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pergunta:

"Até quando vamos ter que aguentar a apropriação da ideia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

15.10.08

Brasil entra em lista de países com maior avanço no combate à fome

14 de outubro, 2008 - 09h39 GMT (06h39 Brasília)
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O Brasil foi um dos dez países no mundo que viram mais progressos em um indicador que mede o desempenho no combate à fome, segundo um relatório divulgado nesta terça-feira por organizações não-governamentais.
. Entre 1990 e 2008, o chamado Índice Global da Fome (ou GHI, na sigla em inglês) brasileiro se reduziu quase à metade – 45,6% exatamente –, fazendo o país deixar o grupo de nações com problemas alimentares "graves" para figurar entre aquelas onde esse problema é considerado "baixo". .
Os dados foram divulgados pelo Instituto de Pesquisas sobre Políticas Alimentares (IFPRI, na sigla em inglês) em parceria com as organizações German Agro-Action e Concern Worldwide.
. O GHI de 2008, calculado para mais de 120 países (não para os industrializados), levou em consideração o número de pessoas com deficiência alimentar entre 2002 e 2004, a taxa de mortalidade infantil de 2006 e a desnutrição infantil para o ano mais recente entre 2001 e 2006. .
No mundo, sem contar as imensas diferenças regionais, o índice da fome caiu a uma proporção de 20% entre 1998 e 2008. .
Desnutrição infantil .
Segundo o IFPRI, a melhora no mundo "foi motivada em grande medida pelo progresso na nutrição infantil". .
"A proporção de crianças abaixo do peso foi o indicador que mais declinou – em 5,9 pontos percentuais – enquanto a mortalidade de crianças abaixo de cinco anos e a proporção de desnutridos também tiveram melhora." .
Entretanto, a organização afirmou que o problema da fome no mundo "permanece sério", especialmente em países africanos onde conflitos civis exacerbam a crise alimentar. .
"As médias globais escondem diferenças dramáticas entre regiões e países", disse a instituição. Enquanto o GHI caiu 40% na América Latina e 30% no Sudeste Asiático em 20 anos, a queda foi de apenas 11% na África subsaariana no mesmo período.
. Além disso, o instituto lembrou que a redução nos indicadores ocorreu em um ambiente de queda gradual do preço dos alimentos. "Entre 1974 e 2005, os preços de alimentos declinaram 75%, segundo o Fundo Monetário Internacional", disse o relatório.
. Agora, o combate à fome terá de superar o desafio do aumento do preço dos alimentos, o que por sua dependerá de decisões futuras em relação aos biocombustíveis, mudança climática e investimentos agrícolas. .
Mapa da fome .
Em relação ao Brasil, o IFPRI já havia observado uma redução significativa nos índices de fome a partir da década de 1990. .
Em uma escala de zero a cem (zero sendo o melhor resultado), o país tinha um GHI de 10,43 em 1981, figurando entre os países com "graves" problemas no campo alimentar. .
Durante a "década perdida", como economistas chamam os turbulentos anos 1980, o índice se reduziu, mas ainda chegava a 8,33 em 1990. .
Caiu para 5,43 em 2003 e 4,60 em 2004, ano a partir do qual o Brasil passou a ser classificado como país com problemas alimentares "baixos". .
A redução coloca o Brasil como o nono melhor desempenho entre os dez países que viram seu índice cair nas duas últimas décadas.
. A lista é liderada pelo Kuwait (-72,4%), que viu uma grande redução no GHI em função dos "níveis extraordinários" de fome na década de 1990, quando foi invadido pelo vizinho Iraque. .
O relatório elogiou as políticas do Peru, o segundo da lista, que em 20 anos saiu de um GHI de 19,5 pontos para 5,6 pontos. O México (redução de 50,8% no GHI) figurou no 5º lugar. .
O desempenho brasileiro foi semelhante ao do Vietnã (queda de 47,2% no índice), cujas políticas de redução da pobreza são apontadas como exemplo, e da Tailândia (-45,9%). .
Entretanto, ambos os países do Sudeste Asiático continuam entre as nações com problemas alimentares "graves" – o GHI do Vietnã é de 12,6 pontos e o da Tailândia, 9,9 pontos. .
Os piores índices estão na República Democrática do Congo (GHI de 42,7 pontos, 67% acima do de 1990), Eritréia (GHI de 39 pontos) e Burundi (GHI 38,3 pontos, ou 17,4% acima de 1990).

AMIANTO MATA

Ao contrário do STF, Justiça gaúcha libera amianto crisotila Amianto é banido em SP e liberado no RS Academia Brasileira de Direito - 14 de Outubro de 2008 . Luiza de Carvalho, de São Paulo .
Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) não toma uma decisão definitiva em relação ao uso do amianto no país, as empresas que utilizam a fibra enfrentam realidades díspares em alguns Estados. No Rio Grande do Sul, a lei estadual de 2001 que proíbe o uso da substância foi considerada inconstitucional pela Justiça de primeira instância em um processo movido por empresas - o que faz com que elas não sejam afetadas pela legislação, pelo menos até que o Supremo julgue a questão ou que a decisão seja derrubada. Já em São Paulo, o movimento é oposto. Com base em uma decisão do Supremo - que em junho manteve a vigência de uma lei estadual que também veta o amianto -, a Secretaria da Saúde inicia a fiscalização nas empresas com o objetivo de banir a substância do Estado.
. Diversas leis estaduais que proíbem o uso do amianto estão sendo questionadas no Supremo, que deve julgar em breve uma ação direta de inconstitucionalidade proposta pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) e pela Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANTP) contra a Lei Federal nº 9.005, de 1995, que autoriza o uso controlado do amianto branco, também conhecido como crisotila. A decisão do Supremo em relação à Lei paulista nº 12.684, de 2007, foi o primeiro posicionamento da corte a respeito do tema. Mas a redação da lei, que proíbe o uso do amianto, deu margem a várias interpretações - algumas empresas, por exemplo, se manifestaram no sentido de que a proibição não se estenderia à produção e venda da fibra, mas apenas ao seu uso. .
Diante dos diferentes entendimentos, antes de dar início à fiscalização, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo encomendou um parecer jurídico que reitera a interpretação dada anteriormente pela Casa Civil do Estado de que a lei paulista proíbe não só o uso do amianto, mas também a produção e a comercialização do mineral em todo o Estado. A fiscalização começa nesta semana e será feita em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego, que forneceu uma lista de 40 empresas que podem estar utilizando o amianto. De acordo com Simone Alves dos Santos, diretora de serviços do Centro de Vigilância Sanitária da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, as empresas terão 60 dias para se adaptar e substituir o amianto por uma fibra alternativa. "É uma vitória importante pois trata-se de uma fibra cancerígena", diz. .
Já no Rio Grande do Sul, as empresas do setor ainda não precisam fazer essa adequação. Embora o Supremo ainda não tenha julgado uma Adin contra a Lei estadual nº 11.643, de 2001, que limitou em três anos o prazo para que as empresas deixassem de usar produtos à base de amianto no Estado, o empresariado obteve uma vitória na 4ª Vara de Fazenda Pública de Porto Alegre. Em uma ação judicial movida pela Federação das Associações dos Comerciantes de Materiais para Construção do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomac) e o sindicato da categoria, foi declarada a inconstitucionalidade da lei. A Justiça entendeu que a lei se sobrepõe à lei nacional, que autoriza o uso controlado do amianto. De acordo com o advogado Antônio José Telles de Vasconcellos, do Ferraz dos Passos Advocacia e Consultoria, que defende as empresas, desde o ano passado cerca de 150 delas foram notificadas pelo Ministério Público do Trabalho para se absterem de usar o amianto. Segundo o advogado, elas obtiveram uma liminar na primeira instância que anulou os termos de ajustamento de conduta (TACs) firmados com o Ministério Público do Trabalho. A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) informa que obteve dispensa de contestação - e portanto não vai recorrer da sentença. .
http://www.jusbrasil.com.br/noticias/121976/amianto-e-banido-em-sp-e-liberado-no-rs ........................................................................................................................................... .
Ao contrário do STF, Justiça gaúcha libera amianto crisotila . Consultor Jurídico - 14 de Outubro de 2008
. Ao contrário do STF, Justiça gaúcha libera amianto .
A 4ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre (RS) liberou a venda de produtos a base de amianto crisotila, como telhas e caixas d?água. O juiz Giovanni Conti julgou procedente a ação movida pela Federação das Associações dos Comerciantes de Materiais para Construção do Estado do Rio Grande do Sul e ao Sindicato do Comércio Varejista de Materiais para Construção do Rio Grande do Sul.
. No Supremo Tribunal Federal, por sete votos a três, os ministros derrubaram liminar e, com isso, voltou a valer a lei que proíbe o uso do amianto crisotila no estado de São Paulo. Para eles, a norma atende ao princípio da proteção à saúde. A Lei 12.684/07 foi promulgada pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e entrou em vigor em 2008. Em janeiro, o ministro Marco Aurélio (relator) concedera liminar que suspendia a aplicação da lei e liberava o uso do mineral. A Ação Direta de Inconstitucionalidade foi movida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria. .
No Rio Grande do Sul, as entidades questionam a constitucionalidade da Lei estadual 11.643/2001, que em seu artigo 2º limitou em três anos o prazo para que as empresas deixem de usar produtos à base de amianto no estado. Representados pelo advogado Antônio José Telles de Vasconcellos, do escritório Ferraz dos Passos Advocacia e Consultoria, os empresários alegam que a lei estadual extrapolou os limites correspondentes à legislação suplementar, uma vez que a Lei Federal 9.055/95 regulamenta a extração, beneficiamento e uso do amianto crisotila em todo o país. .
Além de reconhecer o direito dos empresários de produzirem e comercializarem produtos com amianto, o juiz Giovanni Conti condenou o estado do Rio Grande do Sul ao pagamento das custas e dos honorários advocatícios. .
De acordo com o advogado Antônio José Telles de Vasconcellos, a sentença do juiz Giovanni Conti é uma confirmação "cabal de que o estado não pode legislar em contraposição ao que estabelece a lei federal". Ele observa que o juiz reconheceu a inconstitucionalidade formal da lei gaúcha. Marina Júlia de Aquino, presidente do Instituto Brasileiro do Criostila (IBC), comemorou a decisão. Segundo ela, o setor trabalha com práticas seguras de trabalho, o que não justifica a pretensão de acabar com o uso do amianto na construção civil do país. .
Para a presidente do IBC, há uma campanha pela proibição do amianto crisotila "movida por interesses comerciais dos fabricantes de fibras sintéticas". Processo: 001/1.07.0088561-0 .
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Brasil - Amianto mata. Por um mundo sem amianto .
(*) Luiz Salvador . Entidades presentes em SP na Conferência Internacional defendem fim do amianto já, no Brasil. Foto dos representantes das entidades presentes no painel, ASPECTOS JURÍDICOS-LEGAIS da Conferência Internacional sobre Mesotelioma em SP
. Realizou-se com sucesso e com participação marcante de diversas entidades o painel sobre amianto e o Mesotelioma: Aspectos Jurídicos-Legais (Estado-da-Arte no Brasil). .
O painel realizado em 10.06.2008, que se iniciou às 08:30, encerrando-se às 12:30, foi coordenado pelo Dr. Mauro de Azevedo Menezes - Advogado da ABREA, ANPT e que também é Diretor de Gestão Jurídica do escritório jurídico, Alino & Robero e Advogados. .
O painel contou com a presença de representantes de diversas entidades que apóiam o fim do uso do amianto no Brasil: .
ANPT/ ANAMATRA/ OAB/ ABRAT/ AATSP/JUTRA/ ALAL/ IBAP/APRODAB/ DEFENSORIA PÚBLICA GERAL DA UNIÃO. .
Diversos representantes de entidades internacionais também se fizeram presentes à Conferência, dentre os quais, a Dra. DIANNA LYONS - KAZAN, MCCLAIN, ABRAMS, LYONS, GREENVOOD & HARLEY/ ESTADOS UNIDOS, MR. KAZUNORI UEKUSA - SECRETÁRIO DO MESOTHELIOMA PNEUMOCONIOSIS ASBESTOS CENTER/JAPAO, dentre outros. .
O advogado trabalhista, Luiz Salvador, Presidente da ABRAT - Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas, presente ao painel da Conferência Internacional de Mesotelioma, "POR UM MUNDO SEM AMIANTO", também representou no evento a Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Federal e a ALAL - Associação Latino-Americana de Advogados Laboralistas. Luís Carlos Moro, presente, representou a JUTRA - Associação Luso-Brasileira de Juristas do Trabalho. A Advogada paulista, Dra. Fabíola Marques também presente ao painel representou a AAT-SP - Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo. .
Em suas manifestações, todos os presentes defenderam um mundo sem amianto, a fibra assassina que mata sem piedade. .
Os efeitos da exposição ao amianto são variados: asbestose, uma fibrose pulmonar progressiva; placas pleurais; câncer de pulmão; e mesoteliomas de pleura e peritônio. .
Os estudos especializados sobre o pó cancerígeno divulgado na Revista da Associação Médica Brasileira vol.47 no.3 São Paulo July/Sept. 2001, em artigo intitulado, AMIANTO NO BRASIL: CONFLITOS CIENTÍFICOS E ECONÔMICOS, aponta os riscos à saúde humana da exposição ao amianto em quaisquer uma de suas modalidades, incluindo o crisotila: .
"O risco aumenta linearmente com a exposição cumulativa e com o tempo desde a primeira exposição. O mesotelioma de pleura é uma neoplasia maligna especificamente relacionada com a exposição ao asbesto, cujo risco é dependente do tempo de latência e do tipo de fibra, sendo três vezes maior nos expostos aos anfibólios quando comparado aos expostos à crisotila. Exposições ambientais não-ocupacionais ao amianto também têm sido associadas ao risco de mesotelioma. O câncer de laringe e alguns tumores gastrointestinais também foram relacionados ao amianto em alguns estudos" (www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302001000300040).
. As entidades presentes ao painel fizeram uma homenagem ao Dr. Aldo Vicentin, diretor jurídico da ABREA que não pode estar presente ao evento em razão de se encontrar internado no INCOR, onde lhe foi retirado o pulmão esquerdo, após ter sido diagnosticado o seu comprometimento pelo MESOTELIOMA, conhecido como o câncer dos mais agressivos. .
Aldo Vicentim, advogado e diretor jurídico da Abrea, teve diagnosticada a doença terrível (Mesotelioma) como decorrência de haver trabalhado há muitos anos atrás em uma empresa exploradora do amianto, sendo que depois de dela se afastar, formou-se em direito e passou a atuar na defesa de trabalhadores doentes e lesionados e em especial os com seqüelas provocadas pelo agente da morte. .
Em seu lugar, recebeu a homenagem, sua representante presente, sua filha Roberta Vicentim, também advogada de trabalhadores. .
Dentre as diversas manifestações dos representantes das entidades presentes e acima já nominadas, houve um louvor público em homenagem ao SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL por sua decisão histórica em dando primazia a uma legislação estadual x uma Federal, declarou constitucional a Lei 12.684, do Dep. Estadual Marcos Martins que proíbe em todo o Estado de SP o uso do amianto em quaisquer de suas formas. Entendeu-se que a Lei Paulista atende melhor o direito da cidadania à vida saudável e sem riscos tutelada pela Carta Cidadã. .
O uso do amianto, incluindo a modalidade crisotila (amianto branco) por ser igualmente prejudicial à saúde humana foi por todos entendido como dever do Estado cuidar do seu banimento imediato, salvando vidas de seus cidadãos, não só dos que trabalham diretamente expostos à fibra maldita, mas também os que se expõem indiretamente, pela quantidade de resíduos que são jogados na natureza, sendo que muitos de nós estamos tomando "suco de amianto" em nossas casas, pelo uso ainda na maioria das casas e construções das caixas d’água, feitas de fibro-cimento, que se deterioram com o decorrer do tempo e agravado o seu deterioramento pelas necessidades de limpezas anuais, com o uso de escovas de aço e produtos químicos (Q’Boa). .
Nossa Constituição protege o meio ambiente, quer o laboral, quer o ambiente da natureza como condição de mantença da vida saudável e com dignidade e em especial nos artigos 196 e 225, enunciando que a saúde é direito de todos e dever do Estado, dispondo expressamente o art. 225: "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações". .
Os países de Primeiro Mundo já baniram por lá o amianto e o Brasil, ainda dando prevalência invertida aos interesses econômicos, ainda capenga na decisão política de dar prevalência à vida saudável e equilibrada de seus cidadãos, carecendo de decisão urgente e inadiável pelo banimento já do pó cangerígeno que mutila e viola o direito à vida de seus trabalhadores e dos demais que ficam expostos à fibra assassina pelos dejetos que são jogados na natureza e pela deterioração natural dos produtos que são confeccionados com amianto, incluindo as telhas e caixas d’água, de fibro-amianto. .
Já existente no mercado substituto para o amianto. A fibra assassina deve ser imediatamente substituída como já concluiu o STF em seu recente julgamento, levando em consideração não só as leis internas vigentes no País de proteção à vida e ao meio ambiente, mas também devendo o artigo 10 da Convenção nº 162 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), recomendando que todos os países participantes do acordo se comprometam a banir a crisotila caso não haja condições de segurança para o uso da substância e caso seja desenvolvida uma alternativa a ela. . http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=33430

13.10.08

Resistencia Indígena: 516 de lucha por su dignidad

Este domingo 12 de octubre, se cumplen 516 años del arribo de Cristóbal Colón a tierras americanas, pero detrás de aquella histórica navegación, quedó perpetrada la actitud heroica y la resistencia de los primeros habitantes de los pueblos de América. TeleSUR _ 12/10/2008
En 1492, los conquistadores europeos llegaron a América, para comenzar lo que sería el genocidio más grande de los pueblos originarios, de sus culturas y tradiciones, cobrando la vida de millones de indígenas en las tierras del "nuevo continente". "Los indígenas no tienen alma y por lo tanto son animales", era la frase que pronunciaban los europeos en el siglo XVI, para justificar los asesinatos y torturas de los primeros habitantes. Con estos argumentos llegaron los misioneros de una Iglesia que pretendían imponerles la hipótesis de un Dios ajeno. Entre 70 y 80 millones de indígenas pertenecientes a las civilizaciones Azteca, Maya, Inca, Aymará, Tupí-guaraní, Araucana, Chibcha, Timote, Aruak y Karib fueron exterminados a causa de la conquista y colonización española, portuguesa, francesa, inglesa, holandesa, y danesa. Al menos a 45 millones de africanos, quienes fueron secuestrados previamente en sus lugares de origen, los utilizaron como mano de obra esclava en la tierras de América. A esta elevada cifra hay que sumarle los 140 millones de africanos que perecieron durante sus capturas y que fueron asesinados o arrojados vivos a las aguas del Atlántico durante las travesías entre el África occidental y el continente conquistado. Toda forma de resistencia ofrecida por los colonizados y sus intentos emancipadores arrojaron cifras significativas para la historia. La primera independencia Haití, por ejemplo, fue el primer país del continente en conseguir su independencia; la logró en 1804, pero ser la primera República negra del mundo le costó encajar la muerte de más de 150 mil personas. El suplicio que vivió en las cárceles francesas el líder independentista y antiesclavista haitiano, Toussaint Louverture (1743-1803), el asesinato de su sucesor en la lucha, Jean Jacques Dessalines (1578-1806), así como el cruento bloqueo económico, político y militar que fue impuesto contra toda la población, fueron intentos desesperados de los franceses para restablecer la esclavitud en el territorio haitiano liberado. Actualmente Haití es uno de los países más pobres del continente americano, ya que se ahoga no sólo en las aguas de los huracanes que la azotan constantemente, sino también en las turbulentas aguas de la miseria. Masacres en Latinoamérica "Los pueblos indígenas del mundo, y particularmente los de América, han dado y seguirán dando sus aportes irremplazables en la configuración de una rica sociodiversidad, por lo que deben ser reconocidos plenamente como patrimonio de la humanidad para restablecer un nuevo equilibrio del universo." Apesar de conocerse todas los detalles de matanzas contra los indígenas, denunciadas y comprobadas por la ONU y por las comisiones de La Verdad creadas en esos países, se siguen cometiendo y atentado contra la vida de éstos pueblos. Actualmente en Colombia, los autores intelectuales de dichos actos y materiales permanecen libres, inmunes a la acción de la Justicia. Sobre la masacre la cometida en El Mozote, la única mujer sobreviviente cuenta cómo los soldados, tras arrancar de brazos de sus madres a sus hijos, los estrangularon y lanzaron a un gran foso abierto que la tropa obligó a cavar a sus padres. Para luego quemarlos junto con ellos y sus madres, mientras otros eran lanzados a un río después de abrir sus vientres con sus bayonetas, dejando como saldo sólo ese día, de cerca de mil muertos. Las mismas escenas de horror tuvieron lugar en Guatemala, país en el que perecieron mas de 230 mil personas durante la guerra civil que asoló al país entre las décadas de los años 60 y 90 del pasado siglo. En México, las masacres cometidas en la década de los 90 por el ejército, la policía en Aguas Blancas, Acteal y otros poblados indígenas del sur del país, figuran entre los más horrendos crímenes de lesa humanidad. El 22 de diciembre de 1997 en esta localidad, mataron a 47 indígenas tzotziles, entre 20 mujeres embarazadas, y 16 niños, niñas y adolescentes mientras rezaban en el interior de la iglesia del pueblo. En Nicaragua, los niños del barrio indígena de Masaya, escribieron una historia de heroísmo y martirio inolvidable, heredada de sus antepasados, como lo fueron aquellos 18 caciques devorados por perros hambrientos en la plaza de León Viejo. Legislación en Venezuela Los pueblos indígenas del mundo, y particularmente los de América, han dado y seguirán dando sus aportes irremplazables en la configuración de una rica sociodiversidad, por lo que deben ser reconocidos plenamente como patrimonio de la humanidad para restablecer un nuevo equilibrio del universo. Este es uno de los considerandos que incluye el decreto 2.028, emitido el 10 de octubre de 2002 en Venezuela, instrumento que deroga la celebración del 12 de octubre como Día de la Raza y se promulga que en esa fecha se conmemorará el Día de la Resistencia Indígena. En el contenido del decreto se consideran aspectos fundamentales, como la declaración de este día de fiesta nacional desde el año 1921 y el desacuerdo en la utilización del término "raza" para la denominación de la diversidad presente en el encuentro de españoles y de americanos. De igual manera, se enfatiza en el texto la necesidad de dejar atrás los prejuicios coloniales y eurocéntricos y el reconocimiento de la presencia y de los derechos indígenas por parte de diversas organizaciones mundiales. En su articulado, el decreto exhortar a la Academia Venezolana de la Lengua para que realice un estudio pormenorizado sobre el Diccionario de la Real Academia Española, a fin de proponer a esa institución la revisión de aquellas palabras que pudieran ser atentatorias contra la dignidad de los pueblos. También promover ante la Organización de las Naciones Unidas para la Educación, la Ciencia y la Cultura (Unesco, en inglés) la actualización tanto de la geografía e historia de América, como la universal, en las enciclopedias americanas y universales, con el propósito de incorporar los aportes de los pueblos indígenas, afroamericanos y criollos. Solicitar a esta organización igualmente, una revisión actualizada de un verdadero calendario universal de naturaleza intercultural, con el concurso de todas las civilizaciones y sociedades sin detrimento de los calendarios correspondientes a cada pueblo, hemisferio, región o subregión del mundo. Todas estas características fueron tomadas en cuenta para declarar en Venezuela, con suficiente independencia, el 12 de octubre como Día de la Resistencia Indígena, así como su incorporación al calendario escolar oficial. Es así como desde esta fecha los venezolanos conmemoramos el Día de la Resistencia Indígena, en lugar del llamado Día de la Raza. Solidaridad con Bolivia Los pueblos indígenas se encuentran en solidaridad activa con Bolivia para defender su derecho a decidir su propio destino y derrotar el golpismo norteamericano y las oligarquías locales. Luego de la llamada Masacre de Pando, en la que perecieron decenas de indígenas acribillados a balazos mientras otras decenas permanecen desaparecidos en la selva, el mundo tiene puestos sus ojos en ese remoto paraje del norte boliviano. En ese contexto, éstos pueblos realizarán del 23 de octubre en Santa Cruz, el Encuentro Internacional de Solidaridad con Bolivia para unir fuerzas y corazones y testimoniar al mundo que "Bolivia no lucha sola". Asimismo, como cada año, este domingo 12 de octubre, realizarán la movilización continental, para consolidar la unidad, demandar el respeto a sus derechos y demostrar que hay propuestas para superar la crisis de la globalización económica neoliberal. Respaldo a los Mapuche Con un fuerte rechazo a la represión que viven las comunidades Mapuches que luchan por recuperar sus tierras, organizaciones indígenas urbanas, convocaron a una marcha para este 12 de octubre, cuando se conmemora un año más de resistencia. La movilización "Hacia la marcha junto al pueblo Nación Mapuche", lleva como principal bandera de lucha, el término de la militarización de la zona de la Araucanía. Además los indígenas se harán parte de la solidaridad con la lucha del pueblo boliviano, por la defensa de la democracia. La marcha se realizará este domingo 12 de octubre en Plaza Italia en la capital chilena, desde donde se dirigirá hasta la plaza Miraflores. 500 años de sufrimiento Cinco siglos de historia latinoamericana y caribeña presenta muchos ejemplos más, el sufrimiento de 500 años provocado por "los conquistadores de América". Aunque los tiempos han pasado, el trato que recibe América Latina no tiene tanta diferencia, el viejo continente y Estados Unidos siguen arrancando todo lo que pueden. Asimismo, buscan nuevas formas de dominación e ilegítima "autodefensa", quieren disfrutar la parte positiva de sus robos, pero no asumir las consecuencias negativas que estos generan. Este mismo año, por ejemplo la Unión Europea ha aprobado la llamada "Directiva del Retorno", una medida poco solidaria, a la que el presidente de Bolivia, Evo Morales llamó Directiva de la Vergüenza, y que reduce los escasos derechos de los inmigrantes. No obstante, detrás de aquella repetida historia de navegación, nunca nadie vio que no existía tal descubrimiento sino un encuentro; ahora 516 años después, los pueblos se levantan para conmemorar la lucha y resistencia de los primeros habitantes de América. El 12 de octubre ha dejado de ser el "Día de la Raza" y se ha convertido en una jornada de lucha y reivindicación de los pueblos indígenas. En todos los rincones del continente, se están revindicando sus derechos territoriales y agrarios, defiendo sus recursos naturales, tierras, identidades culturales, lenguas y su autodeterminación. En Bolivia, Venezuela, Chile, Ecuador, Brasil, Centroamérica y México, están levantando la voz para tomar en sus manos la historia y las decisiones que les afectan. Nathaly Hernández

Por que o Rio Grande do Sul é assim

Revolução, não, guerra civil Farroupilha
. Hoje, dia 20 de setembro, é a data convencionada que marca o início da chamada “revolução” Farroupilha (a rigor, apenas uma guerra civil regional malograda), no distante ano de 1835.
. Para quem não conhece o Rio Grande e Porto Alegre, essas informações soam mais distantes ainda. Mas aqui neste blog, nos próximos dez dias, vamos tentar decifrar esses códigos da cultura gaucheira, esses constructos culturais cuidadosamente recortados da história factual e montados num painel mítico que representa a apropriação do imaginário popular dos indivíduos nascidos no Estado mais meridional do Brasil e , não por acaso, o que apresenta idiossincrasias especiais e um etos social muito particular, rico, variado, objeto da contribuição de inúmeras etnias – autóctones e transplantadas. .
Mirabeau, um dos teóricos da revolução Francesa de 1789, dizia que não bastava mostrar a verdade, é necessário fazer com que o povo a ame, é necessário – dizia o “Orador do Povo” – apoderar-se da imaginação do povo. Não foi de graça, então, que a seção de propaganda do Ministério do Interior, em 1792, em plena ebulição revolucionária, se denominava Escritório do Espírito.
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Pois, essa apropriação da imaginação popular foi – parcialmente – exitosa por parte dos maragatos (ideologia do latifúndio) sul-rio-grandenses, especialmente a partir da segunda metade do século 20. Alguém pode perguntar o motivo de ter passado tanto tempo, de 1835-45 até meados do século passado, por que? Por que o mito levou tanto tempo para “apoderar-se da imaginação do povo”?
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E outras questões: por que no RS se festeja, se comemora uma derrota, sim, porque os farroupilhas de 1835 foram derrotados durante dez longos anos pelas tropas do Império do Brasil, por quê?
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Outra: por que o RS comemora o 20 de setembro e não comemora o 14 de julho? Sabendo-se que foi no 14 de julho de 1891 que a Assembléia Constituinte sul-rio-grandense deu posse a Júlio Prates de Castilhos como primeiro Presidente (hoje é governador) eleito no RS, e pode-se dizer que este é o marco da única revolução burguesa clássica havida no País.
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Nenhum Estado federado e nem o próprio Brasil teve uma revolução modernizante como o Rio Grande do Sul, através dos positivistas chimangos de Castilhos, e depois através de Borges de Medeiros, pelo menos até 1930, quando se encerra o ciclo modernizante inaugural da transição para o capitalismo nesta região meridional. .
Por que a burguesia gaúcha, a direita guasca, comemora uma derrota – a farroupilha – em vez de comemorar uma vitória – a da revolução cruenta de 1893? Intrigante, não? .
E uma última questão, pelo menos por hoje, para iniciar esse tema tão apaixonante e que explica bastante o Rio Grande atual e o Brasil lulista (que quer copiar um pouco o ciclo desenvolvimentista de Vargas, que por sua vez bebia na fonte dos chimangos de Castilhos-Borges), por que aqueles que foram derrotados fragorosamente em 1893, na revolução burguesa gaúcha, hoje, são hegemônicos no plano político-eleitoral do Estado e logram êxito no objetivo original de Mirabeau no sentido de terem se apoderado da imaginação popular através de batalhas de símbolos, batalhas midiáticas, cevadura de ideologias, montagem de mitos, bombachinhas e tradicionalismo galponeiro, por quê? .
O Rio Grande do Sul tem uma história muito expressiva, tão expressiva quanto o “riso” macabro dos degolados de 1893, dos “engravatados” de 1923 (a “gravata” era a língua exposta da vítima, por baixo e através do largo talho horizontal do corte da lâmina branca), e de uma revolução positivista-burguesa que ousou estatizar empresas estrangeiras ainda em 1920, que cobrou impostos de latifúndio em 1895 e que escolarizou todo o Estado, ainda no início do século 20. .
A guerra civil de 1893-95 .
O Rio Grande do Sul entrou na fase do conflito armado a partir de fevereiro de 1893. A guerra civil durou exatos 31 meses, até agosto de 1895. Morreram cerca de 12 mil pessoas, numa população estimada de um milhão de sul-rio-grandenses. .
É considerada a mais bárbara das revoluções americanas, não só pelo número de mortos, mas pela brutalidade e extensão do conflito que incluiu a eliminação quase completa dos prisioneiros, que eram degolados (na foto, o célebre degolador Adão Latorre exibe a sua perícia macabra) impiedosamente pelo adversário, de ambos os lados. Existem relatos de que cerca de trezentos prisioneiros de determinada batalha tenham sido degolados após cessados os combates. Não existiam prisioneiros de guerra, neste sentido. .
A guerra civil de 1893 resultou do conflito de dois setores bem identificados da elite político-econômica sulina. .
De um lado, os federalistas (ou maragatos, ou quero-queros, ou gasparistas), de outro, os republicanos (ou chimangos, ou pica-paus, ou castilhistas). .
De um lado o retórico, vaidoso e tagarela Gaspar da Silveira Martins, que segundo o insuspeito historiador oficialista Darcy Azambuja, não tinha “maiores preocupações doutrinárias” e o máximo de pensamento a que alcançou resume-se numa frase tola: “idéias não são metais que se fundem”. .
De outro, Júlio de Castilhos, um convicto positivista comtiano, liderança forte e com objetivos definidos, marcado por planos universalizantes do papel do Estado e sobretudo pela busca da modernização das relações sociais, tudo isso embalado numa personalidade austera e incorruptível, uma espécie de Robespierre pampeano. .
Todos sabem que venceu o grupo castilhista, representado pelo Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Castilhos foi sucedido em 1898 por Borges de Medeiros, da mesma linhagem castilhista-comtiana, que saiu do poder somente em 1928. A revolução de 93 ainda teria recaídas em 1923 e 1924, sempre com os mesmos antagonistas de classe e os mesmos motivos sócioeconômicos e de poder. .
Que rivalidades tão profundas eram essas? .
É o velho e eterno embate entre o moderno e o arcaico. Curiosamente, um líder saído deste “laboratório” meridional da modernidade brasileira, Getúlio Vargas, um militante do PRR, é que vai promover a partir de 1930 um novo Brasil, mais ajustado às exigências do século 20. .
No Rio Grande do Sul, no final do século 19, se gestou, então, com muita dor e sangue, o que viria a ser o País em grande parte do século 20, pelo menos – segundo alguns estudiosos – até o advento de Collor e Fernando Henrique, que cortam em definitivo as amarras sócioinstitucionais criadas e mantidas pela Era Vargas (1930-1954). .
A vanguarda republicano-castilhista-borgista (chimangos) fez a parte da revolução burguesa no País. Florestan Fernandes diz que “a Revolução Burguesa [brasileira] não constitui um episódio histórico” definido singularmente, marcado e datado. O caso brasileiro, segundo Florestan, foi um longo processo de absorção de “um padrão estrutural e dinâmico de organização da economia, da sociedade e da cultura”. .
Já no Rio Grande, a revolução de 1893 é o ponto – sim – inaugural da revolução burguesa e modernizadora na região mais meridional do Brasil. .
A revolução burguesa no Rio Grande do Sul .
Investigar sobre a existência de uma revolução burguesa no limite meridional do Brasil implica em verificar dois fatores preponderantes: 1) a ação de atores das grandes transformações que estejam por trás da desagregação do regime escravocrata-senhorial; 2) a formação de uma sociedade de classes. .
Como afirma Florestan Fernandes, no Brasil “a Revolução Burguesa não constitui um episódio histórico”, foi um desdobramento longo de pequenas e continuadas “rupturas com o imobilismo da ordem tradicionalista e a gradual chegada da modernização como processo social”. .
Entretanto, como já vimos antes, no Rio Grande do Sul aconteceu o episódio histórico, onde preponderou o “espírito revolucionário” de que falava Joaquim Nabuco. Mas para que fosse possível esse momento histórico, que aqui se desdobrou preferencialmente de 1891 (com a Constituição castilhista) a 1895 (com a paz de Pelotas), houve o processo de uma longa e complexa base psicocultural, política e evidentemente econômica, já que o Estado sulino apresentava singularidades em relação à tradicional produção da monocultura de exportação praticada no resto do País. .
Aqui não tivemos um sistema abortado ou interrompido de plantation, como sugerem equivocadamente os estudos do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Tivemos sim uma pluralidade de agentes econômicos (a pecuária exportadora, a charqueada, a pequena agricultura e a artesania das colônias de imigrantes não-ibéricos), ao contrário de São Paulo que foi vítima da monocultura extensiva de exportação, inibidora da divisão social do trabalho e do mercantilismo interno – bases necessárias de uma formação social dinâmica, burguesa, moderna e racional (Weber). .
A guerra civil começa em 2 de fevereiro de 1893, quando o uruguaio Gumercindo Saraiva invade o Rio Grande com 400 rebeldes armados, em sinal de protesto pela reeleição de Julio de Castilhos à presidência do Estado, tendo sua posse ocorrido uma semana antes, em 25 de janeiro. Saraiva, um blanco uruguaio, representava mais do que os fazendeiros maragatos, representava sociologicamente uma reação armada do macro sistema baseado no latifúndio e na pecuária de exportação. Dava-se início ao embate sangrento entre o Rio Grande atávico e conservador e o Rio Grande modernizante e planificador. A guerra civil, também (mal) denominada de revolução Federalista, foi iniciativa cruenta, então, das forças oligárquicas reacionárias à Constituição estadual castilhista de 14 de julho de 1891. Os chimangos apenas reagiram fortemente à revolta armada maragata, e venceram. .
A Constituição castilhista de 1891 foi um marco político da hegemonia republicano-chimanga no Estado. Representa uma ordem legal exemplar, que se poderia classificar com um tipo ideal weberiano – segundo os estudos de Luiz Roberto Targa. .
A construção da hegemonia castilhista .
Para entender a vanguarda positivista-castilhista militante do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), mas sobretudo aquilo que Nabuco (antes mesmo de Lênin) sintetizou como o “espírito revolucionário” de uma dada conjuntura ímpar, original e irrepetível, vamos ver o que Florestan Fernandes considera como elementos que não podem faltar no momento do salto revolucionário (e isto vale tanto para o processo burguês, que estamos comentando, quanto para um processo pós-burguês, do qual estamos muito longe, pelo menos com o lulismo de resultados no poder e a autodesconstituição petista). .
“Em primeiro lugar – anota Florestan –, é preciso que existam certas categorias de homens, capazes de atuar socialmente na mesma direção, com dada intensidade, e com relativa persistência. Em segundo, lugar, é preciso que essas categorias de homens disponham de um mínimo de consciência social, de capacidade de ação conjugada e solidária, e de inconformismo em face do status quo, para poderem lidar, coletivamente, com meios e fins como parte de processos de reconstrução social. Estes impõem, desejem-no ou não os agentes humanos, um complicado amálgama entre interesses sociais imediatos (e por isso mais ou menos claros e impositivos), valores sociais latentes (e por isso imperativos, mas fluídos) e interesses remotos (e por isso essenciais, mas relativamente procrastináveis)” – conclui o sociólogo, na obra “A Revolução Burguesa no Brasil”. .
Sem entrar no mérito do ideário positivista-comtiano, que sempre orientou – qual doutrina – Julio de Castilhos e seus companheiros, há que se concordar que a vontade política daquela vanguarda obedecia às exigências de todo o genuíno processo revolucionário que se preze. .
O Rio Grande do Sul vivia a crise do modelo escravagista agro-exportador, crise de mão-de-obra escrava (os cafeicultores paulistas vinham inflacionando o preço unitário da força-escrava pelo menos desde a proibição do tráfico, na segunda metade do século 19), aumento da divisão social do trabalho, assalariamento progressivo, novos agentes econômicos mais dinâmicos advindos das comunidades imigrantes (onde, por determinação de Pedro II, era proibido trabalho escravo), etc. Ora, se de um lado havia uma crise estrutural do sistema dominante, de outro, florescia uma sociedade baseada em novos valores sociais e culturais. .
O PRR sentiu, então, a janela de tempo que se descortinava no horizonte histórico do Estado, percebeu politicamente a contradição insanável entre uma ruptura da homogeneidade da aristocracia agrária simultaneamente ao aparecimento de novos tipos de atores sociais e econômicos. O processo revolucionário, portanto, era irrenunciável, inadiável. .
Se a conjuntura histórica por si só quase conspirava para o desfecho de síntese, havia ainda três grandes tarefas instrumentais a realizar: .
1) fixar um marco jurídico-constitucional para a nova ordem, depois consubstaciado na Constituição autoritária de 1891; .
2) uma imprensa partidária aberta à população, consubstanciado no combativo jornal republicano “A Federação” e inúmeros outros pequenos órgãos regionais de grande influência política; .
3) uma força militar que sustentasse a nova ordem, consubstanciada na Brigada Militar como força pública estatal e a arregimentação de militantes do PRR como corpos provisórios militarizados para intervenção nos conflitos comuns no período, pelo menos até 1924 (os intendentes municipais funcionavam como chefes políticos e militares). .
Adiante veremos cada uma destas estratégias políticas que garantiram a hegemonia da ordem castilhista por quase 40 anos no Rio Grande do Sul. .
Uma Constituição revolucionária e republicana .
Júlio de Castilhos (imagem) e seus companheiros da vanguarda comtista intuiram que o Rio Grande do Sul estava pronto para se modernizar, mas que essa necessidade histórica não se realizaria por si só. .
O “espírito revolucionário” exige ações revolucionárias estratégicas materializadas em instrumentos institucionais-constitucionais decisivos. .
Neste sentido, em primeiro lugar, era preciso um marco jurídico-constitucional para a nova ordem, em segundo, era preciso uma imprensa partidária combativa, e terceiro, uma força militar estatal auxiliada por corpos provisórios politizados e treinados militarmente, a partir de militantes locais do PRR, com capilaridade em todo o território sulino e mesmo no Exterior (o PRR mantinha agentes de análise política e inteligência em Montevideo, Buenos Aires e Rio). .
A Constituição castilhista de 1891 é um marco legal singular. Trata-se de uma peça jurídica que garante um governo autoritário, cerebralmente autoritário, uma vez que não previa a divisão dos três poderes, segundo o modelo liberal clássico, atribuindo ao Presidente (hoje, governador) o direito de legislar e editar decretos que se referenciavam diretamente na Constituição e não em leis ordinárias escritas por uma Assembléia de Representantes. .
A Constituição sul-rio-grandense e a prática político-administrativa do castilhismo por quase 40 anos, garantiram ao Estado funcionar praticamente como uma República autônoma do resto da Federação brasileira. Desta forma, o PRR cumpria agora o ideário Farroupilha de 1836, quando da decretação da malograda República Rio-grandense em Piratini. .
Como assinala muito bem Luiz Roberto Targa, “essa constituição inédita e original não se baseou na dos Estados Unidos da América, como foi o caso das outras constituições brasileiras, tanto a da União, quanto a dos Estados”. .
Os positivistas tiveram uma administração marcadamente anti-oligárquica e anti-patrimonialista, com ações políticas, segundo Targa, que mostravam concretamente uma ruptura com a ordem latifundiária, tais como: transparência das contas públicas, coincidência entre o orçamento previsto e o realizado, política de proteção ao consumo das classe baixas (pelo contigenciamento de bens de primeira necessidade passíveis de serem exportados), pela estatização não-patrimonialista de dois dos mais importantes portos sulinos (Porto Alegre e Rio Grande) e de toda a rede férrea do Estado (de uma empresa francesa, mas explorada por norte-americanos), a realização de obras essenciais em infra-estrutura somente nas zonas minifundiárias e coloniais, tendo-se negado a privilegiar áreas de interesse da pecuária de exportação, bem como políticas de proteção fiscal e tarifária à indústria nascente das regiões de imigração européia. .
Outro marco importante da gestão castilhista do Estado foi a reforma fiscal, cujo ponto central foi a substituição do imposto de exportação (quase sempre sonegado) pelo imposto territorial. Para tanto, era fundamental discriminar a esfera pública da esfera privada. Na prática, tratava-se de impor medidas efetivas de o Governo retomar as terras públicas ilegalmente apropriadas pela oligarquia rural nas últimas décadas do Império. Retomadas as terras, no período compreendido entre 1895-1906, legitimado pela vitória na guerra civil e com força militar suficiente para garantir o cumprimento da lei e da ordem pública, o Governo castilhista entregou lotes rurais a posseiros, a companhias de loteamento e a novos pequenos proprietários. .
Essas medidas cada vez mais afirmavam a consolidação do Estado burguês moderno, qual seja a de tornar autônoma a esfera estatal da esfera privada das oligarquias rurais tradicionais e atrasadas. .
No Rio Grande do Sul isso foi conquistado a ferro, fogo e vontade revolucionária organizada e materializada em instrumentos concretos de mudança social. .
O castilhismo e a chamada “liberdade de imprensa” .
Se um dos medidores da democracia formal é de fato a liberdade de imprensa, então, Porto Alegre tinha mais democracia no final do século 19 do que na presente conjuntura. .
No final do Império acontecia um vivo e candente debate democrático entre os órgãos de imprensa local, divididos entre publicações religiosas e não-religiosas, e estas subdivididas entre republicanos radicais, liberais monarquistas e liberais republicanos. .
Hoje, este debate está morto. Não temos mais pluralidade nos órgãos de comunicação. Atualmente existe uma única linguagem político-ideológica. A pluralidade é apenas numérica e segundo a modalidade da mídia. De resto, temos uma mídia una e indivisível, a mídia do partido único da mercadoria. Que confunde deliberadamente (ideologicamente) cidadão com consumidor. A democracia que apregoa fica reduzida à miséria espiritual de se escolher entre um celular A, B ou C. Os consumidores são laureados “vencedores”, os não-consumidores são indexados como “perdedores”. A velha bandeira liberal-burguesa da cidadania é substituída pelo audór colorido e iluminado do consumidor unidimensional. A proclamada “liberdade de imprensa” é a liberdade embrutecida do consumidor, não do cidadão esclarecido e autônomo. .
O jornal mais exaltado na propaganda republicana no Rio Grande do Sul sem dúvida foi o diário A Federação. Foi fundado praticamente junto com o Partido Republicano Rio-grandense (PRR) no início da década de 1880. Chama a atenção, pois, o relêvo que era dado pelos positivistas à questão de uma imprensa partidária atuante e combativa. Seu redator, Júlio de Castilhos, compreendia essa importância estratégica desde os tempos de estudante, quando já mantinha uma pequena publicação de divulgação e debate político. Antes disso, ainda, os estudantes Castilhos e Assis Brasil, então aliados e íntimos companheiros de ideais republicanos, haviam fundado o “Clube 20 de Setembro” com a intenção de criarem um círculo de estudos dos ideais Farroupilhas. Destes estudos coletivos resultaram dois trabalhos publicados em 1882: História popular do Rio Grande do Sul, de Alcides Lima (já uma preocupação com a categoria popular), e História da República Rio-Grandense, de Assis Brasil. .
Castilhos se dedicou integralmente ao jornal A Federação, fazendo deste diário um instrumento forte de combate à monarquia. Em janeiro de 1885, ano que seria marcado por “sensacionais combates de Imprensa”, segundo um autor, chegam a Porto Alegre, o Conde D`Eu e a princesa Isabel, sua esposa. Castilhos mostra toda a convicção política e a sua “audácia irreverente em face de membros da família imperial, tanto mais grave por deflagrar num ambiente de província, em meio à aura de bajulação que envolvia o passeio propagandístico dos sucessores do trono” de Pedro 2º. .
Júlio de Castilhos escreveu em A Federação: “O 1º Reinado foi a violência. O 2º é a corrupção. Que será o 3º? O 3º não constituirá mais do que uma esperança dos príncipes que atualmente nos visitam, esperança que há de ser infalivelmente malograda”. .
E prossegue nas suas acertadas previsões: .
“A Monarquia há de baquear. O Brasil pertence à América e a América pertence à República. O sr. Conde D`Eu , em vez de fazer tentativas contra a solução republicana, e a bem do 3º Reinado, devia ter presente sempre ao seu espírito estas palavras que o Rei Luís Felipe, seu avô, disse ao Ministro Guizot: ‘Não consolidaremos jamais a monarquia na França, e um dia virá em que meus filhos não terão pão’. .
Que fecunda lição para um príncipe! Medite sobre ela o sr. Conde D`Eu. A experiência ensina!” – advertiu o jovem e corajoso militante republicano. .
Menos de quatro anos depois suas palavras tornaram-se realidade e abria-se um largo caminho de conquistas para o PRR que, a rigor, permaneceria no poder até a década de 30. .
A Federação não seria um diário singular na luta política do PRR, inúmeros outros jornais e publicações republicano-positivistas foram criadas nos quase setenta municípios do Rio Grande do Sul e se constituíram em instrumentos estratégicos de criação e consolidação do poder castilhista-borgista por quase quatro décadas. De outro lado, os opositores do castilhismo, do Partido Federalista, também tinham suas inúmeras publicações de propaganda política, fazendo do Rio Grande do Sul um território de intenso debate e livre manifestação pela cidadania. .
Já se vê que no quesito “liberdade de imprensa” o Rio Grande do Sul hoje está muito mais atrasado que no fim do século 19. Para não falar na qualidade de sua elite dirigente. . A militarização do castilhismo .
Quando se fala em militarização do castilhismo rio-grandense não deve ser confundido como algo ligado à corporação militar brasileira, recém saída da Guerra do Paraguai (1864-1870). O espírito militarista que predominava no PRR resulta da própria situação meridional de fronteiras rebeldes e instáveis, mas também da arguta visão macropolítica de Júlio de Castilhos. É esta que nos interessa. .
No Segundo Reinado, o Exército foi sempre desprestigiado, as oligarquias nunca precisaram de intervenção armada, a não ser pontualmente em algumas regiões definidas, como foi o caso do Rio Grande do Sul no decênio 1835-1845, para assegurarem-se da hegemonia política. Entretanto, com a guerra no Paraguai, o Exército adquire prestígio e como que representa uma certa presença da classe média emergente no panorama institucional do Império. Tanto assim que, um dos fatores que contribuiram decisivamente para a queda da monarquia foi a chamada “questão militar”. .
Othelo Rosa escreveu, talvez com algum exagero, que “a questão militar, no seu sentido político, que é o seu verdadeiro aspecto histórico, quem criou foi Júlio de Castilhos” nas folhas impressas do diário republicano A Federação. .
A verdade é que a “questão militar”, de um simples incidente entre um alto oficial militar que homenageou quem protegia escravos fugidos e um Ministro civil do gabinete monárquico que o destituiu pelo gesto ousado, se transformou num processo político que precipitou não só a Abolição quanto a própria República. Castilhos alimentou a contradição entre militares e o gabinete monarquista, dando espaços diários aos fardados, já prevendo um desfecho favorável às pretensões republicanas provinciais e nacionais. .
Com o advento da República, Castilhos volta-se aos temas regionais e de reconstrução do Estado em novas bases legais e institucionais. Prepara a revolucionária Constituição de 1891 e, ato contínuo, dá novos contornos ao chamado Corpo Policial do Estado do Rio Grande do Sul que, apesar de ter sido instituído em 1837 ainda não se consolidara como força pública de efetiva valia ao poder civil. .
Em 1892, quando Castilhos firma-se no poder, trata de montar um dispositivo militar engenhoso: consolida o que chama de Brigada Militar estatal e forma nos municípios – cerca de setenta, então – milícias paramilitares de 300 a 500 militantes políticos do PRR. Estas unidades civis, administrativamente, chamavam-se Corpo Auxiliar, mas a população chamava-os de “provisórios”. Os intendentes (prefeitos), não raro, eram ao mesmo tempo chefes políticos locais e chefes militares. Havia plena harmonia entre os chefes militares provisórios (civis) e os comandantes militares profissionais da Brigada Militar, que atuavam sob o comando do Presidente do Estado. .
A partir de 1898, o Presidente passou a ser Borges de Medeiros (foto), que havia sido preparado por Castilhos para ocupar a chefia dos republicanos no Estado. Borges, na sua preparação para o exercício do poder, fôra Chefe de Polícia, que significava a rigor controlar o serviço de informações e espionagem mantido pelo governo do PRR nos municípios, bem como os postos avançados de Montevideo, Buenos Aires e Rio de Janeiro. Tinha também a incumbência de controlar movimentos e recolher informações nos Estados de Santa Catarina, Paraná e nas vias fluviais e ferroviárias da região Sul. .
Os governos castilhistas-borgistas estavam sempre aprimorando suas forças militares, tanto estatal, quanto seus corpos provisórios. Tinham permanentemente contratados instrutores de guerra da França e da Alemanha (duas escolas de guerra distintas) e renovavam seus armamentos, a ponto que, quando ocorre a Revolução de 1923, a Brigada, e mesmo os corpos provisórios, portavam armas que haviam sido lançadas na Primeira Guerra Mundial, em 1914. .
O castilhismo, ao contrário dos Farroupilhas, nunca perderam uma só rebelião armada, e foram apeados do poder pelo voto, já que o cenário de classes também se modificará bastante naqueles quase quarenta anos de exercício do poder. .
No Rio Grande do Sul não houve a crise da tabuleta .
Em 1901, Machado de Assis lança o seu último grande romance, Esaú e Jacó. Como bom monarquista que era, aproveita e critica a República nascente. E enfia uma anedota na história dos gêmeos deputados. A chamada “crise da tabuleta”.
. Um sujeito de nome Custódio tinha um comércio de doces no Catete, a “Confeitaria do Império”. Quando vem a República, dia 15 de novembro, o doceiro, que já havia mandado pintar uma tabuleta nova, escreve um bilhete telegráfico às pressas ao pintor ordenando-lhe de forma categórica: “Pare no D”. Mas este não o atendeu e lascou os dizeres completos “Confeitaria do Império”. Desolado, o confeiteiro foi conversar com o Conselheiro Aires. O ardiloso amigo, considerando que de fato nada estava definido na instável conjuntura nacional sugere o nome “Confeitaria do Governo”, mas acaba ficando “Confeitaria do Custódio” – o nome próprio do doceiro, o que evitaria qualquer transtorno político para o promissor comércio de pastéis de Santa Clara da nova Capital republicana. .
Com essa anedota crítica, Machado, repito, monarquista convicto, faz quase uma sociologia do espírito “ética dupla” (Weber) do Rio de Janeiro – e do País – da época, mais tarde muito bem estudado por Sérgio Buarque em Raízes do Brasil. .
Um episódio como esse seria inconcebível no Rio Grande do Sul de então. Se no resto do Brasil, em todas as Províncias, a passagem do Império para a República foi rigorosamente uma simples troca de tabuleta, na Província meridional houve uma modificação radical e definitiva. .
Nenhum quadro monarquista permaneceu no poder, depois de novembro de 1889. Muito menos os liberais, e menos ainda os vacilantes liberais republicanos. Os piolhos da monarquia deram lugar à novíssima geração do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), liderada pelo jovem Júlio Prates de Castilhos. .
Como se dizia na época, era uma “plêiade de jovens idealistas radicalizados” positivistas anti-liberais, anti-monarquistas, favoráveis a um Estado forte e autoritário, desfavoráveis ao Poder Legislativo (que nunca prosperou com o castilhismo), modernizadores burgueses, politizados e, apesar de militarizados, sempre, radicalmente civilistas. Entretanto, o traço fundamental, não só da doutrina positivista, mas sobretudo da administração concreta dos militantes do PRR, foi o marcado caráter anti-oligárquico e anti-patrimonialista dos seus governos de quase quatro décadas. Tal era o programa do PRR, tal foi o governo do PRR. .
A inexistência de Poder Legislativo, só de uma assembléia de representantes que funcionava sessenta dias ao ano como conselho fiscal das contas do Executivo, e o tratamento convergente com as demandas populares fez do castilhismo-borgismo um regime singular no mundo, naquele final de século 19 e início de século 20. .
Nada do regime monárquico ficou de pé naquele Rio Grande autenticamente heróico e vitorioso, muito mais heróico do que a mitificada (e derrotada) guerra civil Farroupilha – do qual a direita hoje tenta se apropriar de forma oportunista e ideologizada. .
A ditadura esclarecida dos positivistas .
A singularidade da política meridional no início da República não se expressava somente nos quadros novíssimos – inclusive na idade – que governavam o aparelho de Estado, mas sobretudo nas ações políticas, administrativas e institucionais que foram capazes de impor num ambiente de permanente conflito entre frações da classe dominante. .
Resumo rápido: cai do poder a oligarquia patrimonial estancieira, ficando assim alijada – muitas vezes até clandestina – por quase quarenta anos, e ascende ao poder uma classe dirigente nova, burguesa, moderna e que rompe radicalmente com o passado. .
Se instituía no Rio Grande do Sul, não a ditadura do proletariado, mas a ditadura positivista anti-liberal, militarizada, organicamente partidarizada que reconhecia e contemplava as novas pluralidades da formação social meridional, tinha um projeto programático rígido de poder e o implementou com racionalidade cerebral, decisão, firmeza e, quando foi necessário, a ferro e fogo. O castilhismo, já vimos aqui neste espaço, nunca perdeu na guerra cruenta, na guerra institucional e na guerra intelectual – esta travada na politizada imprensa abertamente partidarizada da época. .
Para além das peculiaridades que já vimos, a construção normativa da Constituição positivista de 1891, a organicidade do PRR, a imprensa engajada e forte, a militarização dos quadros, e a consolidação de um exército estadual original que foi a Brigada Militar, o castilhismo-borgismo obteve marcos administrativos exitosos de grande significado para a transição regional ao capitalismo, sempre tratando de descolar o Estado dos interesses menores do patrimonialismo e, ao consolidar os seus fundamentos republicanos, dotá-lo de instrumentos institucionais inspirados numa lógica de racionalidade (conforme Max Weber). .
É curioso que a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, hoje, tenha no ambiente vestibular ao plenário um imenso óleo representando a figura de Júlio de Castilhos, o próprio salão é identificado com o nome deste primeiro governador eleito do Estado, o mesmo dirigente que eliminou o Poder Legislativo meridional, reduzindo-o a uma mera assembléia de representantes, cujo único papel era o de examinar as contas públicas anuais e aprová-las. Sua funcionalidade efetiva não durava sessenta dias ao ano. .
Castilhos sabia que através do Legislativo os inimigos do PRR se rearticulariam ou, pior, empatariam de forma continuada as grandes ações administrativas que planejavam para o Estado, por esse motivo previu mecanismos na Constituição de 1891 de uma espécie de consulta comunitária sobre atos e ações administrativas. Para tanto, havia nos municípios comitês mais ou menos funcionais de encaminhamento de sugestões de governo ao poder Executivo, que legislava baseado na Constituição estadual e no programa do PRR. .
Três ações dos positivistas rio-grandenses constituem marcos definidores dos seus governos, no entender de Targa, quais sejam: .
1) a implantação do imposto territorial, com a forte reação dos proprietários rurais, especialmente os estancieiros da pecuária de exportação, entre 1902 e 1913; .
2) a assimilação do governo positivista à greve geral (nacional) de 1917, um dado novo no cenário social-urbano do País; .
3) a estatização da empresa ferroviária estrangeira que explorava pessimamente os transportes regionais. .
Dessas ações derivam medidas e reações surpreendentes na época.

10.10.08

Cultura brasileira na clandestinidade

Foi tão importante e tão bonito, que a imprensa praticamente desconheceu. No dia 7 de outubro foram entregues as Ordens do Mérito Cutlural 2008 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em belíssima cerimônia, que conquistou o direito de ser desconhecida pela imprensa privada.
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Foi a 18° versão do Prêmio, criado em 1995. Desta vez foram premiados 49 pessoas – uma parte delas post-mortem – e instituições. Entre elas, o líder indígena Ailton Krenak, o cantor Altemar Dutra, o cineasta Alselmo Duarte, o artista Athos Bulcão, o dramaturgo Benedito Ruy Barbosa, os bossanovistas Carlos Lyra, Edu Lobo, Sergio Ricardo e o precursor Johnny Alf, as cantoras Elsa Soares, Emilinha e Mercedes Sosa, os artistas Eva Todor, Dulcina de Moraes e Leonardo Villar, os escritores Guimarães Rosa, Milton Hatoum e Tatiana Belinky, o rapero Nelson Triunfo, os músicos Paulo Moura, Hans-Joachim Koellreutter, Roberto Corrêa e Pixinguinha, o grupo de dança Qauasar, o cineasta Ruy Guerra, ao intelectuais Paulo Emilio Salles Gomes, Otávio Afonso, Vicente Salles e Emanoel Araujo, a fotógrafa Claudia Andujar, o crítico de arte, Marcantonio Vilaça, o diretor teatral Orlando Miranda, a artista plástica Teresa Aguiar.
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Foram também premiadas a Associação Ashaminka do Rio Amônia, da Bacia Amazônica; a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT; a Associação Brasileira de Imprensa – ABI; a Associação Comunidade Yuba, de Mirandópolis, São Paulo, que luta pela preservação da cultura dessa comunidade; Bule Bule, musico, escritor, poeta repentista, ator e cantador, do interior da Bahia; Centro Cultura Piolon, entidade cultural da Paraíba; Coletivo Nacional de Cultura do MST, que desenvolve, entre tantas outras atividades, mais de 300 grupos de teatro nos assentamentos nos quatro cantos do Brasil; Efigênia Ramos Rolim, artista plásticas popular do Paraná; Giramundo Teatro de Bonecos; a artista plástica Goiandira do Couto; o Instituto Bacarelli, de formação musical, situado em Heliopolis, São Paulo; João Candido Portinari, diretor do Projeto Portinari; Mestres da Guitarrada, movimento musical paraense; Música no Museu, do Museu Nacional de Belas Artes; e Zabé da Loca, música de 84 anos, tocadora de pífano.
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Como vêem, demasiado brasileiro, demasiada auto-estima para poder receber atenção da imprensa. Nem para ouvir Elsa Soares cantando o Hino Nacional, ou ouvir um solo de Paulo Moura, ou Sergio Ricardo cantando "Te entrega Corisco", com cenas de Deus e o Diabo na Terra do Sol, ouvir a musica de Bule-Bule, escutar a Mercedes Sosa, a Nelson Triunfo e seus raperos e o conjunto de pífanos de Zabé da Loca.
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Talvez a cobertura fosse diferente, se estivéssemos ainda – xô! - no governo FHC. No ano de lançamento da Ordem do Mérito Cultural, o então Ministro de Cultura, Francisco Wefort, inaugurou o prêmio atribuindo-o, entre outros a ACM (sic), a José Sarney, a Manoel Nascimento Brito e a Roberto Marinho. No segundo ano, 1996, Edemar Cid Ferreira, Olavo Setúbal, Sérgio Motta e Walter Moreira Salles. No ano seguinte foram agraciados como grandes beneméritos da cultura no Brasil, entre outros, Jorge Gerdau, José Ermirio de Moraes e José Safra. Em 1998, Lily Marinho (sic), Octávio Frias, Olavo Monteiro de Carvalho, Roseana Sarney e Ruy Mesquita.
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Bastaria premiar aos grandes magnatas da imprensa privada, para que seus órgãos divulgassem, assim como os banqueiros e outros milhardários que costumam freqüentar as colunas sociais. Como ninguém da família Marinho, ou Frias, ou Mesquita, ou Civita, passou a freqüentar a lista dos premiados desde 2003, a cerimônia foi colocada na clandestinidade pela imprensa, na mentira do silêncio que merecem os grandes acontecimentos, políticas e fenômenos sociais, políticos, econômicos e culturais brasileiras. Depois a direita não sabe porque Lula tem 80% de apoio e 8% de rejeição... Parabéns ao MINC, aos premiados e à Cultura Brasileira!
. Postado por Emir Sader - 09/10/2008 às 08:39

"Será necessário um movimento de desconstrução do capitalismo desgovernado, e isto não vai ser resolvido pela razão econômica".

Luiz Gonzaga Belluzzo

O mito do colapso americano

Colunistas 08/10/2008 Copyleft DEBATE ABERTO Apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma 'sucessão' na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os Estados Unidos.
José Luís Fiori
. “Como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessarem, pareceu-me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar”.
N. Maquiavel, O Príncipe, 1513
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Na segunda feira, 6 de outubro de 2008, a crise financeira americana desembarcou na Europa, e repercutiu em todo mundo, de forma violenta. As principais Bolsas de Valor do mundo tiveram quedas expressivas, e governos e Bancos Centrais tiveram que intervir para manter a liquidez e o crédito de seus sistemas bancários. Neste momento, não cabem mais dúvidas: a crise financeira que começou pelo mercado imobiliário de alto risco dos EUA já se transformou numa crise profunda e global, destruiu uma quantidade fabulosa de riqueza, e deverá atingir de forma mais ou menos extensa, desigual e prolongada, a economia real dos EUA, e de todos os países do mundo.
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Muitos bancos e empresas seguirão quebrando, nascerão rapidamente novas regras e instituições, e haverá nos próximos meses, uma gigantesca centralização do capital financeiro, sobretudo nos EUA e na Europa. Os bancos e organismos multinacionais seguem paralisados e impotentes e se aprofunda, por todo lado, a tendência à estatização de empresas, à regulação dos mercados, e ao aumento do protecionismo e do nacionalismo econômico.
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De todos os pontos de vista, acabou a “era Tatcher/Reagan” e foi para o balaio da história o “modelo neoliberal” anglo-americano, junto com as idéias econômicas hegemônicas nos últimos 30 anos. Como contrapartida, mesmo sem fazer proselitismo explícito, deverá ganhar pontos, nos próximos meses e anos, em todas as latitudes, o “modelo chinês” nacional-estatista, centralizante e planejador.
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No meio do tiroteio, é difícil de pensar. Talvez por isto, multiplicam-se, imprensa e na academia, os adjetivos, as exclamações e as profecias apocalípticas, anunciando o fim da supremacia mundial do dólar e do poder global dos EUA, ou, do próprio capitalismo americano. Na mesma hora em que os governos e investidores de todo mundo estão se refugiando no próprio dólar, e nos títulos do Tesouro americano, apesar de sua baixíssima rentabilidade, e apesar de que o epicentro da crise esteja nos EUA. E o que é mais interessante, é que são os governos dos estados que estariam ameaçando a supremacia americana, os primeiros a se refugiarem na moeda e nos títulos americanos. Para explicar este comportamento aparentemente paradoxal, é preciso deixar de lado as teorias econômicas convencionais sobre o “padrão ouro”e o “padrão-dólar”, e também, as teorias políticas convencionais sobre as crises e “sucessões hegemônicas”, dentro do sistema mundial.
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Comecemos pelo paradoxo da “fuga para o dólar”, em resposta à crise do próprio dólar. Aqui é preciso entender algumas características específicas e fundamentais do sistema “dólar-flexível”. Desde a década de 1970, os EUA se transformaram no “mercado financeiro do mundo”, e o seu Banco Central (FED), passou a emitir uma moeda nacional de circulação internacional, sem base metálica, administrada através das taxas de juros do próprio FED, e dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema “dólar-flexível”.
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Por isto “a quase totalidade dos passivos externos americanos é denominada em dólares e praticamente todas as importações de bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente em dólar. Uma situação única que gera enorme assimetria entre o ajuste externo dos EUA e dos demais países [...]. Por isto, também, a remuneração em dólares dos passivos externos financeiros americanos que são todos denominados em dólar, segue de perto a trajetória das taxas de juros determinadas pela própria política monetária americana, configurando um caso único em que um país devedor determina a taxa de juros de sua própria “dívida externa” (1). Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta de forma exclusiva, no poder político e econômico norte-americano.
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Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos que serão comprados, pelos governos e investidores de todo mundo, como justifica o influente economista chinês, Yuan Gangming, ao garantir que “é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes”. (FSP, 24/11).
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Mas além disto, do ponto de vista da hierarquia mundial, se esta crise for administrada de forma estratégica, pelo governo americano, ela poderá reforçar em vez de enfraquecer a posição futura dos EUA, dentro do sistema mundial. Para entender este segundo paradoxo, entretanto, é necessário ir um pouco além da economia e das finanças, e analisar com cuidado a origem e os desdobramentos das crises e da competição entre os estados nacionais.
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Em primeiro lugar, quase todas as grandes crises do sistema mundial foram provocadas até hoje, pela própria potência hegemônica. Em segundo lugar, estas crises são provocadas quase sempre pela expansão vitoriosa (e não pelo declínio) das potências capazes de atropelar as regras e instituições que eles mesmos criaram, num momento anterior, e que depois se transformam num obstáculo no caminho da sua própria expansão. Em terceiro lugar, o sucesso econômico e a expansão do poder da potência líder é um elemento fundamental para o fortalecimento de todos os demais estados e economias que se proponham concorrer ou “substituir” a potência hegemônica. Por isto, finalmente, as crises provocadas pela “exuberância expansiva” da potência líder, afetam, em geral, de forma mais perversa e destrutiva aos “concorrentes” do que ao próprio hegemon, que costuma se recuperar de forma mais rápida e poderosa do que os demais.
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Resumindo: “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma 'sucessão' na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada maior entre a China e os Estados Unidos” (2).
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(1) Serrano, F. (2008) “A economia Americana, o padrão 'dólar-flexível' e a expansão mundial nos anos 2000”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO,Editora Record, Rio de Janeiro, P : 83 (Prelo)
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(2) Fiori, J.L. (2008) “O sistema mundial, no início do século XXI”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO, Editora Record, Rio de janeiro, p: 65 ( NO PRELO).* Artigo publicado originalmente no jornal Valor Econômico (08/10/2008)
. José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O impensável aconteceu

Colunistas 24/09/2008 Copyleft . DEBATE ABERTO . O Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingirem o nível de auto-destruição.
. Boaventura de Sousa Santos
. A palavra não aparece na mídia norte-americana, mas é disso que se trata: nacionalização. Perante as falências ocorridas, anunciadas ou iminentes de importantes bancos de investimento, das duas maiores sociedades hipotecárias do país e da maior seguradora do mundo, o governo dos EUA decidiu assumir o controle direto de uma parte importante do sistema financeiro.
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A medida não é inédita pois o Governo interveio em outros momentos de crise profunda: em 1792 (no mandato do primeiro presidente do país), em 1907 (neste caso, o papel central na resolução da crise coube ao grande banco de então, J.P. Morgan, hoje, Morgan Stanley, também em risco), em 1929 (a grande depressão que durou até à Segunda Guerra Mundial: em 1933, 1000 norteamericanos por dia perdiam as suas casas a favor dos bancos) e 1985 (a crise das sociedades de poupança).
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O que é novo na intervenção em curso é a sua magnitude e o fato de ela ocorrer ao fim de trinta anos de evangelização neoliberal conduzida com mão de ferro a nível global pelos EUA e pelas instituições financeiras por eles controladas, FMI e o Banco Mundial: mercados livres e, porque livres, eficientes; privatizações; desregulamentação; Estado fora da economia porque inerentemente corrupto e ineficiente; eliminação de restrições à acumulação de riqueza e à correspondente produção de miséria social.
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Foi com estas receitas que se “resolveram” as crises financeiras da América Latina e da Ásia e que se impuseram ajustamentos estruturais em dezenas de países. Foi também com elas que milhões de pessoas foram lançadas no desemprego, perderam as suas terras ou os seus direitos laborais, tiveram de emigrar.
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À luz disto, o impensável aconteceu: o Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingirem o nível de auto-destruição; o capital tem sempre o Estado à sua disposição e, consoante os ciclos, ora por via da regulação ora por via da desregulação. Esta não é a crise final do capitalismo e, mesmo se fosse, talvez a esquerda não soubesse o que fazer dela, tão generalizada foi a sua conversão ao evangelho neoliberal.
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Muito continuará como dantes: o espiríto individualista, egoísta e anti-social que anima o capitalismo; o fato de que a fatura das crises é sempre paga por quem nada contribuiu para elas, a esmagadora maioria dos cidadãos, já que é com seu dinheiro que o Estado intervém e muitos perdem o emprego, a casa e a pensão.
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Mas muito mais mudará. Primeiro, o declínio dos EUA como potência mundial atinge um novo patamar. Este país acaba de ser vítima das armas de destruição financeira massiça com que agrediu tantos países nas últimas décadas e a decisão “soberana” de se defender foi afinal induzida pela pressão dos seus credores estrangeiros (sobretudo chineses) que ameaçaram com uma fuga que seria devastadora para o actual american way of life.
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Segundo, o FMI e o Banco Mundial deixaram de ter qualquer autoridade para impor as suas receitas, pois sempre usaram como bitola uma economia que se revela agora fantasma. A hipocrisia dos critérios duplos (uns válidos para os países do Norte global e outros válidos para os países do Sul global) está exposta com uma crueza chocante. Daqui em diante, a primazia do interesse nacional pode ditar, não só proteção e regulação específicas, como também taxas de juro subsidiadas para apoiar indústrias em perigo (como as que o Congresso dos EUA acaba de aprovar para o setor automóvel).
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Não estamos perante uma desglobalização mas estamos certamente perante uma nova globalização pós-neoliberal internamente muito mais diversificada. Emergem novos regionalismos, já hoje presentes na África e na Ásia mas sobretudo importantes na América Latina, como o agora consolidado com a criação da União das Nações Sul-Americanas e do Banco do Sul. Por sua vez, a União Européia, o regionalismo mais avançado, terá que mudar o curso neoliberal da atual Comissão sob pena de ter o mesmo destino dos EUA.
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Terceiro, as políticas de privatização da segurança social ficam desacreditadas: é eticamente monstruoso que seja possível acumular lucros fabulosos com o dinheiro de milhões trabalhadores humildes e abandonar estes à sua sorte quando a especulação dá errado. Quarto, o Estado que regressa como solução é o mesmo Estado que foi moral e institucionalmente destruído pelo neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua profecia se cumprisse: transformar o Estado num antro de corrupção.
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Isto significa que se o Estado não for profundamente reformado e democratizado em breve será, agora sim, um problema sem solução. Quinto, as mudanças na globalização hegemônica vão provocar mudanças na globalização dos movimentos sociais que vão certamente se refletir no Fórum Social Mundial: a nova centralidade das lutas nacionais e regionais; as relações com Estados e partidos progressistas e as lutas pela refundação democrática do Estado; contradições entre classes nacionais e transnacionais e as políticas de alianças.
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Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz