Só um desastre e um furacão
Antonio Escosteguy Castro*
Quando esta coluna for ao ar, faltarão quatro dias para as eleições. Segundo turno nacional e aqui no Rio Grande. Nacionalmente, Dilma se encaminha para a reeleição. Passada a euforia da votação de Aécio no primeiro turno e a repercussão do incrível golpe dos vazamentos judiciais seletivos da Petrobras, o PT de forma eficaz desconstituiu a imagem do candidato tucano e acertou o discurso e a campanha para crescer onde podia.
O festival tucano de preconceitos contra os nordestinos permitiu ao PT ampliar ainda mais sua margem na região e herdar a maior parte dos votos de Marina em Pernambuco. Com um discurso centrado nas creches e no Pronatec, investiu nas mulheres da classe C, puxando o voto destas famílias que resistiam ao PT. A crise da água em São Paulo foi também um choque para o PSDB. Os tucanos almejavam 8 milhões de votos de vantagem em São Paulo para compensar o Nordeste (tiveram 4 milhões no 1º turno), mas a falta de água no principal estado governado por eles dificilmente permitirá atingirem este patamar.
Quando serenou a incrivelmente agressiva campanha da semana passada, por uma surpreendente intervenção do TSE, Aécio já sofrera um baque em sua credibilidade pessoal e o acerto da campanha petista fizera Dilma retomar a liderança. Agora, só um desastre tira a vitória de Dilma. Isto não é provável, mas é possível. Há ainda o último debate na Globo, que com diferença tão apertada pode ter um efeito bastante sensível no eleitorado e a grande imprensa, agora claramente ajudada por setores do Judiciário, tentará ainda produzir algum fato que gere efeitos destrutivos à campanha petista. Todo fato, porém, necessita de alguns dias para gerar consequências tais que impactem a eleição e o mais provável, portanto, é que não haja mais tempo hábil para mudar a maré.
Mas aqui no Rio Grande é necessário um furacão, um vento fortíssimo de popa, para levar Tarso Genro a ficar no Piratini. O fantástico crescimento da campanha de Sartori, no fim do primeiro turno, deu-lhe uma vantagem muito expressiva na largada do segundo. Tarso acertou ainda mais sua campanha, consagrando a identidade com Dilma ("quem é Dilma vota Tarso; quem é Tarso vota Dilma") e adotando um tom mais coloquial e humilde na TV, alegando que arrumara a casa no primeiro governo e que precisa de um segundo para consolidar as mudanças. Sartori manteve a postura do gringo bom-moço, mas recheou sua propaganda eleitoral com propostas e mais propostas, embora muitas destas sejam absolutamente vazias de conteúdo. A diferença entre eles, porém, tem se reduzido muito lentamente.
A ofensiva petista de desconstrução de Sartori no RS foi tão forte quanto à ofensiva nacional contra Aécio, mas não obteve os mesmos resultados. O PT mostrou que Sartori não tem propostas concretas e que discursa sobre generalidades programáticas. Explorou seus deslizes na TV, desnudando seu despreparo. Por que não vem funcionando até agora?
Ocorre que boa parte da população gaúcha vota em Sartori exatamente porque ele não se posiciona, porque ele se exime do conflito que está instalado no país nestas eleições. Assim, o efeito de demonstrar que Sartori não teria condições de governar o Estado fica muito mais lento, porque num primeiro momento desnudar sua falta de propostas não afasta seus eleitores. Talvez os 15 dias reais de campanha no segundo turno não sejam suficientes para abater o candidato do PMDB, porque seu eleitorado demora a desiludir-se. Para Tarso, tem que começar a ventar logo…
As eleições do domingo parecem estar encaminhadas, mas certamente não decididas.
*Advogado
http://www.sul21.com.br/jornal/so-um-desastre-e-um-furacao/
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