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pergunta:

"Até quando vamos ter que aguentar a apropriação da ideia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

26.3.19

“Festejar a ditadura merece repúdio social e político: ditadores brasileiros cometeram crimes contra a humanidade”

"Utilizar a estrutura pública para defender e celebrar crimes constitucionais e internacionais atenta contra os mais básicos princípios da administração pública, o que pode caracterizar ato de improbidade administrativa", dizem procuradoras e procuradores em nota. 


"Festejar a ditadura merece repúdio social e político: ditadores brasileiros cometeram crimes contra a humanidade"

Deborah Duprat, Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, e Domingos Sávio Dresch da Silveira, Procurador Federal dos Direitos do Cidadão Substituto.(Foto: Joana Berwanger/Sul21)

Da Redação (*)

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão e o Ministério Público Federal condenaram nesta terça-feira (26) a intenção do governo Jair Bolsonaro de "comemorar" o aniversário de 55 anos do golpe de Estado de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart e instalou uma ditadura no país. Em nota, a PFDC  e o MPF afirmam que é "incompatível com o Estado Democrático de Direito festejar um golpe de Estado e um regime que adotou políticas de violações sistemáticas aos direitos humanos e cometeu crimes internacionais".

A nota é assinada por Deborah Duprat, Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, Domingos Sávio Dresch da Silveira, Procurador Federal dos Direitos do Cidadão Substituto, Marlon Weichert, Procurador Federal dos Direitos do Cidadão Adjunto, Eugênia Augusta Gonzaga Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão Adjunta.

Veja abaixo a íntegra da nota:

A Presidência da República recomendou ao Ministério da Defesa que o aniversário de 55 anos do golpe de Estado de 1964 seja comemorado. Embora o verbo comemorar tenha como um significado possível o fato de se trazer à memória a lembrança de um acontecimento, inclusive para criticá-lo, manifestações anteriores do atual presidente da República indicam que o sentido da comemoração pretendida refere-se à ideia de festejar a derrubada do governo de João Goulart em 1º de abril de 1964 e a instauração de uma ditadura militar.

Em se confirmando essa interpretação, o ato se reveste de enorme gravidade constitucional, pois representa a defesa do desrespeito ao Estado Democrático de Direito. É preciso lembrar que, em 1964, vigorava a Constituição de 1946, a qual previa eleições diretas para presidente da República. O mandato do então presidente João Goulart seguia seu curso normal, após a renúncia de Jânio Quadros e a decisão popular, via plebiscito, de não dar seguimento à experiência parlamentarista.

Ainda que sujeito a contestações e imerso em crises, não tão raras na dinâmica política brasileira e em outros Estados Democráticos de Direito, tratava-se de um governo legítimo constitucionalmente.

O golpe de Estado de 1964, sem nenhuma possibilidade de dúvida ou de revisionismo histórico, foi um rompimento violento e antidemocrático da ordem constitucional. Se repetida nos tempos atuais, a conduta das forças militares e civis que promoveram o golpe seria caracterizada como o crime inafiançável e imprescritível de atentado contra a ordem constitucional e o Estado Democrático previsto no artigo 5°, inciso XLIV, da Constituição de 1988. O apoio de um presidente da República ou altas autoridades seria, também, crime de responsabilidade (artigo 85 da Constituição, e Lei n° 1.079, de 1950). As alegadas motivações do golpe – de acirrada disputa narrativa – são absolutamente irrelevantes para justificar o movimento de derrubada inconstitucional de um governo democrático, em qualquer hipótese e contexto.

Não bastasse a derrubada inconstitucional, violenta e antidemocrática de um governo, o golpe de Estado de 1964 deu origem a um regime de restrição a direitos fundamentais e de repressão violenta e sistemática à dissidência política, a movimentos sociais e a diversos segmentos, tais como povos indígenas e camponeses.

Transcorridos 34 anos do fim da ditadura, diversas investigações e pesquisas sobre o período foram realizadas. A mais importante de todas foi a conduzida pela Comissão Nacional da Verdade – CNV, que funcionou no período de 2012 a 2014. A CNV foi instituída por lei e seu relatório representa a versão oficial do Estado brasileiro sobre os acontecimentos. Juridicamente, nenhuma autoridade pública, sem fundamentos sólidos e transparentes, pode investir contra as conclusões da CNV, dado o seu caráter oficial.

A CNV confirmou que o Estado ditatorial brasileiro praticou graves violações aos direitos humanos que se qualificam como crimes contra a humanidade. A igual conclusão chegou a Corte Interamericana de Direitos Humanos, ao julgar o caso Vladimir Herzog, em 2018. Também a Procuradoria Geral da República assim entende, conforme manifestação na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n° 320 e outros procedimentos em trâmite no Supremo Tribunal Federal.

De fato, os órgãos de repressão da ditadura assassinaram ou desapareceram com 434 suspeitos de dissidência política e com mais de 8 mil indígenas. Estima-se que entre 30 e 50 mil pessoas foram presas ilicitamente e torturadas. Esses crimes bárbaros (execução sumária, desaparecimento forçado de pessoas, extermínio de povos indígenas, torturas e violações sexuais) foram perpetrados de modo sistemático e como meio de perseguição social. Não foram excessos ou abusos cometidos por alguns insubordinados, mas sim uma política de governo, decidida nos mais altos escalões militares, inclusive com a participação dos presidentes da República.

A gravidade desses fatos é de clareza solar. Mais uma vez, é importante enfatizar que, se fossem cometidos atualmente, receberiam grave reprimenda judicial, inclusive por parte do Tribunal Penal Internacional, criado pelo Estatuto de Roma em 1998 e ratificado pelo Brasil em 2002. Também à luz do direito penal internacional, os ditadores brasileiros cometeram crimes contra a humanidade.

Essa Corte, porém, não pode julgar as autoridades brasileiras pelos crimes da ditadura, porque sua
competência é para fatos posteriores à sua criação.

Festejar a ditadura é, portanto, festejar um regime inconstitucional e responsável por graves crimes de violação aos direitos humanos. Essa iniciativa soa como apologia à prática de atrocidades massivas e, portanto, merece repúdio social e político, sem prejuízo das repercussões jurídicas.

Aliás, utilizar a estrutura pública para defender e celebrar crimes constitucionais e internacionais atenta contra os mais básicos princípios da administração pública, o que pode caracterizar ato de improbidade administrativa, nos termos do artigo 11 da Lei n° 8.429, de 1992.

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão – PFDC, órgão do Ministério Público Federal, confia que as Forças Armadas e demais autoridades militares e civis seguirão firmes no cumprimento de seu papéis constitucionais e com o compromisso de reforçar o Estado Democrático de Direito no Brasil, o que seria incompatível com a celebração de um golpe de Estado e de um regime marcado por gravíssimas violações aos direitos humanos.

 https://www.sul21.com.br/areazero/2019/03/festejar-a-ditadura-merece-repudio-social-e-politico-ditadores-brasileiros-cometeram-crimes-contra-a-humanidade/

 



21.3.19

dia 22 de março

DIA NACIONAL DE LUTA EM DEFESA DA PREVIDÊNCIA
Vamos à luta para defender nossa aposentadoria!
Na sexta-feira, 22 de março, será o Dia Nacional de Luta em Defesa da Previdência.

PARTICIPE DA PROGRAMAÇÃO EM CAXIAS DO SUL
07h-22h: Atividades em cada categoria
10h-18h: Vigília na Praça Dante e esclarecimentos sobre aposentadoria
17h: ATO PÚBLICO na Praça Dante Alighieri


...

As centrais sindicais acreditam que esta será a primeira grande mobilização deste ano contra o desmonte da Previdência, e apostam que ela será um motor para que os trabalhadores realizem uma greve geral nos próximos meses capaz de barrar a reforma, assim como aconteceu em abril de 2017, quando cerca de 40 milhões de trabalhadores cruzaram os braços e derrotaram a proposta do governo de Michel Temer (MDB), na que foi considerada a maior mobilização da história do país.

LUTA

Centrais sindicais e movimentos chamam ato nesta sexta contra desmonte da Previdência

Protestos em todo país refletem a indignação das organizações contra as mudanças que retiram direitos sociais

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,
21 de Março de 2019 às 09:38

Nesta sexta-feira, dia 22, diversas cidades do Brasil realizam atos e protestos da jornada nacional de Luta em Defesa da Previdência. A resistência é organizada por dez centrais sindicais e as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.

Em janeiro, o governo de Jair Bolsonaro mandou para o Congresso a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 6/2019, que representa o desmonte da Previdência Pública, o fim das aposentadorias e da proteção social para idosos, pensionistas e pessoas com deficiência carentes.

Por outro lado, a proposta de reforma, que o governo chama de 'Nova Previdência', cria um sistema de capitalização individual das contribuições previdenciárias e um fundo bilionário a ser administrados por bancos privados.

"É o seguinte, eles entregam tudo para os bancos, os empregados sozinhos pagam [as contribuições], patrões e governo não pagam mais. Fica tudo nos ombros dos empregados", disse Ubiraci Dantas Oliveira, o Bira, presidente da Central Geral dos Trabalhadores (CGTB).

Além disso, ela libera as empresas de pagarem a multa de 40% sobre o saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e os recolhimentos mensais para os aposentados que trabalham.

A proposta de mudança nas regras da aposentadoria dá tratamento especial e mais brando para militares e não fala nada sobre a taxação das grandes fortunas ou contribuição sobre o lucro das empresas com alto grau de robotização, mecanização e poucos funcionários.

A PEC 06/19 também desconstitucionaliza as regras da aposentadoria, abrindo uma porta para uma precarização ainda maior no futuro.

"Se a PEC for aprovada, qualquer governo vai poder piorar as regras, aumentar o tempo de serviço, aumentar o tempo de contribuição, reduzir o valor do benefício – sem necessitar mudar a Constituição e sem precisar de dois terços de votos no Congresso –, e poderá alterar as regras da aposentadoria por meio de lei complementar", explica Edson Carneiro, o Índio, secretário-geral da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora.

As centrais sindicais acreditam que esta será a primeira grande mobilização deste ano contra o desmonte da Previdência, e apostam que ela será um motor para que os trabalhadores realizem uma greve geral nos próximos meses capaz de barrar a reforma, assim como aconteceu em abril de 2017, quando cerca de 40 milhões de trabalhadores cruzaram os braços e derrotaram a proposta do governo de Michel Temer (MDB), na que foi considerada a maior mobilização da história do país.

Participam dos atos as centrais: CUT, Força Sindical, Intersindical - Central da Classe Trabalhadora, CTB, UGT, Nova Central, CGTB, CSP-Conlutas e Intersindical - Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora e CSB.

Confira alguns dos locais onde terão atos em defesa da Previdência:

Edição: Luiz Felipe Albuquerque

https://www.brasildefato.com.br/2019/03/21/centrais-sindicais-e-movimentos-chamam-ato-contra-desmonte-da-previdencia-nesta-sexta/?fbclid=IwAR0F7YLuIh1t1m9FkH448_y9VcGzotJhAGwZEltiapdc21TPVzN5K9rgFCE





23.2.19

Notas para debater a crise da Venezuela

ARTIGO

Notas para debater a crise da Venezuela, por João Pedro Stedile

Defender soberania na Venezuela é defender autodeterminação dos povos contra o império dos EUA, afirma dirigente do MST

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,
21 de Fevereiro de 2019 às 18:05
Dirigente sem-terra João Pedro Stedile (direita) durante ato realizado em São Paulo no dia 8 de fevereiro em apoio ao governo bolivariano - Créditos: Mauro Ramos
Dirigente sem-terra João Pedro Stedile (direita) durante ato realizado em São Paulo no dia 8 de fevereiro em apoio ao governo bolivariano / Mauro Ramos

João Pedro Stedile, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), escreve alguns apontamentos para ajudar a entender a crise geopolítica na Venezuela e a ofensiva dos Estados Unidos para desestabilizar o projeto bolivariano.

:: O que está acontecendo na Venezuela? ::

1. Há uma crise internacional do modo de produção capitalista que vem se aprofundando desde 2008. A hegemonia do capital financeiro estabelece que apenas as grandes corporações e os bancos acumulem; ao contrário disso, as economias dos países se mantêm à margem e as populações, em especial os trabalhadores, pagam com mais desemprego, aumento da desigualdade, migrações, conflitos sociais e perda de direitos, além da diminuição dos serviços públicos básicos de educação, saúde, moradia, etc.

2. Com a eclosão da crise econômica, os governos construídos em pactos de conciliação de classe e estabilidade política não conseguem mais se sustentar, porque o Estado e suas finanças se transformam em disputa das classes.

3. Há também uma crise da chamada democracia formal burguesa. As eleições e seus governos não conseguem mais representar os interesses reais da maioria da sociedade, porque suas vitórias são fraudulentas, manipuladas e custeadas a base de milhões. Dessa maneira, como reflexo dessa crise, a população não acredita mais nos políticos e no regime de representação formal.

4. Diante desse contexto internacional, o capital dominante, por meio das corporações e bancos, volta-se prioritariamente para a apropriação privada dos recursos da natureza: petróleo, minérios, água, árvores, biodiversidade e energia, como forma de obter altas taxas de lucro e, proveniente dessa renda extraordinária, voltar a acumular e a crescer. No entanto, nem todos os capitalistas: apenas aqueles que se apropriarem dos bens da natureza, que eram comuns, que não foram produzidos pelo trabalho e, ao se transformarem em mercadorias, adquirem um preço com uma renda fantástica.

5. Na disputa internacional por mercados e bens naturais, desenhou-se uma nova correlação de forças entre os Estados Unidos, a Europa Ocidental, a Eurásia (Rússia, Irã, China). Essas economias disputam entre si a apropriação de bens da natureza e os mercados. Isso levou a que os capitalistas dos EUA aumentassem suas pressões sobre a América Latina, para mantê-la como território refém de seus interesses, seu "pátio traseiro", como costumam nos chamar, e, assim, têm acesso a bens e mercados e se contrapõem em melhores condições frente a seus concorrentes internacionais.

6. No mundo da política e da ideologia, as crises fizeram emergir no mundo todo novas forças burguesas de ultradireita. Essas forças reacionárias se constroem ideologicamente com novos inimigos: os migrantes, os direitos dos trabalhadores, os costumes, a cultura, etc.

7. Infelizmente essas forças de ultradireita conquistaram, pelo voto, alguns governos, como o governo Donald Trump nos Estados Unidos; Itália, Hungria e Andaluzia na Europa; e na Índia e nas Filipinas na Ásia. Aqui na América Latina, conquistaram os governos de Argentina, Brasil, Paraguai, Chile, Peru e El Salvador.

8. Para vencer as eleições, as forças de ultradireita não expõem seus projetos e concepções ideológicas, porque sabem que não há apoio da maioria da população, então passam a manipular a opinião pública, com o uso intensivo da internet, da produção de mentiras sistematicamente contra a esquerda e os setores progressistas. Ainda se utilizam das igrejas pentecostais para iludir as populações mais pobres que delas são dependentes.

9. Tudo isso aconteceu também na crise da década de 1930, quando os capitalistas se utilizaram do discurso nacionalista e das ideias fascistas para controlar os governos e saírem da crise. E se utilizaram das guerras mundiais para disputar mercado e eliminar meios de produção com o custo de milhões de vidas humanas.

10. É neste contexto que se pode entender as derrotas de governos progressistas na América Latina, que atuavam em conciliação de classes e, embora não se tratasse de nenhum governo revolucionário, foram desalojados pelas burguesias com quem estavam aliados.

11. Assim, precisamos analisar a ofensiva política, ideológica e agora militar do capital dos Estados Unidos sobre a Venezuela para controlar de forma privada e internacional suas reservas de petróleo. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e as mais próximas do mercado americano. Nenhum outro país ou território do mundo poderia garantir e ampliar o acesso a petróleo para os Estados Unidos.

12. Além do quê, todos os analistas preveem, por tudo isso, que os preços do petróleo devem voltar a margens superiores a cem dólares ao barril nos próximos dois anos, chegando já a 70 dólares o barril no final de 2019. Isso permitirá, para quem controlar as reservas, uma fantástica renda petroleira.

13. O povo da Venezuela está enfrentando essa guerra há vinte anose, agora, aproxima-se uma nova etapa, que pode se transformar em um conflito militar.

14. Nesses anos desde que Hugo Chávez ganhou as eleições em 1998 e tomou posse em 1999, há um cenário permanente de ataque dos capitalistas venezuelanos e internacionais ao processo de mudança econômica e social na Venezuela. Poderiam até admitir um militar governando a Venezuela, como tantos fizeram na América Latina, porém não admitiram nunca que o petróleo passasse a ser utilizado como um bem fundamental para a reestruturação da economia venezuelana, para financiar a distribuição de renda e a solução dos problemas estruturais da população: moradia, saúde, educação, transporte público e infraestrutura social.

15. Nesses anos todos, os capitalistas do norte e o governo estadunidense aplicaram toda sua experiência histórica que haviam utilizado em outros países para tentar derrubar o governo e o processo bolivariano em curso.

16. Primeiro, tentaram construir um governo de composição de classe com Chávez, propondo políticas econômicas neoliberais. Indicaram ministros e um presidente do Banco Central. Não funcionou. Chávez respondeu com a convocação de uma Assembleia Constituinte e a redação de uma nova Constituição, que devolveu ao povo, e não aos partidos conservadores, a soberania do poder politico e dos destinos da nação.

17. Depois, apelaram para um golpe de Estado clássico, como fizeram em tantos países. Sequestraram o presidente Hugo Chávez do Palácio Miraflores, colocaram em seu lugar um empresário de presidente. Diante desse fato, o povo deu a resposta, cercou o palácio e, em 48 horas, o golpe foi derrotado pelo povo e por um grupo importante de cadetes e novos militares que entraram no serviço militar com uma formação bolivariana. Esse momento é de muita importância, pois marca a união cívico-militar desse novo momento que será fator de grande importância no desenvolvimento da revolução bolivariana, já que parte do alto mando das Forças Armadas estava apoiando o golpe, por suas relações históricas com a oligarquia local.

18. Os empresários que ainda estavam na empresa petroleira PDVSAcomandaram uma greve geral petroleira, paralisando todas as atividades e provocando o caos no país, causando um clima de desestabilidade social. O governo consegue, junto com os trabalhadores, reverter esse processo e promover uma grande renovação na estrutura da empresa, reorganizando o comando entre o governo e os trabalhadores.

19. Aplicaram, então, a tática chilena. Especulação com certos produtos para gerar pânico na população, esconder produtos que iam desde farinha até medicamentos ou bens com muito apelo popular, como papel higiênico, açúcar, leite, café e pasta de dente. O governo usou as reservas de petróleo para compras estatais e distribuição desses bens básicos para a população.

20. Passaram, então, para a tática ucraniana, do terrorismo público nas ruas com a prática das guarimbas, em que jovens pequeno-burgueses ou lúmpens, pagos em dólar, bloqueavam rodovias, queimavam locais simbólicos, jogavam bombas incendiárias em escolas infantis, hospitais e até bases militares, etc. Mais uma vez, não funcionou, e o povo enfrentou o terrorismo e derrotou as guarimbas.

21. Tentaram subverter e ganhar oficiais das forças armadas para seu projeto, compraram alguns, mas não conseguiram o levantamento e a divisão militar. Mesmo porque todos os militares que eles conseguiram comprar estão fora da Venezuela, o que significa dizer sem base de influência concreta.

22. Acusaram sistematicamente o governo venezuelano de ser ditador, tanto Chávez quanto agora também Maduro. No entanto, a oposição participou de 25 eleições, em vinte anos elegeram diversos governadores, prefeitos e deputados, fazem comícios em praça pública e controlam a maior parte dos meios de comunicação de massa. Como justificar que se trata de uma ditadura? Em nenhum país ocidental há condições semelhantes. Por outro lado, o processo eleitoral, com urnas eletrônicas e comprovante impresso se transformou no processo mais transparente existente comprovado por diversas fundações dos Estados Unidos que fiscalizaram as últimas eleições.

23. Nos últimos meses, intensificaram o bloqueio econômico para evitar que cheguem mercadorias do exterior - sendo uma economia petroleira, a Venezuela ainda é muito dependente de bens produzidos no exterior. E mais do que tudo, operam abertamente com a manipulação do câmbio na cotação do dólar com o bolívar, desde um portal inexplicável instalado em Miami. Sintomaticamente, a burguesia local, toma como referência esse portal, sem nenhuma base econômica real para especular com o dólar, que agora virou mais que uma moeda, virou uma mercadoria. Porém uma mercadoria que é referência para todas as demais.

24. Impulsionaram uma campanha de estímulo e motivação para que milhares de pessoas saíssem do país com promessas de emprego e futuro risonho. Mais de 30% dos que saíram já retornaram ao país desiludidos, recebendo apoio do governo para retornarem. Ainda que a migração não seja um problema de venezuelanos, já que vivem no país mais de 5 milhões de colombianos, milhares de haitianos e também milhares de europeus que chegaram no boom do petróleo da década de 1970, como espanhóis, italianos, portugueses e também libaneses.

25. A tese de exigir novas eleições não tem paralelo na história das democracias burguesas modernas. Só porque a direita perdeu as eleições para Maduro, fiscalizadas por centenas de autoridades de todo mundo, então deve-se convocar novas eleições? Por quê? Não há base legal e moral para destituir um governo legítimo como foi eleito. Ou a mesma tese poderia se aplicar contra Bolsonaro, Macri? E sobre os mesmos deputados da Assembleia Nacional que quer destituir Maduro, foram eleitos pelo mesmo sistema.

26. Agora, entramos na etapa derradeira. O governo de Trump, encurtando-se, tem ainda menos de dois anos e deve perder as próximas eleições. O preço do petróleo tende a subir e, com a necessidade ideológica de barrar os governos progressistas e de esquerda, eles precisam derrubar Maduro. Como disse Trump: "primeiro vamos derrubar o governo Maduro, depois virá Cuba, Nicarágua", etc.

27. Antes de iniciar a fase de maior ofensiva externa, o governo Trump tentou criar as condições internas de desestabilização econômica e política, nomeando Guaidó, desconhecido das forças políticas do país e, inclusive, não representativo das forças burguesas de oposição, como sendo o novo governo legítimo. Ou seja, trataram de dar um golpe constitucional, porém ilegal. Repetindo a fórmula utilizada contra o presidente [Fernando] Lugo [do Paraguai], contra o presidente [Manuel] Zelaya [de Honduras] e contra a presidenta Dilma [Rousseff].

28. E essa nova etapa pode chegar a uma invasão militar. Criaram um governo fantoche, que nem sequer é conhecido no país, totalmente à margem de qualquer eleição ou legalidade. E agora, bastaria aumentar o cerco, a pressão internacional e, quem sabe, uma intervenção cirúrgica.

29. Porém essa tática derradeira depende de muitas variáveis. A sociedade americana não aceitaria perder seus soldados numa guerra injustificável, e então teriam que usar forças da OEA [Organização dos Estados Americanos]. Mas, na OEA, fizeram apenas 16 dos 34 votos. E não tiveram maioria nem autorização para uma invasão legalizada pela OEA. Tentaram no Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas], que também lhes negou direito para invadir a Venezuela, com os bloqueios da Rússia, China e outros países. Sobrariam as forças armadas da Colômbia e do Brasil, e não parece ser fácil sua adesão, com consequências para a política interna e a disposição política das forças armadas destes países.

30. A última tática seria, então, uma intervenção militar cirúrgica, por aviação, como fizeram na Iugoslávia, Ucrânia, Líbia e Síria, para quebrar a sustentação econômica do governo e forçar a derrubada. Mas antes de uma intervenção militar, eles precisariam ainda romper com o elo de unidade existente na Venezuela entre as forças armadas bolivarianas e a maioria do povo. Essa unidade derrotará qualquer intervenção militar, causando um alto custo de vidas humanas e também político ao governo Trump.

31. Essa aventura militar poderia se transformar num conflito bélico internacional com a provável solidariedade da Rússia, do Irã e da Turquia, transformando a Venezuela numa Síria latino-americana, com desfechos improváveis e altos custos aos norte-americanos, como de fato está acontecendo na Síria.

32. Ainda como consequência dessa intervenção militar, uma grave contradição para as forças imperialistas: com uma provável derrota das forças direitistas invasoras, os Estados Unidos teriam então que receber uma nova e grande migração de toda burguesia venezuelana, que, numa derrota militar, não teria mais espaço político e social no país, como aconteceu depois da derrota militar da invasão na Baía dos Porcos, em Cuba.

33. As próximas semanas e os próximos meses serão decisivos para o desfecho de qual tática os americanos adotarão. Naquele território, estamos travando a batalha da luta de classes mundial, que poderá demarcar a geopolítica para todo o século 21, assim como foi simbólica a Guerra Civil Espanhola para os desdobramentos numa Segunda Guerra Mundial.

34. De parte do governo venezuelano, será necessário, nesta batalha, manter a unidade das forças armadas bolivarianas e manter a maioria do povo chavista mobilizado na defesa da pátria. No curto e médio prazo, desenvolver um novo programa econômico, que logre superar os enormes desafios impostos pelo bloqueio ocidental e pela dependência do petróleo para desenvolver um novo programa de desenvolvimento econômico com igualdade social.

35. Hoje, a defesa da soberania na Venezuela significa a defesa da autodeterminação dos povos contra o império. Precisamos estar ativos e bem-informados das movimentações. Os próximos passos serão decisivos, e todas as forças populares e de esquerda, do continente e do mundo devemos manifestarmos claramente em defesa do processo bolivariano - que tem suas contradições e desafios, que são próprios de todo processo de mudanças estruturais numa sociedade.

Edição: Aline Scátola

https://www.brasildefato.com.br/2019/02/21/notas-para-debater-a-crise-da-venezuela-por-joao-pedro-stedile/

17.2.19

A Constituição a caminho da ruína?

A Constituição a caminho da ruína? 

por José Felipe Ledur

Publicado em: fevereiro 16, 2019


"O Judiciário acabou contribuindo ao esvaziamento de direitos e garantias fundamentais". (Arquivo/Valter Campanato/ABr

José Felipe Ledur (*)

A Constituição, sinteticamente, conforma o pacto político que estabelece os direitos e garantias fundamentais que a sociedade se reservou no processo constituinte e estabelece as atribuições dos poderes do Estado. A vinculação dos três poderes estatais aos direitos fundamentais é uma exigência inequívoca reconhecida pelo constitucionalismo quando se cuida de Estado que orienta suas ações de acordo com o Direito e com o princípio democrático.

No § 4º do art. 60, a Constituição Federal (CF) protege seu sistema de princípios, direitos e garantias fundamentais em face da atuação de maiorias parlamentares circunstanciais. Proíbe a abolição de "cláusulas pétreas" por intermédio de emenda constitucional. A CF também impõe ao legislador o dever de conformar, por meio de lei, direitos fundamentais asseguradores das liberdades clássicas e de liberdades reais que encontram expressão nos direitos sociais. E o § 1º do art. 5º é definitivo ao estabelecer que os direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. Isso vale para os três poderes da República.

Nestes 30 anos de vigência da CF, o Judiciário acabou contribuindo ao esvaziamento de direitos e garantias fundamentais. O STF oscilou entre a afirmação e a negação a esses direitos e garantias. Por um lado, afirmou direitos de segmentos vulneráveis ao determinar, por exemplo, a demarcação de terras indígenas e respaldar a adoção do sistema de cotas raciais nas universidades; também atuou na afirmação de direitos fundamentais dos trabalhadores ao reconhecer a ampla substituição processual pelos sindicatos, ao afirmar os direitos da mulher gestante e ao decidir que a proporcionalidade do aviso-prévio é imediata.

De outro lado, o STF atuou de forma tíbia ao limitar a força jurídica do mandado de injunção e da ação de inconstitucionalidade por omissão dirigidos a fazer valer os direitos e liberdades constitucionais. Além disso, declarou a ineficácia da Convenção 158 da OIT, instrumento útil diante da omissão legislativa em conter dispensas imotivadas (art. 7º, I, da CF). Recentemente, concorreu à erosão do núcleo do direito fundamental à relação de emprego com a validação de terceirização irrestrita. Também notável é a jurisprudência do STF que invocou "mutação constitucional" para, na prática, suprimir texto de garantia fundamental que exige o trânsito em julgado de decisão condenatória para justificar a prisão.

Por fim, a respeitabilidade do tribunal resta abalada em razão de pedidos de vista que impedem julgamentos, de manipulação da pauta ou de decisões liminares que não são levadas ao julgamento pelo Plenário.

Já os tribunais do trabalho neutralizaram o esvaziamento dos direitos fundamentais dos trabalhadores mediante a imposição de limites à terceirização. Entretanto, toleraram jornadas de trabalho em muito excedentes ao limite de 08 horas diárias (art. 7º, XIII, da CF) e, em lugar de sancionarem responsáveis por atos abusivos no curso da greve, sancionam de maneira reiterada toda a categoria profissional por meio de declarações de abusividade de greves. Com isso, concorrem para esvaziar direito de liberdade clássico assegurado no art. 9º e parágrafos da CF.

O legislador brasileiro historicamente se recusou a conformar direitos fundamentais dos trabalhadores, impedindo o seu exercício pleno ou uso eficaz. Com a reforma trabalhista de 2017, divulgou-se que "nenhum direito fundamental estava sendo atingido". Em realidade, regras da CLT que até então conformavam direitos fundamentais dos trabalhadores receberam configuração dirigida ao esvaziamento do núcleo desses direitos. São exemplos as regras relativas ao emprego, ao limite do horário de trabalho, à proteção da saúde e do salário, além de possíveis sanções ao titular do direito à assistência jurídica gratuita. Propostas adicionais de esvaziamento do sistema de direitos fundamentais dos trabalhadores encontram-se na PEC 300.

O atual governo compromete o direito fundamental de acesso à informação pública mediante o suspeito Decreto 9.690/19. No terreno das liberdades individuais, o ministro da Justiça visa fazer tábula rasa, por meio de lei, da garantia fundamental da presunção da inocência mediante prisão após julgamento colegiado. Mas concede que em "questões relevantes" isso pode não valer. Para favorecer a quem? Sua solução para a criminalidade passa pelo endurecimento de medidas voltadas a prender acusados e agravar a situação de condenados. Em sintonia com a apologia à violência "contra os bandidos" da campanha eleitoral, propõe o reconhecimento de legítima defesa em caso de escusável medo ou violenta emoção de agentes policiais. Isso quando o contribuinte tem o direito de contar com agentes treinados para agir de modo intimorato e sem paixões… Já o ministro da Economia propõe a criação de subcategoria de trabalhadores, que desista de direitos fundamentais.

Encontra-se na história alemã algo similar ao que se observa no processo de desconstrução material da nossa Constituição. A Constituição de Weimar, de 1919, previu sistema de direitos fundamentais clássicos e sociais. Mas ela sofreu processo inicial de erosão causada pela fraca adesão de parte da população. Jurisprudência e teoria jurídica se restringiram a ver nas normas jusfundamentais um programa sem caráter vinculativo. Mais adiante, no início da ditadura nazista, decretos e leis proibiram os sindicatos e a livre negociação coletiva, removeram a vigência dos direitos fundamentais e suspenderam o princípio democrático, federativo e da separação dos poderes. Suprimiu-se também a liberdade de imprensa e limitações legais foram removidas para permitir a prisão preventiva indefinida, sobretudo de comunistas ou de quem supostamente com eles alinhado. Muniu-se a polícia de poderes que suprimiam limites jurídicos e de fato a sua ação. Já o direito vigente e a competência da Justiça eram mantidos na exata medida em que se conformassem com os objetivos do regime (Frotscher/Pieroth, Verfassungsgeschichte, 2014, p. 297-337).

Enfim, o parlamento, já dominado pelo partido nazista, e com a morte ou exílio de dezenas de deputados socialdemocratas e comunistas, conferiu ao Führer poderes ilimitados. A Constituição de Weimar restou materialmente esvaziada. Nem foi preciso revogá-la formalmente. Carl Schmitt, jurista de Hitler considerado o "coveiro da República de Weimar", escreveu que é o Führer quem protege o Direito.

A comparação com experiência estrangeira deveria chamar à reflexão e à responsabilidade cidadãos, imprensa, partidos políticos democráticos e agentes públicos diante do processo de degeneração e deformação do sistema político e de direitos e garantias fundamentais que o país atravessa. Resta ver se cidadãos e sociedade civil serão capazes de superar a paralisia e se o Judiciário será capaz de recuperar padrões éticos que o habilitem a exercer a responsabilidade pela prevalência do sistema de direitos e garantias fundamentais dos indivíduos e do Estado Democrático de Direito, com recusa à tutela ou ameaça, seja qual for a sua origem.

(*) Desembargador do trabalho aposentado e doutor em Direito do Estado.

§§§

As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.


https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2019/02/a-constituicao-a-caminho-da-ruina-por-jose-felipe-ledur/


O Conto da Carteira Verde e Amarela

O Conto da Carteira Verde e Amarela

14/02/2019 11:58

Cesar Zucatti Pritsch, Juiz do Trabalho  

Declarações do governo reacenderam a polêmica da "carteira verde e amarela", sem direitos como 13º, férias e FGTS, supostamente para gerar mais "empregos". Sustenta-se que seria "opção", "ninguém mexe em direitos, mas daremos novas alternativas", mas o próprio presidente já disse que a legislação trabalhista "vai ter que se aproximar da informalidade".

Iria o governo ao ponto de disfarçadamente revogar direitos constitucionais? Tornar direitos aparentemente "opcionais" evitaria a inconstitucionalidade por ofensa a cláusulas pétreas?

Negativo. "Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: ... os direitos e garantias individuais" (parág. 4º, IV, do art. 60 da Constituição), dentre os quais estão os direitos dos trabalhadores, art. 7º. O constituinte buscou evitar que maiorias temporárias pudessem aniquilar conquistas civilizatórias, seja alterando a Constituição, seja por seu esvaziamento, "tendente" a abolir tais direitos.

É o caso aqui. A "opção" pela carteira "verde e amarela", nua de direitos, é ilusória. Alguém acredita no conto de que tal contrato não será imposto como condição de contratação?

Tivemos situação idêntica nos anos 60. O empregado que atingisse 10 anos de serviço só poderia ser despedido por falta grave ou força maior (art. 492 da CLT). No entanto, sem revogar tal artigo, foi criado sistema paralelo. O trabalhador "optaria" por não ter direito à estabilidade em troca receber depósitos mensais de 8% do salário em um Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço. Todos sabem o que aconteceu, a partir de 1967 ninguém mais era contratado se não exercesse a "opção" pelo FGTS, renunciando à estabilidade.

A mudança agora será mais cruel - o trabalhador renunciará a seus direitos em troca de ...nada. Pela rotatividade de empregados, em 5 ou 6 anos quase todos já terão exercido tal "opção". O regime atual, com os direitos constitucionais trabalhistas, terá virado pó, "tendendo" à abolição, violando o §4º do art. 60 da Constituição.

Acredita-se que o governo não se arriscará em tamanho ataque à Constituição, já que uma rejeição no Congresso lhe desgastaria. Todavia, se impuser renúncia a direitos constitucionais mediante tal opção fictícia, e se tal inconstitucionalidade não for detectada pelo próprio Parlamento, o reconhecimento da inconstitucionalidade pelo Judiciário é o destino mais provável.

Fonte: Cesar Zucatti Pritsch - Juiz do Trabalho
14/02/2019 11:58 
 


28.1.19

Fakenews elegeram um fakepresident

Fakenews elegeram um fakepresident


EMIR SADER
Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

26 de Janeiro de 2019
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O governo que o Brasil tem hoje é resultado direto dos mecanismos montados para ganhar as eleições, fosse como fosse, com todo tipo de ilegalidade e imoralidade, contando com a cobertura do Judiciário e da mídia. Ninguém tem o direito agora de se surpreender com o presidente eleito, seja porque as declarações dele exibiam claramente de quem se tratava, seja porque eram conhecidos os vínculos dele e dos seus filhos, ou porque o seu despreparo para uma função pública era notória.

Mas foi o candidato que restou à direita, depois da debacle dos tucanos e da incapacidade de articular um candidato de fora da política tradicional, como Joaquim Barbosa ou Luciano Huck. A radicalização de setores da classe média desde 2013, intensificados na campanha de desestabilização do governo da Dilma, fizeram da candidatura de Bolsonaro a única da direita com certo caudal de votos.

Ainda assim, Bolsonaro estava perdendo as eleições, até a monstruosa operação de fakenews e robôs, que virou a campanha eleitoral e acabou definindo seu resultado. Um presidente eleito por fakenews, um fakepresident.

Bastaram poucos dias para que todos se dessem conta que ele não tem as mínimas condições para assumir o cargo. Seu pânico de qualquer entrevista que não seja feita por correligionários ou de qualquer debate público, revelam seu despreparo para enfrentar situações em que ele tem que defender posições, responder questões, revelar suas posições.

Mas agora, depois de prestar o serviço de impedir a vitória do PT, ele já armou o governo, que tem nos militares, no Guedes e no Moro, seus eixos, ele já não tem serventia. E, se encontrarem a forma de substituí-lo, podem fazê-lo, porque a blindagem institucional daria a presidência ao vice-presidente, militar de confiança da direita. Estaria fechada a operação da guerra hibrida de se reapropriar do Estado e do governo.

Um fakepresident foi utilizado para essa operação, confirmando a afirmação de Gramsci de que a direita não tem partido, ela se vale dos partidos e lideres conforme as circunstancias. A direita brasileira se valeu dos militares durante a ditadura, do Collor e do FHC no período neoliberal, agora do Temer e do Bolsonaro na restauração conservadora.

Tratam de blindar o poder, para tentar impedir que a esquerda possa voltar a eleger um presidente que destoe dos interesses das elites dominantes. O apelo aos militares voltar a ser um elemento estrutural da direita, quando se esgotaram seus partidos tradicionais. O fim do PSDB como partido que representava a alternativa neoliberal, obrigou ao apelo à judicialização da política, para tirar o Lula e o PT de uma disputa democrática.

Hoje a prisão do Lula é condição de sobrevivência do Estado de exceção. O único líder político com credibilidade e prestigio, circulando por todo o Brasil, dizendo ao povo o que realmente aconteceu e acontece no pais, recordando que o povo já viveu melhor e as razoes e os meios pelos quais volta a sofrer a miséria, a fome, o desemprego, o desamparo, é fatal para esse governo e esse esquema de poder. Que não tem o que oferecer ao pais, a não ser discursos efêmeros de efeitos ilusórios, que servem para ganhar eleição, mas não bastam para governar um pais.

A esquerda tem que melhorar sus formas de ação jurídica e da internet, que terminaram sendo as instâncias decisivas para a vitória eleitoral da direita e para a derrota da esquerda. É certo que são espaços de atuação difíceis, porque o Judiciário tem se revelado, mesmo se com algumas fissuras, um instrumento solido de implantação do regime de exceção e da perseguição política da esquerda, em particular do Lula. É certo também que a esquerda não pode apelar para fakenews, por questões de princípio.

Mas a via democrática é a única via possível da esquerda. Não há outra. Temos que encontrar os meios de retomar as lutas no plano judicial de forma mais eficiente. A começar por rebater o discurso dos juízes que acham que estão realmente combatendo a corrupção no Brasil e por encontrar novos espaços para atuar. Assim como encontrar formas de atuação no plano das comunicações, em particular da internet, que permitam neutralizar as novas formas de operação da direita, e expandir formas de difusão das teses democráticas e de defesa dos direitos de todos.



25.1.19

conjuntura


Laurindo Lalo Leal Filho

Brasil, Honduras e Paraguai foram anexados aos Estados Unidos por golpes parlamentares. Argentina, Chile e Colômbia por ingerências nas eleições e no Equador pelo apoio aos traidores. Na Venezuela ao que tudo indica será pela violência. As veias da América Latina continuam abertas.

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Celso Augusto Schröder

Se assassinato ainda é mais grave do que corrupção, então hoje os fatos envolvendo a família Bolsonaro são muitíssimo mais graves do que os de ontem e de antes de ontem e assim por diante. O próprio ex-Ministro Jughumann, confessando sua impotência já tinha sinalizado de que o crime tinha envolvimento com altíssimas autoridades políticas. Não sabemos exatamente o quanto, mas o fato da mãe e da esposa do capitão miliciano trabalharem até novembro passado no gabinete de um dos filhos do Presidente Bolsonaro não pode ser tratado com naturalidade ou desdém. É gravíssimo.

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Cadê Moro para além do sorriso na foto do avião para Davos? O que Sergio Moro tem a dizer sobre os milicianos presos por serem os principais suspeitos do assassinato de Marielle Franco (sendo que um deles, o major, responde por uma chacina) e ligados, por diferentes formas, aos Bolsonaro? Por que Moro está sendo poupado de opinar sobre o envolvimento de pessoas - com as quais compõe o novo governo - com o crime organizado? Ora, Moro é o Ministro da Justiça do presidente cujo filho senador empregou, em seu gabinete, mãe e mulher de um miliciano acusado do assassinato bárbaro de uma parlamentar honesta, digna e lutadora. Empregou mãe e mulher que depositavam seus salários na conta de Queiroz, acusado de laranja em esquema de corrupção que beneficiava o agora senador e filho do presidente que convidou o juiz Sergio Moro a ser Ministro da Justiça (e este prontamente aceitou o convite!). Moro não pode ser poupado nesse momento de dizer algo à nação! Não depois de ter sido construído pela imprensa como um "paladino da Justiça"! Não só existem trouxas no Brasil. A parte do país que pensa quer ouvir o ex-juiz!

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A quadrilha de Rio das Pedras ameaçou moradores que não votassem no atual governador, "adotado" por Flávio na campanha
http://bit.ly/2SaanEw 

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Eleição de Witzel no Rio uniu Flávio Bolsonaro e milícia denunciada
https://www.cartacapital.com.br/politica/eleicao-de-witzel-no-rio-uniu-flavio-bolsonaro-e-milicia-denunciada/

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Ameaçado, Jean Wyllys abre mão do mandato na Câmara e anuncia saída do Brasil
Deputado federal diz que ligações do clã Bolsonaro com milícias o aterrorizaram: "Quero cuidar de mim e me manter vivo"
https://www.brasildefato.com.br/2019/01/24/ameacado-jean-wyllys-do-psol-abre-mao-do-mandato-e-anuncia-saida-do-brasil/?fbclid=IwAR3a3yeLm2qPB-1uOHd8ihcQp3Ah1QLTo8fxz5OY7ghVT0JR3kI6IV639xU

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Jean Wyllys, sinônimo de luta e dignidade
O parlamentar anuncia estar fora do país e põe fim ao grande mandato de luta pelos direitos humanos: 
http://bit.ly/2HszNZW   
https://www.cartacapital.com.br/justica/jean-wyllys-sinonimo-de-luta-e-dignidade/
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Para a advogada chilena Antonia Urrejola Noguera, relatora especial do Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o país não foi capaz de garantir segurança e condições básicas para que o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) pudesse exercer suas funções.
Via BBC News Brasil


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Marcos Bagno

Sabem por que eu não tenho vergonha? Porque eu olho para uma das paredes do meu quarto de trabalho e topo com nomes como Milton Santos, Sérgio Buarque de Holanda, Machado de Assis, Emília Viotti, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Heitor Villa-Lôbos, Tom Jobim, Elis Regina, Chico Buarque, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Clementina de Jesus, Graciliano Ramos, Antonio Houaiss, Lima Barreto, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, João Bosco, Lúcio Cardoso, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Noel Rosa, Pixinguinha, d. Paulo Evaristo Arns, Raymundo Faoro, Celso Furtado, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Raduan Nassar, Fernanda Torres, Sebastião Salgado, Magda Soares, Antonio Candido, Marilena Chaui, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, d. Ivone Lara, Cartola, Clara Nunes, Hilda Hilst... E isso só numa das estantes (que tem livros e discos). Por que é que eu vou ter vergonha se o Brasil é muito mais e muito melhor do que esses facínoras que fizeram do crime organizado um projeto de governo? Tenho vergonha não. Tenho é profundo desprezo, nojo, ojeriza, asco de quem votou neles sabendo a desgraça que ia dar (e está dando).

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Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz