cortar programas de direitos humanos e sociais. Em poucas palavras, é o abandono do Estado Democrático de Direito."

Assinam a nota: Cáritas Brasileira, Comissão Brasileira Justiça e Paz, Centro Cultural de Brasília, Conselho Indigenista Missionário, Comissão Justiça e Paz de Brasília, Conselho Nacional do Laicato do Brasil, Comissão Pastoral da Terra, Conferência dos Religiosos do Brasil, Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, Observatório De Justiça Socioambiental Luciano Mendes De Almeida, Pastoral Carcerária Nacional, Pastoral da Mulher Marginalizada, Pastoral Operária e Serviço Pastoral do Migrante.

‘Civilização contra a barbárie’

Wagner Moura: 'Civilização contra a barbárie'
https://www.youtube.com/watch?v=FO_QhptziBY 
 
"Essa não é uma eleição de disputa política, da esquerda contra a direita, é a civilização contra a barbárie. Se expor num país polarizado é abrir o flanco para as ameaças mais covardes, mas é satisfatório estar no lado certo da trincheira." Wagner Moura

15.10.18

#QueroDebate!

Como um #candidato quer ser #presidente, se não consegue defender suas #propostas num #debate?
Candidato #covarde?   





A democracia ainda pode ser salva!

Bolsonaro e o uso da violência política nas eleições

Publicado em: outubro 15, 2018

Erick Kayser (*)

O 2º turno das eleições presidenciais ganhou feições dramáticas ao trazer a tona algo que até então esteve quase que ausente das disputas eleitorais do país nos últimos 30 anos: a violência política. Enquanto escrevia este artigo, já havia mais de 50 casos de agressões registrados pelo Brasil nos últimos dias. Um dos casos mais graves ocorreu em Salvador, logo após a divulgação dos resultados do 1º turno, quando o Mestre capoeirista Moa do Katendê foi assassinado com 12 facadas nas costas por ter declarado seu voto em Haddad. O assassino, apoiador de Bolsonaro, após ser detido, confessou que o crime ocorreu por motivação política.

O exame destas dezenas de casos de violência revelam, ao contrário do que alguns querem fazer crer, que não existem dois lados envolvidos equivalentes, alimentando mutuamente o uso da força e das agressões físicas. Todos os casos respondem uma mesma configuração: o lado agressor é composto de apoiadores de Bolsonaro e as vítimas agredidas são apoiadores de Haddad. Em alguns casos nem mesmo é necessário ser apoiador da candidatura petista, basta "parecer" petista: pertencer a alguma minoria ou usar uma roupa vermelha.

A prática da violência pela extrema-direita não começou propriamente na campanha eleitoral, ela já vinha se insinuando neste último período, mas de forma pouco coordenada. Se o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, é o caso mais eloquente desta recente onda de violência política, não nos esqueçamos dos tiros contra a caravana de Lula ou ainda as agressões ocorridas contra a Vigília democrática por Lula em Curitiba, entre tantos outros casos. Em comum em todos estes é a ausência de qualquer punição aos responsáveis pelos crimes. A certeza da impunidade é um dos maiores combustíveis para alimentar a chama da violência extremista.

No 1º turno, onde um atendado a faca vitimou Bolsonaro, não teve como resposta por parte de sua campanha um apelo à paz, pelo contrário, alguns casos de agressões praticadas por militantes da extrema-direita se espalharam pelo país. Talvez um dos mais bizarros atos de violência no 1º turno ocorreu na Bahia, em 30/09, quando um cachorro foi morto a tiros durante uma carreata pró-Bolsonaro no centro da cidade de Muniz Ferreira, no Recôncavo Baiano. O cão foi alvejado por balas enfrente aos seus donos e com crianças presentes. A banalização da violência assume as raias do absurdo.

A grande votação de Bolsonaro, ultrapassando a marca de 40% dos eleitores, deu um novo impulso a esta violência. As mensagens protocolares do candidato, justificando que não poderia controlar seus apoiadores, deram uma espécie de carta branca, permitindo que todos os grupos extremistas saíssem das tumbas exibindo a sua gramática da intolerância e ódio. Esta violência, em certa medida, é espontânea, ela ainda não responde a um comando centralizado que ordena como e onde serão feitos os ataques. Estas práticas desordenadas de agressão, no entanto, não significam que não tenham responsabilidade direta da candidatura Bolsonaro. Seu discurso de ódio emulou que esta violência politizada fosse ampliada e direcionada contra os adversários e opositores do "mito".

A ausência de uma condenação veemente da violência de seus apoiadores não ocorre apenas por casuísmo ou fidelidade a sua pregação da intolerância e adoração as armas. Responde também a uma dupla função política que, de forma pragmática, Bolsonaro espera colher dividendos, uma mais imediata e a outra no médio prazo. A primeira é difundir o medo em seus opositores. O fascismo historicamente sempre se valeu de instrumentos de intimidação que buscavam perseguir e agredir fisicamente seus adversários. O padrão é um uso covarde destas ações violentas, os ataques sempre ocorrem havendo uma superioridade numérica dos extremistas ou o uso de armas contra indivíduos desarmados.

O medo da violência política, pela forma unilateral que ocorre, visa intimidar as pessoas a apoiarem publicamente a candidatura Haddad ou a manifestar seu repúdio a candidatura Bolsonaro, como na campanha do #EleNão. Sufocando, na marra, uma onda pró-Haddad nas ruas, eles acreditam garantir uma vitória de seu candidato. Esta estratégia do medo cumpre, neste momento, um papel secundário, não passaria por aí o centro da campanha da extrema-direita. Acreditam que a vantagem obtida no 1º turno é irreversível e que sua vitória estaria virtualmente garantida. No entanto, face um revés nas próximas pesquisas, a tática do medo poderá ganhar centralidade.

A violência política, além de eliminar fisicamente (de forma temporária ou definitiva) seus oponentes, beneficiaria Bolsonaro em uma outra direção, caso a violência se mantenha nestes atuais patamares ou mesmo se agudize. Em médio prazo, esta continuidade da violência traria a difusão do pânico e da sensação de caos social. Cenário ideal para um "líder forte" vender soluções autoritárias que justifiquem toda a sorte de arbítrio em nome da Ordem. Em resumo, Bolsonaro planta as sementes do caos para depois, hipocritamente, se vender como o salvador dos problemas gerados por ele próprio.

Não apenas de socos, chutes e tiros se faz a violência política da campanha Bolsonaro, o campo simbólico é uma das arenas privilegiadas da campanha. Desde elogios a ditadura de 1964 por Bolsonaro e seu vice, passando pela torrente de fake news nas redes, onde o ódio político ultrapassa qualquer dimensão de razoabilidade. A violência no campo da memória tem sido sedimentada com uma forma e escala inéditas, não vistas ao redor do mundo. Um dos símbolos desta violência simbólica foi praticada por Daniel Silveira, eleito deputado federal pelo PSL, e Rodrigo Amorim, deputado estadual mais votado do RJ, também pelo PSL, que publicamente quebraram uma placa de rua com o nome de Marielle Franco.

O filósofo alemão Walter Benjamin, vítima do nazismo, alertava: "Também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso." A batalha contra a violência política é importante tanto no campo simbólico e da memória, quanto no repúdio as agressões e na defesa da paz. Derrotar o fascismo passará por uma ação combinada nestes dois terrenos. Não aceitar a intimidação que buscam impor pela violência é a maior resposta a ser dada ao extremismo. O ato político na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, que distribuiu mil placas de rua em homenagem à vereadora assassinada é um exemplo contundente de ação contra a intolerância e as tentativas de intimidação e medo. A democracia ainda pode ser salva!

(*) Historiador

https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2018/10/bolsonaro-e-o-uso-da-violencia-politica-nas-eleicoes-por-erick-kayser/

A democracia está ameaçada: não deu para notar?

A democracia está ameaçada: não deu para notar?

Flavio Koutzii*

Publicado em: outubro 15, 2018

Foto: Guilherme Santos/Sul21

A grande turbulência das eleições nacionais opaca em parte nossa eleição estadual. É extraordinário e deprimente a velocidade com que Sartori e Leite anunciaram seu apoio a Bolsonaro. Especialistas em afirmações contundentes consideraram Sartori mais enfático desde o primeiro momento. Certamente instado por seus coordenadores, Leite se corrigiu rapidamente.

O certo é que o que pareceria uma manobra tática regional foi e é uma decisão muito mais grave, há transposição de um limite, a identificação com posições bárbaras. Não tem volta. Sejam ou não eleitos, ficarão para sempre associados às posições nefastas, regressivas e fascistóides que Bolsonaro representa. Escrevo essas linhas para impedir (ao menos tentar) a banalização desse fato.

A anuência de Pedro Simon é um melancólico finale e a ambigüidade dele e de Ibsen Pinheiro dão conta de todo o seu constrangimento e busca de álibis que dão às costas à democracia.  Eles deviam lembrar-se que durante os 13 anos de governos petistas, não houve violência política, nem o preconceito patrulhando as ruas, nem ruptura institucional, nem um sieg heil suspenso no ar, muito menos desconsideração das regras da democracia.

Não transformem sua crítica ao PT num álibi, defendam a democracia que é seu dever, ao menos, se ainda respeitam sua própria história, como fez tão corajosa e honradamente Bona Garcia!

* Flavio Koutzii foi deputado estadual por várias legislaturas e chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra.


https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2018/10/a-democracia-esta-ameacada-nao-deu-para-notar-por-flavio-koutzii/

10.10.18

Morte, ameaças e intimidação

Morte, ameaças e intimidação: o discurso de Bolsonaro inflama radicais

10 Outubro 2018 

 Em Salvador, capoeirista Moa do Katendê foi assassinado por criticar o presidenciável de extrema direita. Minorias relatam ameaças e medo. Entidades cobram candidato.


A reportagem é de Beá Lima e Joana Oliveira, publicada por El País, 10-10-2018.

ódio que se encrustou na disputa eleitoral fez ao menos uma morte algumas horas depois de que 147 milhões de brasileiros se dirigiram às urnas. O mestre de capoeira e ativista cultural Romoaldo Rosário da Costa, mais conhecido como Moa do Katendê, de 63 anos, foi assassinado com 12 facadas na madrugada da segunda-feira, em um bar de Salvador. O autor confesso do crime, Paulo Sérgio Ferreira de Santana, de 36 anos, disse à polícia que o assassinato teve motivação política. De acordo com a declaração que deu às autoridades, Santana, que votou e defendeu o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL), discutia com o dono do local, que votou em Fernando Haddad (PT), quando Moa uniu-se à conversa para também defender o petista. O assassino, então, foi à casa, pegou uma peixeira e voltou ao bar para atacar o capoeirista. A delegada Milena Calmon, responsável pelo caso, descreveu Santana ao EL PAÍS como um homem "intolerante e agressivo".

Agressões motivadas por um ambiente de ódio na política já haviam irrompido na campanha ao longo do primeiro turno. O próprio Bolsonaro foi vítima de uma facada no dia 6 de setembro durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG) —o agressor,Adélio Bispo de Oliveira, que segundo a Polícia Federal agiu sozinho, alegou motivação política. O candidato passou para o segundo turno com quase 50 milhões de votos adotando um discurso de extrema direita que parece influenciar os atos de uma parcela mais radical de seus eleitores. Na noite desta terça-feira, um estudante recém-formado, cuja identidade foi preservada, foi agredido na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, por usar um boné do MST. A vítima, que estava reunida com amigos em uma praça do campus, foi espancado por membros de uma torcida organizada local sob gritos de "Aqui é Bolsonaro", segundo testemunhas. "Eram uns 10 homens. Eles chegaram a quebrar garrafas na cabeça do rapaz", conta M.H.O., presidente do Diretório Central de Estudantes, que presenciou a agressão e fez a denúncia. Os agressores também teriam depredado a Casa do Estudante da universidade, cujas janelas foram quebradas. A polícia foi acionada, mas os homens fugiram do local. A vítima foi atendida por uma ambulância e passa bem. "Seguiremos acompanhando as investigações. Temos que resistir", diz M.H.O.

Ainda não há estatísticas sobre o número de ocorrências, que já chamam a atenção de organizações. "Temos recebido um número crescente de denúncias de ataques a pessoas que manifestam sua preferencia por um candidato, inclusive o homicídio de um eleitor de Fernando Haddad na Bahia. Os ataques tem que ser investigados e seus autores responsabilizados de forma célere. As instituições, polícias e Ministério Público têm que cumprir sua função", explicou Juana Kweitel, diretora executiva da ONG Conectas Direitos Humanos. "O gestual do candidato Bolsonaro imitando o uso de armas vai claramente na direção contrária. Os dois candidatos no segundo turno devem chamar a seus eleitores a agir de modo pacífico e tolerante e devem se manifestar de forma categórica perante os ataques noticiados", completou.

Questionado por jornalistas, Bolsonaro taxou o assassinato do capoeirista e outras agressões de "excessos" e disse lamentar os episódios de violência. "Quem levou a facada fui eu, pô. O cara lá que tem uma camisa minha e comete um excesso, o que é que eu tenho a ver com isso?", indagou. Ele também disse que o clima "não está tão bélico assim" e que os casos ocorridos até agora são isolados. Espera que não ocorram mais. "Eu lamento, peço ao pessoal que não pratique isso, mas não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam. Agora, a violência vem do outro lado, a intolerância vem do outro lado. Eu sou a prova viva disso daí".

Para o doutor em Direito Henrique Abel, a resposta de Bolsonaro às agressões foi insuficiente e "mostra um desinteresse da parte dele em orientar seus seguidores". Algo que, em sua opinião, seria muito fácil fazer: bastaria "estabelecer uma diretriz, que teria um impacto psicológico muito importante" entre seus eleitores mais radicalizados. "Ele prefere sair com uma evasiva. Então, sim, há uma responsabilidade. Não diretamente, mas ele é considerado um símbolo e legitima práticas e condutas ilícitas ou abertamente criminosas, como dizer que ele iria 'fuzilar a petralhada' do Acre", argumenta. E acrescenta: "Mesmo que em um eventual governo ele não chegue a dar uma ordem de matar ou torturar alguém, o simples fato de simbolicamente legitimar essas práticas representa, aos olhos de quem será governado por ele, uma interpretação de que passam a ser permitidas. E de que não há nada de errado com elas".

Jornalistas estão na mira

Jornalistas também entraram na mira de agressores. No domingo, uma jornalista pernambucana, cuja identidade foi preservada, prestou queixa na polícia dizendo ter sido atacada por dois homens ao sair do colégio onde votou no Recife. Depois de terem visto seu crachá, os indivíduos — um deles com uma camiseta de Bolsonaro — chamaram-na de "riquinha de esquerda", agrediram-na e ameaçaram estuprá-la, conta ela. Quando um carro passou buzinando, os criminosos fugiram do local e a jornalista foi às autoridades. O caso foi relatado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que registrou 137 episódios de agressão de profissionais da comunicação ao longo de 2018 "em contexto político, partidário e eleitoral". A entidade contabiliza "75 ataques por meios digitais (com 64 profissionais afetados) e outros 62 casos físicos (com 60 atingidos)". "A maior parte das ocorrências físicas", diz a Abraji, "está relacionada à cobertura de manifestações ou eventos de grande repercussão ligados a eleições".

Nos últimos dias, a jornalista Míriam Leitão, que trabalha em O Globo e na TV Globo, vem sofrendo uma série de ataques virtuais após opinar, no programa Bom Dia Brasil, que o PT e Bolsonaro não são equiparáveis: enquanto o primeiro sempre jogou de acordo com as regras democráticas, o segundo teve uma vida pública marcada pela defesa da tortura e da ditadura. Logo depois desse comentário, começou a circular mensagens falsas dizendo que Leitão foi presa em 1968 após roubar, armada com um revólver calibre 38, 80.000 cruzeiros de uma agência do banco Banespa. A imagem que circula com a mensagem é do momento em que foi presa e torturada pela ditadura militar em 1972, quando tinha 19 anos, por pertencer ao PCdoB na época.

Quem também sofreu agressões verbais foi a irmã da vereadora Marielle Franco (PSOL), brutalmente executada no dia 14 de março — ainda não se sabe por quem. Um dia depois das eleições, Anielle Franco andava perto de um shopping carioca com sua filha Mariah, de dois anos, no colo. Não usava nenhum tipo de broche, camiseta ou bandeira. Uma com a roupa da creche, a outra com a roupa do trabalho. Isso não impediu, conta Anielle, que fosse reconhecida por homens vestindo a camiseta de Bolsonaro, que se aproximaram e começaram a chamá-la de "piranha" e a gritar que ela era "da esquerda de merda" ou "sai daí feminista".

"Hoje eu tive medo! Medo mesmo. Não deveria, mas tive. Foi assustador. Ainda mais com minha filha no colo", relatou Anielle em seu perfil no Facebook. "Não estou escrevendo para que ninguém tenha pena. Mas para que repensem sua maneira de fazer política. Por conta de um antipetismo vocês preferem propagar o ódio e a violência?! O seu candidato, em suma, defende esse tipo de postura, e outras coisa bem piores!"

medo tornou-se um sentimento comum entre muitos cidadãos pertencentes à comunidade negraLGBTQ e outras minorias atacadas por Bolsonaro em inúmeras ocasiões —agora, na reta final da campanha, ele negou as ofensas, que estão registradas em vídeos. O presidenciável é réu no Supremo Tribunal Federal por incitação ao estupro por ter dito à deputada Maria do Rosário que não a violaria porque "ela não merece". Bolsonaro enaltece a ditadura militar e já defendeu a tortura. Também já fez declarações racistas e misóginas, assim como já disse: "Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí".

"Um governo de Bolsonaro dá medo porque ele é muito extremista, mas é ainda mais assustador ver que as pessoas que vão se sentir legitimadas a praticar esse discurso de ódio e violência", resumiu Júlia*, lésbica, de 30 anos, depois de votar na Vila Formosa, zona leste de São Paulo, no domingo. Esse sentimento é compartilhado pela candomblecista Janaí Martins do Nascimento, paulistana de 35 anos. "O cara é totalmente contra o Estado laico e mesmo com o Estado sendo laico, já é difícil para gente. O que eu posso esperar dele em relação a minha religião? Nada. Para mim, ele vai destruir tudo", disse ela no domingo. "Eu só vim votar por medo dele", acrescentou.

Sombra do medo

Três dias antes das eleições, viralizou nas redes sociais um vídeo em que um grupo de homens (alguns deles torcedores do Palmeiras) entoavam um cântico homofóbico no metrô de São Paulo: "Ô bicharada, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado". Para Henrique Barum, homem gay de 23 anos, essas atitudes são um exemplo da banalização da violência. "Eu cresci sofrendo bullying, escutando que era um 'veadinho de merda' e agora escuto que um possível presidente vai matar gente como eu. Já estamos vivendo a ditadura do medo", diz o estudante, que se mudou há oito meses de Pelotas (RS) para Portugal, onde faz mestrado em Estudos Culturais.

Barum conta que, no domingo, quando se confirmou que o candidato do PSL iria para o segundo turno com 46% dos votos, seus pais telefonaram, preocupados. "Olhando para mim, qualquer pessoa sabe que sou gay. Trabalho com maquiagem e saio maquiado nas ruas. Eu sei que, durante esse governo, não me sentiria confortável de me expressar como sou". O estudante diz estar dividido entre o "alívio" de estar longe do país e a "angústia". "Penso em amigos e familiares que estão na mesma situação que eu. Por mais que eu queira lutar ao lado deles, meus pais dizem que minha segurança é prioridade. Pedem que fique aqui, que eles virão me visitar".

Gabriela Reis, pernambucana de 25 anos, anda com medo de sair com a namorada em Caruaru, onde vivem. Ela, mulher negra e lésbica, diz que já está acostumada aos "olhares feios" quando sai de turbante na rua, mas sente que agora a situação será pior. "Há muita tensão e vejo mais olhares agressivos para nós. As pessoas se sentem mais seguras para expor seus preconceitos. O que antes era só olhar, agora pode virar agressão, porque o discurso do Bolsonaro naturaliza a violência", conta.

Para o paulistano Lucas*, de 36 anos, esse receio se concretizou no domingo. Ele e o namorado estavam em um engarrafamento na capital paulista, quando outros motoristas começaram a "cortar" seu veículo para ocupar o corredor exclusivo de ônibus. O namorado de Lucas buzinou para reclamar e lhes choveram xingamentos como "veados" e "vão dar o cu". "Respondi a agressão jogando beijos para eles, e então um dos carros, um veículo grande, caro, de cor prata, virou à direita e passou por nós apontando uma arma, também prateada. O motorista era um senhor de uns 50 anos", conta.

Depois que compartilhou o ocorrido com amigos, Lucas escutou mais relatos de agressões homofóbicas ocorridas durante os últimos dias. Um de seus colegas, que estava com uma camiseta rosa no metrô, ouviu de outros passageiros: "aproveita agora, porque daqui a pouco veado não vai mais existir". O maior medo do paulistano é a institucionalização desse preconceito, com leis que revoguem o direito ao matrimônio igualitário ou que dificultem ainda mais o acesso ao trabalho e serviços de saúde para LGBTs. "Tenho medo de que o governo possa nos converter em cidadãos 'ficha-suja', que nos considere quase criminosos", confessa.

Higor S., de 22 anos, é da pequena Serra Talhada, em Pernambuco —a terra de Lampião, estereótipo de "cabra macho"—, mas conta que nunca tinha sofrido homofobia antes das eleições. "Minha tia me acompanhou para votar, justamente porque tinha medo de que eu sofresse agressões, mas voltei para casa sozinho. Passei por uma laje onde um grupo de homens de camiseta verde e amarela fazia um churrasco e escutei risadinhas e gritos de 'bichinha'. Percebi que apontavam para mim e um deles gritou: 'É melhor já ir se acostumando, que isso aí [referindo-se à homossexualidade] vai acabar logo', relembra o estudante, que correu para casa.

Higor já havia sido agredido dias antes por um eleitor de Bolsonaro na sala de aula. "Ele me mandou tomar naquele lugar e seus amigos tiveram que segurá-lo para ele não me bater". Ele conta que ele o namorado, que já saíam pouco juntos, agora acham melhor não se expor mais publicamente. "Todos sabemos que não é o Bolsonaro que vai sair matando a gente, mas seus apoiadores vão se sentir legitimados para fazer isso", lamenta e, depois de alguns segundos em silêncio, acrescenta: "Espero estar errado".



3.10.18

O que pensam os 13 presidenciáveis sobre privatizações e as reformas trabalhista e da previdência

POLÍTICA

O que pensam os 13 presidenciáveis sobre privatizações e as reformas trabalhista e da previdência


30/09/2018 - 20h06

Saiba o que pensam os presidenciáveis sobre privatizações e reformas

Confira o posicionamento das 13 candidaturas com alguns dos temas cruciais à sociedade

 por Rafael Silva – CUT São Paulo

A CUT-SP fez um levantamento para saber o que planejam cada um dos 13 candidatos e candidatas à Presidência da República sobre a reforma da Previdência, privatizações de empresas públicas e a reforma trabalhista.

Esses três pontos estiveram em pauta durante o governo ilegítimo de Michel Temer (MDB) e atingem diretamente a classe trabalhadora.

Sobre a aposentadoria, o presidente golpista ameaçou, recentemente, retomar a discussão no Congresso após o segundo turno eleitoral.

A proposta não havia seguido adiante por conta da grande mobilização realizada pelas centrais sindicais, como a CUT, que promoveram uma das maiores greves da história do país.

A reforma da Previdência também foi considerada desgastante entre os deputados e senadores que disputam a reeleição.

Já a agenda privatista seguiu com prioridades no atual governo, colocando em risco os maiores patrimônios públicos, como a Petrobrás e empresas de energia.

Outro ponto polêmico é a reforma trabalhista que, aprovada há mais de um ano, destruiu direitos dos trabalhadores, fortalecendo os patrões e criminalizando as entidades de classe, está no alvo dos candidatos. Parte deles promete revogação total, enquanto que outros pretendem aprofundar ainda mais o fim dos direitos.

O levantamento a seguir foi feito a partir dos planos de governo registrados na Justiça Eleitoral pelos partidos que disputam a vaga e em declarações dadas na mídia, como entrevistas e sabatinas dos presidenciáveis.

MARIA DIAS/CUT-SP



Alô, companheiros de elite


* Ricardo Frank Semler (São Paulo, 1959) é um empresário brasileiro, presidente do Conselho e sócio majoritário da Semco Partners, sucessora do grupo Semco. Foi vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), é articulista do jornal Folha de S.Paulo e Sócio da Tarpon Investimentos em São Paulo, Brasil. A revista TIME o apontou entre os "100 Jovens Líderes Globais", em uma série de reportagens sobre perfis de executivos publicada em 1994. O Fórum Econômico Mundial também o apontou em trabalhos semelhantes. Também foi citado em publicações do Wall Street Journal America Economia e revista "Wall Street Journal Latin America" como "Empresário do Ano na América Latina", em 1990 e "Empresário do Ano no Brasil", em 1992. Semler escreveu livros que se tornaram sucesso em vendas no Brasil e exterior, destacando-se o primeiro, Virando a Própria Mesa (1988) e Seven-days Weekend (2003).


Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz