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pergunta:

"Até quando vamos ter que aguentar a apropriação da ideia de 'liberdade de imprensa', de 'liberdade de expressão', pelos proprietários da grande mídia mercantil – os Frias, os Marinhos, os Mesquitas, os Civitas -, que as definem como sua liberdade de dizer o que acham e de designar quem ocupa os espaços escritos, falados e vistos, para reproduzir o mesmo discurso, o pensamento único dos monopólios privados?"

Emir Sader

8.9.21

Movimento planeja novas ‘Diretas Já’ pelo impeachment de Bolsonaro

Movimento planeja novas 'Diretas Já' pelo impeachment de Bolsonaro
É a primeira vez que o grupo Direitos Já, que reúne líderes de 18 partidos, defende publicamente a derrubada do presidente
https://www.cartacapital.com.br/politica/movimento-planeja-novas-diretas-ja-pelo-impeachment-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR1gY1sXx55JmGecpw48UuHaiyA3MoP0SMtwL1kKk5hQp6rY5ovdY_iitrk

Atos do 7 de Setembro são, antes de tudo, suspiros de um governo moribundo
A nova investida do presidente nada mais é que a cartada final de um governo incompetente, antipovo, entreguista e principalmente corrupto

Fux diz que 'ninguém' fechará o STF: 'Jamais aceitaremos ameaças ou intimidações'
Em duro recado, o presidente do STF afirmou que Bolsonaro comete crime ao pregar a desobediência a decisões judiciais
https://www.cartacapital.com.br/justica/fux-diz-que-ninguem-fechara-o-stf-jamais-aceitaremos-ameacas-ou-intimidacoes/?fbclid=IwAR1FfPEi5VdDUXbHUofgzx2u-bykyts4A-cUwHqbSj3FqgQHWZqbK7bnVN8

Leia a íntegra do pronunciamento de Fux contra as ameaças golpistas de Bolsonaro
O presidente do STF afirmou que a Corte não aceitará 'intimidações ao exercício regular de suas funções'
https://www.cartacapital.com.br/politica/leia-a-integra-do-pronunciamento-de-fux-contra-as-ameacas-golpistas-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR22eAMl4nlRioh_--ihJyl9B3RGwSmiz-9jYANiM-91T_CDi_bpbuB8jn0

Caminhoneiros processam Bolsonaro e seus apoiadores por atos no 7 de setembro
Categoria pede indenização de 50 milhões de reais por danos patrimoniais, extrapatrimoniais e morais coletivos

Celso de Mello: discursos de Bolsonaro no 7 de Setembro mostram um 'político medíocre'

Após ameaças golpistas de Bolsonaro, Lira diz que é hora de 'dar um basta' nas bravatas
Em discurso, o presidente da Câmara afirmou que não admitirá questionamentos sobre voto impresso e que a Constituição 'jamais será rasgada

Partidos se reúnem nesta semana para definir apoio ao impeachment de Bolsonaro



'É uma saída que envolve pessoas que estão sob ataque do Bolsonaro e que podem resolver a situação por ali mesmo'

Ato bolsonarista em SP reuniu 125 mil pessoas, diz PM; Bolsonaro esperava 2 milhões

Celso de Mello: discursos de Bolsonaro mostram um 'político medíocre' que 'não está à altura do cargo'

Cassar a chapa Bolsonaro – Mourão é mais viável do que impeachment, diz cientista político
'É uma saída que envolve pessoas que estão sob ataque do Bolsonaro e que podem resolver a situação por ali mesmo', avalia Márcio Coimbra


Renan chama atos pró-Bolsonaro de 'fiasco' e diz que fascismo não triunfará

O 7 de Setembro foi sequestrado por fanfarronice e ameaças, diz general Santos Cruz

Chegou o momento de a Câmara e o Senado tomarem posição, diz presidente da OAB

Milton Nascimento canta 'Cálice', símbolo da repressão, e defende o 'fora, Bolsonaro'

20.8.21

Muito perigo à vista

Muito perigo à vista (por Selvino Heck)

Bolsonaro, acompanhado de ministros e comandantes militares, acompanha desfile de blindados. (Foto: Isaac Amorim/MJSP - Fotos Públicas)
Bolsonaro, acompanhado de ministros e comandantes militares, acompanha desfile de blindados. (Foto: Isaac Amorim/MJSP - Fotos Públicas)

Selvino Heck (*)

Se alguém acha, em meados de agosto de 2021, complicado como todo mês de agosto, que os próximos tempos serão muito tranquilos, está muitíssimo enganado. Basta ver e ouvir declarações altamente preocupantes dos últimos dias.

Steve Bannon, um dos estrategistas principais de Donald Trump, ideólogo da extrema direita mundial, disse: "Jair Bolsonaro irá enfrentar o esquerdista mais perigoso do mundo, Lula. Um criminoso e comunista apoiado por toda a mídia aqui nos EUA, toda a mídia de esquerda. A eleição de 2022 é a mais importante de todos os tempos na América do Sul. Bolsonaro vai ganhar, a não ser que seja roubado pelas, adivinhem só, máquinas" (Brasil 247, 14.08.2021).

General Braga Netto, Ministro da Defesa: "As Forças Armadas são protagonistas da história e sob autoridade suprema do presidente" (JB, 15.08.2021). "Na Câmara, Braga Netto nega que houve ditadura em 1964 Foi um regime forte" (Brasil 247, 17.08.2021). "Não considero que houve uma ditadura. Houve um regime forte e cometeram exceções dos dois lados, de Guerra Fria e tudo mais. Mas isso tem que ser analisado à luz da história. Não pegar uma coisa do passado e trazer para os dias de hoje."

Disse Jair Bolsonaro: "Nas mãos das FFAA, a certeza da garantia da nossa liberdade, da nossa democracia e o apoio total às decisões do presidente pawqwsra o bem da Nação" (12.08.2021).

"Gal. Heleno insiste em previsão constitucional para golpe militar" (Blog da Cidadania, 17.08.2021). "Ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), General Augusto Heleno, afirmou que a interferência das Forças Armadas no sistema democrático brasileiro atual pode ocorrer. O artigo 142 é bem claro, basta ler com imparcialidade. Se ele existe no texto constitucional, é sinal que pode ser usado."

"Bolsonaro oferece circo porque não pode assegurar o pão" (Thiago Sá, Carta Maior, 17.08). "Apenas lideranças militares, liberais e evangélicas podem esperar algo dele. Para você, que não lidera nenhum destes grupos, Bolsonaro reserva aprovação de centenas de agrotóxicos, devastação ambiental, precarização dos serviços públicos e indexação dos preços dos combustíveis ao mercado internacional."

Para Jânio de Freitas, mais que experiente e respeitado jornalista, "eleição presidencial de 2022 se encaminha para ser muito perigosa. Para dizer tudo, na conturbação que Bolsonaro estará apto a promover, para arruinar a eleição ou, diz a gíria, para tentar vencer na marra. Mas tudo sugere, a eleição presidencial de 2022 encaminha-se para ser muito perigosa. Em muitos sentidos, inclusive para a população".

E não se deve esquecer que Eduardo Bolsonaro esteve nos EUA há poucos dias, e reuniu-se com Donald Trump e Steve Bannon, com tudo que isso significa na atual conjuntura e à luz das declarações e análises acima.

 Por outro lado, e ao mesmo tempo, a voz lúcida e o sempre bem informado José Genoíno diz, em entrevista: "Não vai haver uma quartelada. O golpe já aconteceu em 2016, diz José Genoíno Brasil de Fato, 16.08.2021). "O decisivo é 2021, não 2022. Nós temos que intensificar a plataforma de defesa dos interesses populares e das liberdades políticas e o fim desse governo e suas políticas. Nós não temos outra saída senão a radicalização, no sentido de ir à raiz. A sangria da crise é profunda e não adianta a gente chegar com  band aid e esparadrapo."

Ou seja, somando e diminuindo os últimos acontecimentos, há muito perigo à vista, e nada está decidido sobre o que vai acontecer no próximo período, ou até o final de 2021. De qualquer maneira, o central, o mais importante, o mais decisivo agora, agosto de 2021, como também diz José Genoíno, é mobilizar e ir para as ruas, com unidade. Impedir a reforma administrativa e outros projetos de perda de direitos, impedir as privatizações e as propostas lesa-pátria.   

Para isso, tem o 7 de setembro e o vigésimo sétimo Grito das Excluídas e dos Excluídos, com o sugestivo lema e tema central 'VIDA EM PRIMEIRO LUGAR! NA LUTA POR PARTICIPAÇÃO POPULAR, SAÚDE, COMIDA, MORADIA, TRABALHO E RENDA. JÁ!

O Grito, em 2021, vai estar misturado com todas as outras mobilizações por VACINA NO BRAÇO, COMIDA NO PRATO, FORA BOLSONARO JÁ. E no Rio Grande do Sul, com a preparação do Plebiscito Popular contra as Privatizações, que vai acontecer de 16 a 23 de outubro. E sem esquecer que dias 19 e 20 de setembro acontecerão as celebrações do centenário de Paulo Freire: denúncia, anúncio, profecia, sonho e utopia, como ele escreve na Pedagogia da Indignação. Em setembro, como ele queria, MARCHAR, MARCHAR, MARCHAR.

 A sociedade e o povo se unem, vão se unir cada vez mais na defesa da vida, da Casa Comum, da democracia e da soberania. Só assim o perigo, ou os perigos, será afastado.  Sem ilusões. A história brasileira está cheia de golpes e ditaduras. PREPAREMO-NOS!

(*) Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

§§§

As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.




18.8.21

Viagem de Mourão a Angola em favor da Universal teria custado R$ 1 milhão

Viagem de Mourão a Angola em favor da Universal teria custado R$ 1 milhão

De acordo com o site Metrópoles, a comitiva brasileira, que contava com 47 pessoas, dispendeu gastos de 222 diárias, e 102 passagens aéreas

Os dados mostram que foram desembolsados 441 mil em diárias, 609 mil em passagens e 20 mil com diversos, sem contabilizar gastos com alimentação e transporte no país








16.8.21

A quem interessa a Reforma do Ensino Médio?

EDUCAÇÃO

Artigo | A quem interessa a Reforma do Ensino Médio?

A proposta de reforma do ensino médio foi alvo de profunda crítica e mobilização pela comunidade escolar

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
26 de Julho de 2021 às 12:29
escola estadual mg
A reforma do Ensino Médio foi proposta no bojo das políticas neoliberais de austeridade fiscal impulsionadas a partir do golpe de 2016 - Sind-UTE/MG

A reforma do Ensino Médio foi proposta em setembro de 2016, logo após o golpe que depôs a presidenta Dilma Rousseff e instituiu Michel Temer como presidente.

Sob comando de Mendonça Filho, no Ministério da Educação (MEC), a reforma propôs a redução da carga horária das disciplinas gerais do Ensino Médio, tornando obrigatórias apenas português e matemática; instituiu os itinerários formativos (especialização dentro de uma das áreas do conhecimento ou ensino técnico profissionalizante); tornou inglês disciplina obrigatória como língua estrangeira; permitiu o notório saber para a prática docente, sem a necessidade de diploma em licenciatura; ampliou a carga horária total do Ensino Médio e permitiu que parte do ensino fosse oferecido na modalidade à distância. Além disso, a proposta inicial retirava a obrigatoriedade de artes, educação física, sociologia e filosofia.

::Artigo | Quais serão os impactos do "novo" ensino médio na educação brasileira?::

A reforma foi proposta no bojo das políticas neoliberais de austeridade fiscal impulsionadas a partir do golpe de 2016. Vale lembrar que no mesmo período foi aprovada a PEC do Teto dos Gastos, que limitava os investimentos públicos em áreas fundamentais para população, como saúde e educação.

Leia mais: PEC do Teto dos Gastos inviabilizou a educação pública no país, diz Dermeval Saviani

A proposta de reforma do ensino médio foi alvo de profunda crítica e mobilização pela comunidade escolar, em especial pelos estudantes que promoveram uma onda de ocupações de escolas no Brasil como um todo.

O processo de resistência obteve conquistas, seja no saldo político da organização estudantil, seja na modificação de algumas propostas da reforma. No entanto, a reforma foi aprovada em fevereiro de 2017, estabelecendo diretrizes gerais para este nível de ensino.

Os conteúdos e disciplinas gerais a serem ofertadas no ensino médio seriam definidos posteriormente, a partir da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio, aprovada em dezembro de 2018, com o MEC sob comando de Rossieli Soares, estabelecendo o "Novo Ensino Médio".   

Leia também: Reforma do Ensino Médio: os 40% que se distanciam da educação pública de qualidade

No estado de São Paulo o Novo Ensino Médio vem sendo implementado com muita rapidez. Cabe mencionar que o secretário estadual de Educação, Rossieli Soares, foi secretário da Educação Básica do MEC de Mendonça Filho, do governo de Michel Temer.

Ele atuou intensamente para a aprovação da reforma do Ensino Médio em nível nacional junto à secretaria do MEC e junto ao Conselho Nacional de Educação. Além disso, estava no posto de Ministro da Educação quando a BNCC do Ensino Médio foi aprovada.

De braços dados com Rossieli, o governador João Doria tenta se projetar na política nacional, tentando se legitimar como o melhor nome da frente neoliberal e da terceira via para a disputa da presidência da república em 2022.

Nesse sentido, quer ser o primeiro a aprovar todas as reformas neoliberais para se viabilizar nessa posição. Como exemplo desta constatação, logo no início de 2018, no seu mandato como prefeito de São Paulo, colocou para a aprovação na Câmara Municipal o projeto de reforma da previdência. Em 2019, já como governador de SP, aprovou a reforma da previdência estadual. Com Doria e Rossieli as reformas neoliberais na educação têm fortes aliados.

Com o discurso falso de ser uma alternativa a alta evasão e baixo desempenho dos estudantes, propondo um ensino médio mais "atrativo", o novo ensino médio aprofunda as desigualdades educacionais, uma vez que dificilmente as escolas públicas terão condições para ofertar todos os itinerários formativos e há a redução da carga horária das disciplinas gerais.

Assim sendo, teremos parte dos estudantes (da elite) com acesso a todo o conhecimento acumulado pela humanidade e socializado pela escola, e a grande maioria dos estudantes (de baixa renda), com acesso a apenas uma parte do saber.

A possibilidade de parte do ensino ser na modalidade à distância (20% para diurno e 30% para noturno) abre espaço para o mercado da EaD, que já deu grandes passos ao longo da pandemia.

Os argumentos públicos que justificam o novo ensino médio mascaram os interesses dos empresários e não resolvem os problemas para a educação de nossos jovens. Fazer com que os estudantes escolham uma área para se especializarem com apenas 14 ou 15 anos é muito cruel. Já bastava essa pressão posta com o vestibular, agora a pressão será antecipada. Ter acesso a uma visão ampla do conhecimento para depois definir por qual caminho seguir é um direito que não pode ser retirado da juventude.

É de longa data a relação do PSDB e dos governos paulistas com os empresários na política educacional. Desde a década de 90, no governo de Fernando Henrique Cardoso, abre-se espaço para a chamada responsabilidade social a partir da reforma administrativa de 1995, a qual convoca os empresários brasileiros a contribuírem nas políticas públicas, incluindo a educação.

São Paulo não perde tempo. Governado desde 1995 pelo PSDB, em 2011 aprova o programa "Educação Compromisso de São Paulo", a partir do qual estabelece ampla parceria com o empresariado e suas instituições e fundações em diversos programas da rede estadual de ensino.

Os interesses dos empresários na educação é criar as condições necessárias para reproduzir o sistema capitalista e legitimar todas as suas desigualdades, sem questioná-lo e muito menos transformá-lo, formando a mão de obra necessária para sua reprodução, aceitação da precariedade e desigualdades.

Os indicadores educacionais fazem parte do conjunto de indicadores que coloca um país melhor ou pior posicionado na disputa econômica internacional. Não à toa, a prova do PISA (avaliação internacional em larga escala da educação) é coordenada pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Além do objetivo de formar a força de trabalho para o atual capitalismo, ter melhores índices educacionais coloca o país melhor posicionado na disputa econômica mundial. Soma-se a esses interesses dos empresários, a valorização de suas marcas a partir do envolvimento em projetos sociais envolvendo a educação, sendo uma importante ação de marketing.

A rede estadual de São Paulo é enorme, conta com 3,5 milhões de estudantes e 250 mil trabalhadores, sendo 190 mil professores. Um projeto bem sucedido em uma rede com estas proporções serve como propaganda para os empresários e suas fundações venderem seus projetos para outras redes e países e, assim, amplificarem sua influência e seus lucros.

Aí estão os interesses por trás do novo ensino médio: formar mão de obra obediente, que não questiona, com as habilidades e competências determinadas pelas empresas, que reproduza o sistema capitalista em seu atual estágio, com piores condições de trabalho, que aceita toda a política de austeridade e de retirada de direitos que a ofensiva neoliberal impõe. Para os jovens da elite se coloca o acesso ao conhecimento pleno e as possibilidades que este traz. Para as camadas populares, formação aligeirada para inserção no mercado de trabalho precarizado, sem vislumbrar horizontes mais amplos.

Criticar o novo ensino médio não significa ignorar os problemas que este nível de ensino apresenta. É notória a alta taxa de evasão e os baixos índices de aprendizagem. Devemos compreender com profundidade o contexto e as condições que levam o Ensino Médio a tal quadro para podermos apontar saídas que de fato caminhem para superação das desigualdades educacionais.

Temos importantes universidades públicas no estado de São Paulo, que possuem produção acadêmica riquíssima no campo da educação. Este deve ser nosso apoio para proposição de uma política educacional justa e não as fundações como Instituto Ayrton Senna e outras empresas privadas que prestam serviços de consultoria à secretaria estadual de educação.

Para superar as desigualdades educacionais, devemos pensar em políticas públicas igualitárias, voltadas para todos e não que destine uma educação de qualidade para um grupo e uma superficial para as grandes massas populares. Uma premissa que devemos assumir para pensar qualquer projeto de educação deve ser a de uma educação com compromisso com a transformação da sociedade, eliminação das desigualdades, com diversidade cultural e inclusão social, e não educação acrítica meramente para reprodução do capitalismo.

A única forma de garantirmos uma educação com tais princípios é sendo pública, de gestão pública (e não gerida pelas fundações, institutos e ONG's vinculados às empresas) e gerida por educadores, pois apenas estes compreendem os desafios da realidade educacional e tem a qualificação e conhecimentos adequados para enfrentá-los.

Para superarmos os desafios do Ensino Médio é fundamental escutarmos toda a comunidade escolar, em especial os estudantes. As ocupações das escolas em 2016 foram fundamentais para a escuta das necessidades dos jovens. Devemos fortalecer os grêmios estudantis e incentivar sua autonomia, assim como todas as outras formas de organização dentro do ambiente escolar.

Com a pandemia, os desafios para educação tomam proporção ainda maior. Para recuperarmos a aprendizagem e superarmos os desafios históricos e os novos é fundamental salas de aula com menor número de estudante e melhores condições de trabalho para os professores, o que está na contramão da política de austeridade, que quer encher as salas e precarizar a condição de trabalho docente para reduzir "gastos" (para nós educação é um direito e, portanto, seu financiamento é investimento, não gasto).

Precisamos que toda a comunidade escolar esteja convencida da necessidade de um projeto de educação que seja pensado pelo povo e para o povo, que de fato atenda às suas necessidades e superem o desafio da educação básica pública. Nesse sentido, o convencimento dos professores é fundamental, uma vez que não há política educacional que se implemente sem este trabalhador.

Os empresários e suas representações políticas têm um projeto para educação. No caso de SP, apresentado no plano estratégico 2019-2022 da SEDUC. E nós? Precisamos avançar na construção de um projeto popular para educação. Não é em lutas pontuais que viraremos o jogo. Mas sim em um amplo processo que envolva a unidade, protagonismo popular, compromisso com o povo e com a transformação profunda da sociedade.   

A principal lição deixada pela pandemia é que só o povo cuida do povo. Que tomemos as rédeas dos rumos da educação brasileira!

 

*Barbara Pontes é professora da Rede Pública de São Paulo, militante da Consulta Popular e do coletivo Educadoras e Educadores do Projeto Popular.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Rebeca Cavalcante



Novo Ensino Médio deve aumentar abismo entre escola pública e privada

EDUCAÇÃO

Novo Ensino Médio deve aumentar abismo entre escola pública e privada

A definição curricular a ser adotada a partir de 2022 nas diferentes redes de ensino poderá restringir o horizonte dos 88% de estudantes de ensino médio do sistema público

Por Jacira Cabral da Silveira / Publicado em 9 de agosto de 2021

A escola Tuiuti, de Gravataí, escancara a falta de estrutura física da rede estadual de ensino, com salas de aulas em ruínas ou interditadas por obras. A diretora Geovana Affeldt não pode nem abrir a biblioteca por falta de um técnico

A escola Tuiuti, de Gravataí, escancara a falta de estrutura física da rede estadual de ensino, com salas de aulas em ruínas ou interditadas por obras. A diretora Geovana Affeldt não pode nem abrir a biblioteca por falta de um técnico

Foto: Igor Sperotto

André Luiz Silva dos Passos tem 16 anos. Em 2022, cursará o terceiro ano do ensino médio na Escola Estadual de Ensino Médio Tuiuti, no município de Gravataí, na Grande Porto Alegre. Tranquilo, de fala articulada, não titubeia frente às perguntas sobre a implantação do Novo Ensino Médio durante entrevista por telefone. Assim como a mãe, Simone, formada em Administração, e o irmão mais velho, João Pedro, que cursou Matemática, ele conta que deseja seguir seus estudos e fazer o curso de Música na Ufrgs, escolha que o acompanha desde os 12 anos de idade. Mas sobre o que irá acontecer no ano que vem na escola quanto às mudanças a serem implementadas, confessa não fazer a mínima ideia.

Das atuais 2,4 mil horas, o Novo Ensino Médio terá uma carga de 3 mil horas, das quais 1,8 mil horas serão destinadas às aprendizagens obrigatórias estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as 1,2 mil horas restantes constituirão os itinerários formativos. Esses últimos compõem a parte flexível da nova proposta, podendo a escola oferecer pelo menos dois dos cinco itinerários formativos, dos quais quatro são de aprofundamento nas áreas de conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza ou Ciências Humanas e Sociais) e um de formação técnica profissional.

Aluno de escola pública, André Passos quer estudar música na Ufrgs, mas está inseguro em relação às mudanças que irá enfrentar em 2022 no ensino médio

Aluno de escola pública, André Passos quer estudar música na Ufrgs, mas está inseguro em relação às mudanças que irá enfrentar em 2022 no ensino médio

Foto: Igor Sperotto

Há cinco anos aluno da Tuiuti, André avalia que tanto ele como os irmãos tiveram e estão tendo uma boa formação na escola. Ao buscar justificar por que até o momento os alunos não foram informados sobre o que irá mudar no ensino a partir do ano que vem, mostra-se compreensivo. Segundo o estudante, a escola enfrenta problemas sérios quanto às instalações, em obras desde 2016, sendo que, das 14 salas de aula existentes no colégio, apenas quatro estão em uso. "Tem gente que tem aula dentro do refeitório, eu tive na sala dos professores, tinha quatro turmas dentro do salão da escola. Eram lugares que não eram salas de aula, mas tiveram que virar pros alunos poderem ter as aulas", justifica.

A biblioteca é outro espaço indisponível já faz três anos na Tuiuti, relata Geovana Rosa Affeldt, diretora da escola, e como não existe concurso para bibliotecário no estado e as administrações escolares não podem designar professores para trabalhar no setor, não há perspectiva para a reabertura, prenuncia a educadora. Por isso, André relata que poucas vezes entrou na biblioteca, só mesmo quando algum professor pedia um livro específico. "Não tive muito o hábito de ler na escola", reconhece, assumindo para si a consequência de o governo do estado ter fechado todas as bibliotecas que eram atendidas por professores nas escolas da rede pública estadual.

A cerca de oito meses da implantação do Novo Ensino Médio, tramita no Conselho Estadual de Educação (CEEd/RS) a segunda versão do Referencial Curricular Gaúcho (RCG) para o Ensino Médio no Rio Grande do Sul. O Conselho está analisando a proposta enviada pela Secretaria de Educação (Seduc-RS) e deverá se manifestar até outubro sobre este referencial que, se aprovado, valerá para todas as instituições do Sistema Estadual de Ensino, públicas e privadas.

Antes mesmo de qualquer encaminhamento, Geovana adverte que não existe nenhuma possibilidade de qualquer reforma dar certo se não houver investimento: manutenção das escolas, política de reposição de professores e de profissionais de educação.

Falta de protagonismo de professores e estudantes

Mariângela Bairros, da Ufrgs: reforma excluiu universidades, docentes, escolas, gestores e alunos

Mariângela Bairros, da Ufrgs: reforma excluiu universidades, docentes, escolas, gestores e alunos

Foto: Igor Sperotto

Para refletir sobre os impactos que a implantação do Novo Ensino Médio terá na educação brasileira, é preciso entender sua origem e seus encaminhamentos. Quem afirma é Mariângela Silveira Bairros, coordenadora do Grupo de Estudos de Políticas Públicas para o Ensino Médio (Geppem) da Ufrgs. Conforme a pesquisadora, a falta de participação nas discussões referentes às reformas do ensino médio vem desde 2016, quando foi implementado o ensino médio em tempo integral, através de uma medida provisória que, depois de votada, resultou na Lei 13.415, de fevereiro de 2017. "Sem a participação das universidades, dos docentes, das escolas, de gestores ou alunos",  lamenta.

A ausência de protagonismo, especialmente dos professores, também é salientada pela diretora da escola de André. Geovana critica o fato de que as escolas estão sendo atropeladas pela nova política educacional, além dos poucos dias para discussão, os professores que quisessem participar da construção teriam que ter carga horária sobrando. "Isso no meio de uma pandemia em que estávamos tentando dar aula remota e que não sabíamos usar as tecnologias. Ou seja, o Novo Ensino Médio nos foi apresentado só pra constar. Posso te dizer que a construção do ensino médio foi por amostragem, não foi efetiva, não teve a participação de quem realmente vai ser atingido por ela," argumenta.

Um dos eixos da nova proposta é o protagonismo estudantil, mas os alunos não foram ouvidos, aponta Gabriel Grabowski

Um dos eixos da nova proposta é o protagonismo estudantil, mas os alunos não foram ouvidos, aponta Gabriel Grabowski

Foto: Feevale/ Divulgação

Gabriel Grabowski, professor da Feevale e representante da Associação de Escolas Superiores de Formação de Profissionais do Ensino (Aesufope) no Conselho Estadual de Educação, destaca ainda a exclusão dos alunos nesse processo, o que, na avaliação do educador, é um contrassenso, uma vez que um dos eixos da nova proposta é justamente o protagonismo estudantil através do projeto de vida. André confirma a ausência dos estudantes nas discussões que antecederam a implantação, pois tanto ele quanto os demais alunos do ensino médio da Tuiuti não foram chamados para opinar.

Como membro da Aesufope, Grabowski ressalta a preocupação mais ampla da entidade quando analisa o papel dos professores em questões como a mudança curricular, que implica o Novo Ensino Médio. Para a instituição, tal proposta deveria ser precedida de formação de professores, seja na universidade, seja na formação continuada. "Continuamos formando professores por áreas de conhecimento, e a reforma agora vem por competências e habilidades," explica.

Futuro desigual a egressos da escola pública e privada

Sani Cardon, diretor do Sinpro/RS: a reforma do ensino médio acentua as desigualdades ao encaminhar o estudante da rede privada para o ensino superior e o da rede pública para o mercado de trabalho

Sani Cardon, diretor do Sinpro/RS: a reforma do ensino médio acentua as desigualdades ao encaminhar o estudante da rede privada para o ensino superior e o da rede pública para o mercado de trabalho

Foto: Igor Sperotto

O fato de a escola Tuiuti comemorar seus 80 anos de existência em 2022, com apenas 28% de suas salas de aula em condições de uso, atesta os argumentos de muitos educadores e gestores quando apontam a falta de investimento na educação pública como fator que potencializa o abismo já existente entre as redes de educação básica pública e privada de ensino no Brasil. "Enquanto os investimentos na educação pública estão congelados desde 2016, a rede privada vai investir porque vai repassar para as mensalidades. Ou seja, a inciativa privada poderá oferecer mais opções ao aluno", afirma o professor da PUCRS Sani Belfer Cardon, diretor do Sinpro/RS, ao analisar as condições prévias à implantação do Novo Ensino Médio.

Outra crítica de Sani que potencializa esse distanciamento entre as redes é que, enquanto na escola privada a preferência será oferecer itinerários formadores que incrementam o preparo para o ensino superior (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza ou Ciências Humanas e Sociais), desconsiderando o itinerário profissionalizante, nas escolas públicas um dos itinerários a ser oferecido é justamente o tecnológico. Ou seja, na avaliação do professor, é um modelo que reforça o destino do aluno da escola privada a ascender ao ensino superior, enquanto o aluno da escola pública deve se contentar com o profissionalizante. "A reforma vai ampliar o abismo que existe entre a escola pública e a privada", sentencia.



29.7.21

Rebeca resiste e triunfa no Brasil que celebra a meritocracia hereditária


Rebeca resiste e triunfa no Brasil que celebra a meritocracia hereditária

29.jul.2021 - A atleta brasileira Rebeca Andrade conquista a medalha de prata na ginástica - Dylan Martinez/Reuters
29.jul.2021 - A atleta brasileira Rebeca Andrade conquista a medalha de prata na ginástica Imagem: Dylan Martinez/Reuters
Leonardo Sakamoto | Colunista do UOL

29/07/2021 13h43

Quem, ao menos, não marejou os olhos com a prata de Rebeca Andrade na ginástica artística, esqueceu sua humanidade em algum lugar.

"Agora a gente tem a primeira medalha do Brasil na ginástica artística com uma negra. Isso é muito forte. Até pouco tempo os negros não podiam competir em alguns esportes", como bem resumiu Daiane dos Santos, primeira ginasta brasileira a conquistar um ouro em um Campeonato Mundial.

"É uma menina que veio de origem humilde, criada por uma mãe solo, veio de várias lesões para ser a segunda melhor atleta do mundo." Daiane ajudou a abrir o caminho trilhado por Rebeca. Vê-la celebrar o feito da colega, nesta quinta (29), custou outras tantas lágrimas.

Alguns que estão lendo este texto devem estar reclamando que isso é politizar o esporte. Ignoram que não há nada mais político do que uma mulher negra e pobre ter muito menos oportunidades no esporte e na vida ao nascer do que um homem branco e rico.

Sim, no Brasil, há meritocracia. Mas ela é hereditária.

A história de superação de Rebeca Andrade é incrível. Negra, pobre, periférica, filha de empregada doméstica, andava duas horas a pé para treinar no ginásio da Vila Tijuco, em Guarulhos, segunda cidade mais populosa do Estado de São Paulo, até que seu irmão conseguiu uma bicicleta para lhe dar carona.

Agora imagine quantas Rebecas deixam de desenvolver seu potencial e nunca foram e nem serão reveladas em algum projeto de educação esportiva porque faltou apoio por parte do Estado e também da iniciativa privada - que adora colar sua imagem aos vencedores do presente, mas investe menos do que poderia nas apostas do futuro.

O apoio ao esporte de base aumentou ao longo dos anos, o que tem se traduzido em resultados em campeonatos mundiais e Olimpíadas. Mas ainda estamos longe dos países que investem no esporte, como estamos longe dos países que investem na educação e ciência.

Tanto que, por aqui, cientistas rezam para que seus currículos Lattes e outras informações relevantes de sua vida acadêmica não tenham se perdido após computadores do CNPq fritarem por falta de manutenção decente.

O uso em abundância da palavra "meritocracia" esquece que o sucesso é uma somatória da atuação individual com o contexto em que a pessoa está inserida - que pode ser fértil ou não para talentos emergirem.

A ideia de que qualquer um pode chegar lá, basta querer, acaba sendo usada como uma verdade suprema e servindo a quem ignora que as pessoas não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas individuais e que, portanto, partem de lugares diferentes. Uns mais à frente, outros bem atrás.

Achar que um estudante no interior do país que comia bolachas de lama, brincava com ossinhos de zebu, andava dez quilômetros por dia para chegar à escola e ainda trabalhava no matadouro do município para ajudar na renda da família parte com igualdade de condições com outro que frequenta uma escola com laboratórios que simulam gravidade zero e possui professores com pós-doutorado em Oxford e são remunerados à altura, que viaja para um lugar diferente todos os anos a fim de conhecer o mundo e não precisará trabalhar até o final da pós-graduação é um tanto quanto irracional.

Os dois podem chegar lá. Mas se o segundo caso cruza a linha de chegada mais vezes, o primeiro é um a cada milhão. Por isso, essas histórias são contadas e recontadas à exaustão: primeiro, nós gostamos de falar de vitórias na adversidade e, segundo, são histórias úteis para convencer os outros que se um consegue, todos podem sem que o Estado faça sua parte.

O que não é verdade. Pois, dessa forma, jogamos a responsabilidade de erros históricos não compensados e de uma desigualdade crônica de condições nas próprias pessoas que terão que vencê-las.

E esse discurso é tão bem contado que, não raro, é apoiado por pessoas que, apesar de largarem em desvantagem, venceram. "Tive uma infância muito pobre e venci sozinho mesmo assim. Se pude, todos podem." Parabéns para você. Mas ao invés de pensar que todos têm que comer o pão que o diabo amassou como você, não seria melhor pensar que um mundo melhor seria aquele em que isso não fosse preciso?

Em tempos de Olimpíadas, é importantíssimo nos lembrarmos da caminhada e não apenas criticarmos os resultados finais, como muitos fazem.

Para que lembremos que nossos atletas existem, tanto os que já existem quanto os que ainda vão surgir, durante todo o tempo. E não apenas de quatro em quatro anos. E que eles nos trazem orgulho pelo que são e não só pelo que conquistam.




28.6.21

Gonzagão e Gonzaguinha – diferentes – fizeram o Brasil respirar

Gonzagão e Gonzaguinha – diferentes – fizeram o Brasil respirar



Cena do filme "Gonzagão de pai para filho", de Breno Silveira (Divulgação)

Tarso Genro (*)

"Eu não consigo respirar" – George Floyd

Luiz Gonzaga (1912 – 1989) foi o Bach e Villa-Lobos do baião, xote, xaxado: uniu o Brasil do pequeno município de Exu ao extremo sul da nação, pela música em torno da graça. Sua música vinha das raízes do sofrimento e da pulsão do amor e da violência – na seca e na miséria- na luta pela vida que acompanha a história do povo do Nordeste. Gonzagão da "Asa Branca" e do "Assum Preto" cantava que "tudo em volta é só beleza, sol de abril e a mata em flor, mas Assum Preto, cego dos olhos, não vendo a luz, canta de dor".

Gonzaguinha (1945 – 1991), seu filho, foi fruto da mistura do nordeste e do Rio, esquerda que explodiu cantando na ditadura, o "Comportamento Geral", música logo proibida em todo o país. Era o jovem sofrido que mantinha uma relação atormentada com o pai autoritário e gênio da música, que falava aos homens e mulheres do sofrido Nordeste e assim celebrava a dura arte de viver.

A relação entre os dois, de repulsa e crises sucessivas de rejeição familiar, ao fim e ao cabo, muda pelo impulso da arte e pela tolerância que a memória adormecida do avô Januário fazia vicejar. O vínculo se renova no show em que o dois – Gonzagão e Gonzaguinha – promovem percorrendo o Brasil no final de 79, com a saga do "Vida de Viajante. Iniciada no Rio, a viagem selava o reencontro em torno do mesmo sangue, composto pela dor na dura vida nordestina de Gonzagão, "filho de Januário", que entregou ao filho Gonzaguinha os primeiros acordes.

A relação entre pai e filho, Gonzagão e Gonzaguinha, é uma parábola da relação tormentosa do Nordeste com o restante do Brasil, onde este espaço do território era visto pelas suas classes ricas somente como um "peso"; como o Sul era visto pelos pobres do Nordeste como um lugar de redenção e progresso. Este imaginário foi mudado em parte, por homens e mulheres – entre outros – como Ariano Suassuna, Nise da Silveira, Jorge Amado, Euclides da Cunha,Celso Furtado, Luiza Erundina, Bárbara de Alencar, Arraes e Lula: o Nordeste como dignidade cultural, bravura e colheita, não somente como um arrabalde das elites.

Gonzagão cantava embalado pela sua relação com a terra seca, os pássaros e as pessoas dos campos calcinados, mas o seu filho – juventude ardente da insurreição contra a ditadura – cantava através do olhos cristalinos da revolução. Era o amor desesperado pela vida, do tipo que não aceita naturalmente o sofrimento alheio. Gonzagão e Gonzaguinha- nas suas vidas reais – são uma réplica de um Brasil que até agora não fez o encontro – entre o Sul e o Nordeste, nos braços da democracia.

Com perdas pessoais da dignidade humana e mortes naturalizadas pela bestialidade negacionista, estamos agora na época em que o país navega entre a tutela militar e as oligarquias escravocratas. O drama político se transformou em sociopatia ao vivo, pura laceração das mentes pelo fascismo, que já ousa debochar do sofrimento de quem não pode respirar. Sem o "charme" da democracia política estabilizada, o "consenso" mínimo funciona para uns e aponta o caminho da morte para outros. E para os neutros, reserva a Infâmia colaboracionista da indiferença.

No filme de Breno Silveira "Gonzagão de pai para filho" ambos cantam "Respeito a Januário", no início do show de abertura, iniciando o seu roteiro pelo Brasil, pois encontraram na face dura do pai de um, e avô de outro, a marca da resistência, para viver e celebrar a tradição e a luta da poesia. O "Assum Preto" não está mais cego e vê na manhã cristalina, a herança da chuva que faz o verde transparecer brilhante nas gotas iluminadas pelo sol.

Na face dura de Januário e na sua sanfona de oito baixos ambos, pai e filho, reconciliam sua história nordestina e brasileira, no bloqueio sem tréguas contra o inimigo: aquele que censura a música, interdita a poesia, produz a miséria e mata os humanos sem piedade e sem perdão. Ambos, pai e filho, naquele momento uniram – diferentes – o Brasil num canto que parecia dizer: "Eu vou respirar!" E respiraram.

Respirar no Brasil de hoje é expulsar Bolsonaro do poder.


(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.




Cancion con todos

Salgo a caminar
Por la cintura cosmica del sur
Piso en la region
Mas vegetal del viento y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de america en mi piel
Y anda en mi sangre un rio
Que libera en mi voz su caudal.

Sol de alto peru
Rostro bolivia estaño y soledad
Un verde brasil
Besa mi chile cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña america y total
Pura raiz de un grito
Destinado a crecer y a estallar.

Todas las voces todas
Todas las manos todas
Toda la sangre puede
Ser cancion en el viento
Canta conmigo canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz